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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

As 5 coisas que mais detesto na Medicina

Bom dia, amigos e amigas! Decidi começar a semana com mais uma sessão de catarse informática, desta feita sob a forma de um artigo em que partilho convosco as coisas que mais me irritam na profissão de médico. Não que queira começar a semana numa nota negativa, mas se é para mandar vir com a vida nada melhor do que fazê-lo a uma segunda-feira. Parece-me óbvio.

 

Em primeiro lugar, um disclaimer. Eu adoro ser médico. Talvez isso não transpareça no tom com que escrevo muitos dos meus textos mas é a mais pura da verdade. Quando o escolhi ser fi-lo de forma consciente e informada, sabendo perfeitamente que ser um bom médico envolve dar muito de nós aos outros sem esperar a devida recompensação, monetária ou outra. Não me imagino a fazer mais nada da minha vida, apesar das múltiplas vezes em que ao longo dos últimos anos me questionei se não seria mais feliz a trabalhar na caixa do Pingo Doce ou a servir à mesa. Dúvidas todos temos e isso é normal. O que interessa é que, no fim do dia, saibamos que o rumo que estamos a dar à nossa vida é o mais correcto.

 

Atentem, no entanto, que qualquer pessoa que diga que continuaria a exercer Medicina se ganhasse o Euromilhões está a aldrabar-vos. Eu sou o primeiro a admitir: a única dúvida que teria se me calhasse o Euromilhões seria que música escolher para fazer a minha saída triunfal do Hospital, depois de rescindir o contrato, rasgá-lo de forma dramática em frente ao Conselho de Administração e desfilar pela saída do Hospital com o dedo do meio bem erguido no ar para que todos pudessem ver. Ah, claro, e que animal escolheria para montar enquanto o faço. Um lama? Um dragão de komodo? Tudo questões válidas.

 

Mas mesmo sabendo que esta foi a vida que um sôtor escolheu, há certas e determinadas coisas na profissão de Medicina das quais desgosto particularmente. É nessas que me vou centrar, por ordem crescente de asco ou desespero que me provocam.

 

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5 - Discutir doentes com colegas de outras especialidades

 

OK, começo logo por aquela que considero potencialmente mais controversa. Eu detesto ter de discutir doentes com colegas de outras especialidades. E bem sei que na Medicina ninguém trabalha sozinho, todos dependemos uns dos outros e devemos colocar os egos de lado para promover o melhor interesse dos doentes. Ainda assim, não vale a pena tentar negar que, apesar de parecermos muito corporativistas para quem vê de fora, a verdade é que muitos de nós são uns autênticos, perdoem-me o francês, cabrõezinhos para os colegas. Particularmente para os colegas mais novos. Eu, pessoalmente, já perdi a conta ao número de vezes em que me irritei com colegas que, do conforto do seu lar, acham inadmissível que eu não saiba ver que a lesão isquémica que aparece na TC crâneo-encefálica do doente é antiga e não recente. Ou que, como é óbvio, uma dilatação de 12 mm do bacinete não é motivo para se ligar à Urologia às três da manhã. E atenção, isto serve para os dois lados. Também não me parece admissível que refilemos com um psiquiatra ou com um ortopedista por confundir um flutter auricular com uma fibrilhação auricular. Gozar com eles na Internet? Claro. Ser incorrecto com eles em pessoa? Não.

 

Tratem os colegas com respeito, gente! Independentemente da idade ou grau de diferenciação! Aquilo que para vocês parece óbvio porque o veêm todos os dias, para outro colega pode não ser! Mais: se estás em casa de prevenção e recebes uma chamada de um colega de presença física na urgência, tenta ser paciente. Eu sei que é chato ser acordado a meio da noite com uma dúvida que para ti é óbvia. Mas pensa: tu estás no conforto do teu lar e não há nada melhor que isso! Quer dizer, se estivesses num hotel de cinco estrelas na Polinésia Francesa talvez isso fosse melhor, mas tu entendeste o que quis dizer! Fazer urgência em presença fixa, com doentes à espera, acompanhantes mal-criados e sem dormir há vinte horas é e será sempre pior do que estar em casa de prevenção! Não sejas arrogante e tenta ajudar os colegas. Se achas que o doente não tem indicação cirúrgica ou não se justifica a realização de um determinado exame que o colega está a propôr, justifica-o de forma fundamentada e ajuda-o a melhorar. Não sejas um idiota que projecta as suas frustrações pessoais e profissionais em cima dos colegas mais novos. Isso não te vai fazer sentir mais feliz, a sério.

 

4 - Convencer as famílias a levar o doente para casa

 

Mais uma vez, novo disclaimer: bem sei que há gente que vive mal e não tem condições para ter os familiares, geralmente idosos e dependentes, em casa. Bem sei também que muita gente, por muito que goste do familiar, não lhe consegue prestar o apoio que precisa. Ainda assim, lamento informar-vos, mas a maioria dos casos de abandono hospital que presencio são perpetrados por gente que não vive assim tão mal e que, com algum esforço, até conseguia ter o paizinho ou a mãezinha em casa. Abandonar um familiar no hospital devia ser uma solução de último recurso, reservada para aqueles casos dramáticos em que, pura e simplesmente, não é possível prestar em ambulatório os cuidados ao doente que ele precisa. O hospital não deve ser o depósito de idosos. O hospital não deve ser usado como o local onde se vai deixar o doente porque não dá jeito tê-lo em casa. Ou porque nos apetece ir passar o fim-de-semana fora e não podemos levar o velho atrelado.

 

E mesmo nas situações dramáticas em que o internamento social é a única opção, a primeiríssima coisa que os familiares deviam fazer era ir tentar resolver a sua vidinha de forma a conseguir tirar o doente do hospital o mais rápido possível! Infelizmente não é isso que vejo. Não é infrequente ser no dia da alta que a família se lembra que não consegue ter o familiar em casa, apesar de já previamente informada, por várias vezes, que o dia da alta se está a avizinhar. Isto frustra-me de uma forma que eu não consigo exprimir por palavras. 

 

É que explicar a um familiar o porquê de o doente estar melhor em casa parece-me uma discussão fútil e uma perda de tempo. Mesmo que a família não tenha noção das complicações inerentes ao internamento, vulgo infecções nosocomiais, perda de autonomia, delirium, iatrogenias, etc., parece-me intuitivo que, sempre que possível, o doente fica melhor em casa do que no hospital! Isto na minha cabeça é óbvio. E sempre foi, mesmo antes sequer de ter entrado para Medicina.

 

Sim, é verdade que os recursos sociais extra-hospitalares deste país estão longe de ser perfeitos. E o elevado número de casos de abandono hospitalar deste país não têm a ver apenas com egoísmo ou má-fé dos familiares. Em defesa da verdade e por uma questão de justiça, é importante dizer que há muita coisa a melhorar, particularmente no que diz respeito à existência de lares com mensalidades que não sejam absolutamente incomportáveis de pagar ou vagas em cuidados continuados ou paliativos. Ainda assim, o mais importante a mudar é a mentalidade do povo. Enquanto isso não mudar, todos os investimentos irão cair em saco roto.

 

3 - Desempenhar funções que não me competem

 

Vá, vá, não se enervem, eu tenho perfeita noção que não existe trabalho nenhum em que pontualmente não tenhamos de fazer alguma tarefa para a qual não nos pagam ou que deveria ser feita por outra pessoa qualquer. Nâo há trabalhos perfeitos e isso também se aplica à Medicina. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a levantar-se de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para ir à procura do doente na sala de espera porque já o chamámos três vezes pelo intercomunicador e ele não apareceu. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a telefonar às famílias de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para informar que o doente tem alta. É assim em todo o lado e não é exclusivo da profissão médica, já sei.

 

Dito isto, a quantidade de tempo do nosso dia de trabalho que perdemos a resolver questões informáticas ou burocráticas que não nos dizem respeito é abismal. É absolutamente abismal. Ou é a impressora que não funciona e é preciso mudar o toner que ninguém sabe onde está. Ou é preciso telefonar trinta vezes para o secretariado da Imagiologia a pedir por amor de Deus para não nos marcarem a TAC que estamos a pedir para daqui a três semanas. Ou é preciso preencher um formulário qualquer que alguém se lembrou de criar para prescrever um determinado fármaco mas ninguém sabe muito bem onde está. Ou é preciso enviar dez e-mails para a Informática para nos virem arranjar o PC que não funciona há três dias. Ou é preciso esperar quase cinco minutos para que a PEM nos permita passar receitas na urgência...

 

Enfim, o Serviço Nacional de Saúde é um pesadelo burocrático. Não há outra forma de o dizer. De tal forma que me arrisco a dizer que o problema em Portugal não é a falta de médicos, mas sim a forma como somos criminalmente mal aproveitados. E basta ver que qualquer país da União Europeia mais evoluído que Portugal tem um rácio médico/habitante inferior ao nosso. Amigos, habituem-se à ideia: não é preciso abrir mais vagas nas faculdades de Medicina para resolver os problemas do SNS.

 

2 - Ver o meu recibo de vencimento

 

Esta também não é exclusiva da Medicina, bem sei. Provavelmente toda a gente que se encontra a ler este texto neste preciso momento partilha desta opinião. A não ser que o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou o Joe Berardo se encontrem a ler isto. Nesse caso, a próxima mensagem é para vocês: paguem o que devem, seus caloteiros! Não vou perder mais tempo neste tópico. Oito euros à hora.

 

1 - Transmitir más notícias às famílias

 

Num tom mais sério, termino com aquilo que, de longe, me custa mais em ser médico. E que, curiosamente, é a única coisa que sei que nunca vai mudar e que será sempre da minha responsabilidade, por muito que as coisas melhorem. Eu detesto, odeio mesmo, ter de comunicar más notícias às famílias. É horrível. E não me interpretem mal, eu tenho perfeita noção que, isto sim, tenho de ser eu a fazer. A responsabilidade de comunicar más notícias, trate-se de falecimentos ou agravamento da situação clínica, é e sempre deverá ser do médico. Mais ninguém. Mas custa. Se custa.

 

Até me considero uma pessoa relativamente impermeável, apesar de empática, à quantidade de coisas macabras que vejo no dia-a-dia, mas se houve situações que me ficaram marcadas na memória e que me hão-de perseguir para o resto da vida, certamente serão aqueles momentos em que tenho de comunicar a uma senhora que o seu marido acabou de falecer. Não é fácil explicar a alguém que a vida continua, mesmo depois de ter perdido a sua companhia dos últimos 50 anos. E cada reacção é diferente. Algumas pessoas choram, outras ficam incrédulas, outras revoltadas. A nossa função é saber lidar com todos os sentimentos que aquela notícia provocou na família. É mostrar-lhes que fizemos o nosso melhor para evitar aquele desfecho. Ou então, e talvez até mais importante que isso, é explicar-lhes que tentámos tudo para que a transição do seu ente querido para o outro lado fosse o mais pacífica possível. É transmitir-lhes alguma calma e serenidade num dos piores momentos da sua vida.

 

Esta, amigos e amigas, esta sim, é a tarefa que mais me custa fazer enquanto médico. Curiosamente, ou não, é a única que não dispensaria fazer mesmo que pudesse. Ossos do ofício.

Se os médicos fossem Vingadores

Depois de ter ido ver o filme "Avengers: Endgame" no meu home cinema privado, que fica no piso -1 da minha mansão com vista para o mar, acompanhado por duas modelos da Playboy que conheci há tempos numa dessas festas do jet set que frequento enquanto ponho o dedo no registo biométrico do Hospital e, supostamente, estou a trabalhar (wink, wink), não pude deixar de reparar que muitas das personagens do filme partilham semelhanças mais do que evidentes com muitos dos nossos colegas. Por isso mesmo, decidi dar asas à imaginação e utilizar o tempo em que devia estar a ver doentes na urgência para escrever este artigo, no qual estabeleço uma comparação entre os vários heróis da saga da Marvel e os médicos das várias especialidades que embelezam os Hospitais do SNS por esse Portugal fora. Espero que gostem.

 

AVISO: Este artigo contém spoilers. Se já viste o filme, prossegue. Se ainda não viste o filme porque estiveste de urgência e subsequentemente demasiado cansado/a para sequer pensar em ir ao cinema, percebo a tua dor. Vai ver o filme quando puderes e depois volta aqui (ou seja, lá para 2021, espero que o blog ainda exista nessa altura). Se não viste o filme porque não segues a saga e não te interessas muito por este tipo de filmes pouco intelectuais, o que raio é que se passa de errado contigo?! Como foi viver debaixo de uma rocha durante os últimos dez anos? Passaram muitos desses filmes pseudo-intelectuais da treta de que tu tanto gostas lá nesse buraco de onde vieste? Anyways, spoiler alert. Considerem-se avisados.

 

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Hulk - Ortopedia

 

Começamos com o mais óbvio. Se algum dos pequeninos presentes na sala achou que a Ortopedia poderia ser representada por alguém mais do que o Incrível Hulk (ou, em alternativa, o Drax), deve ter levado com um dumbbell na cabeça, só pode. Conhecido por ser o músculo do grupo, conhecemos neste último filme uma faceta mais intelectual e profunda do gigante verde que todos adoramos. Quase que fez lembrar quando o Ortopedista se lembra de pedir um raio-X do tórax a um doente ou consegue olhar para um ECG e perceber que está perante uma fibrilhação auricular. Mas tal como este herói, também o Ortopedista por muito que se esforce do ponto de vista intelectual, está lá para esmagar (salvo seja) e martelar ossos, cavilhas e próteses. Não se exige grande raciocínio da sua parte, mas tal como os Vingadores agradeceram a sua presença quando foi preciso manejar as Pedras do Infinito, também nós agradecemos a presença dos ortopedistas no SU quando cometemos o erro de pedir um raio-X a um doente com dor lombar e depois não o conseguimos interpretar.

 

Thor - Cirurgia Geral

 

Esta também é um bocado óbvia. A vida de Thor estabelece um paralelismo quase perfeito com o percurso de um interno de Cirurgia Geral. Começam por ser os galãs do pedaço (num caso, o galã de Asgard, no outro o galã do Bloco Operatório). Enquanto que Thor era sempre o primeiro a saltar para a frente de batalha, também o interno de Cirurgia Geral já nos seus tempos de aluno era o primeiro a saltar para a beira do campo operatório, enquanto os seus nove colegas se acotovelam atrás dele na tentativa desesperada de ver alguma coisa do que se está a passar na cirurgia. Nos seus tempos glórios, ambos demonstravam ser portadores de uma coragem notável em situações de perigo, seja a enfrentar vilões sádicos e perigosos como Loki ou, talvez pior que isso, suturar indivíduos alcoolizados à sexta-feira à noite na urgência de São José. Mas, infelizmente e como se pôde constatar neste último filme, tanto Thor como o interno, ou até já especialista, de Cirurgia Geral com o tempo vão acabando por perder o fôlego, ao mesmo tempo que a barriga vai inchando. E aquilo que em tempos foi um guerreiro valoroso, acaba por se tornar num gorducho mole que manda sempre os outros fazer o trabalho dele. Pena.

 

Homem-aranha - Gastroenterologia

 

Se há característica que podemos atribuir ao nosso vizinho amigável aracnídeo, essa característica é a agilidade. Haverá alguém melhor do que o alter ego de Peter Parker para sobrevoar os céus da cidade, percorrer túneis e caminhos apertados enquanto persegue os vilões e esgueirar-se por oríficios onde outros nunca entrariam? Claro que há! São os nossos amigos da especialidade do cócó! Com uma fluidez de movimento que faz corar o herói mais jovem desta saga, os gastroenterologistas também possuem a capacidade de explorar qualquer orifício, percorrer qualquer túnel ou canal, atravessar criptas, esfíncteres, pólipos e outros obstáculos, tudo com o intuito de descobrir por que raio é que o doente está a sangrar! E já os viram laquear varizes esofágicas? Se aquilo não vos faz lembrar o Homem-Aranha a prender os seus inimigos numa teia, provavelmente o vosso Glasgow está abaixo de 15.

 

 

Hawkeye - Anatomia Patológica

 

Eu sei que pode parecer estranha esta comparação. Mas desde cedo que este herói foi ridicularizado pelos parcos poderes que apresentava e pelo papel aparentemente secundário que desempenhou em todos os filmes da saga. Até que "Avengers: Endgame" chegou. Pudemos, finalmente, perceber que o homem que lança setas afinal é um membro válido da equipa, daqueles que mesmo não dando muito nas vistas, é crucial para o desenrolar da acção. Ora, as semelhanças entre Hawkeye e os vampiros da Medicina são mais que muitas. Vivem nas sombras, chamam pouco a atenção, gostam de conservar distância dos restantes colegas e alvos (que neste caso são os doentes) mas sem eles o mais provável era qualquer tipo de missão dar para o torto. E já nem falo na semelhança, mais que óbvia, entre o lançamento de setas e a marcação de lesões da mama com arpão. A propósito, acabei de descobrir que se escreve 'arpão' e não 'harpão'. Quem diria?

 

Capitã Marvel - Pediatria

 

A capitã Marvel foi uma adição relativamente recente à equipa. Sendo uma das personagens mais poderosas da saga, tem super-poderes que rivalizam com os de Thor ou de Hulk. No fundo, toda a gente a admira mas ninguém quer trocar de lugar com ela, porque sabem que no fim do dia se há alguém que tem de ir enfrentar o vilão sozinha, o mais provável é ter de ser ela. Com os pediatras é igual. Toda a gente admira o seu ar jovial e disposição, regra geral, bem disposta, mas ninguém está minimamente disposto a trocar de lugar com eles/elas. Porquê? Ainda perguntam? Experimentem apanhar um miúdo cigano de 5 anos a ter uma convulsão febril com a família toda à porta da sala de emergência pronta a sacar das naifas e começar a fazer desaparecer carteiras. Ao pé destes tipos, o Thanos é um menino. É nestas alturas que pensamos: ainda bem que há quem goste disto! Eles gostam. Valha-nos isso. Amém.

 

Doutor Estranho - Psiquiatria

 

Ninguém se quer meter com o poder da mente. E todos os restantes Vingadores olham para o Doctor Strange da mesma forma que, médicos, olhamos para os nossos colegas psiquiatras. Não sabemos o que andam por ali a fazer, sabemos que estão no mundo deles, não pescamos nada do que eles dizem e honestamente vivemos bem com isso. Limitamo-nos a tratar dos problemas mundanos e deixamos para eles os trâmites do subjectivo, da psicanálise, dos humores e das perturbações de personalidade. Quando eles chegam esboçamos um sorriso, como se a sua presença não nos causasse um ligeiro desconforto com o qual tentamos lidar, gostamos muito deles mas de preferência com uma distância de segurança.

 

Capitão América - Medicina Interna

 

O líder da equipa. Aquele que dá tudo por todos, com vista a fazer sempre o bem. Toda a gente o toma como garantido, mas quando a coisa aperta todos olham para ele com aquele olhar de cãozinho abandonado a aguardar orientações. Como um bom capitão, o internista é aquele que dá o corpo ao manifesto, sem pensar duas vezes e sem segundas intenções. Sabe que para que uns possam enfrentar aqueles vilões charmosos e bem vestidos que frequentam o privado e com isso ganhar 29 euros à hora, outros têm de ficar a enfrentar os soldados rasos e mal cheirosos nas trincheiras da urgência pública, ainda para mais a oito euros à hora. O Capitão América não está nisto por dinheiro, fama ou poder, mas sim porque gosta de fazer o mais acertado. O internista também. No fim, é ele que se voluntaria para as tarefas que ninguém quer fazer, como, sei lá, ir devolver as Pedras do Infinito à sua respectiva linha temporal ou ir transportar para outro hospital um doente cirúrgico que parou na enfermaria, foi ventilado pela Anestesia que agora diz que não o pode ir levar, esse tipo de coisas. Claro que depois acaba por pagar a conta. Enquanto os outros vão mantendo a sua aparência jovial, o internista chega ao fim ele próprio com um aspecto semelhante aos doentes que trata. Pelo menos assim tem a oportunidade de aplicar em si mesmo todos os conhecimentos de Geriatria que adquiriu durante a sua formação.

 

Homem de Ferro - Medicina Geral e Familiar

 

Infelizmente, no nosso mundo ainda há um ser mais infeliz que o internista. Refiro-me, logicamente, ao pobre do médico de família. Tal como Tony Stark, também ele é visto pelos colegas como um boémio que não gosta muito de trabalhar. Um calão que gosta é de boa vida e poucos calos nas mãos. Mas o que é certo é que no fim do dia é ele que se sacrifica para que o vilão possa ser destruído ou, adaptando isto para a nossa realidade, é para ele que mandamos as velhinhas que vão pela vigésima sétima vez nos últimos dois meses à urgência com dor torácica em contexto de ansiedade. É que para os internistas a batalha é dura mas, em princípio, termina quando o doente tem alta. Para o MGF não há altas. Já imaginaram o que isso é? Uma batalha eterna contra baixas fraudulentas, renovações de receituário, queixas inespecíficas e pessoas com necessidade de atenção? Se isso não é dar a vida pela Medicina, não sei o que será.

 

Menção horrorosa:

Thanos - Ministra da Saúde

 

Obviamente que tinha de fazer esta menção, até porque não há heróis se não existirem vilões à altura que os ponham à prova. Infelizmente por motivos legais aconselharam-me a não me referir a ninguém pelo seu nome verdadeiro, portanto vamos apenas dizer que este vilão é bastante TEMIDO por toda a gente. Wink, wink. Mas a sério, o plano de Thanos era dizimar metade das criaturas vivas do Universo, com a desculpa de que a Humanidade se tornou muito corrupta e dispendiosa para o planeta. Ao aniquilar metade dos seres vivos, Thanos pretendia que a metade remanescente prosperasse e mostrasse ao mundo aquilo de que realmente era capaz. Faz um bocado lembrar as políticas destes nossos tão queridos governantes. Reduzir pessoal, reduzir custos, pôr hospitais e centros de saúde a funcionar com metade dos recursos humanos com que deveriam funcionar e esperar que a metade que resta se sinta honrada pela oportunidade que lhe foi tão benevolamente concedida e com isso prospere e passe a produzir o dobro ou o triplo. Pelo mesmo valor, entenda-se. Claro que a coisa não podia correr bem. Se com Thanos, a metade dos heróis poupados se revoltou e acabou por levar a melhor, infelizmente parece-me que por muito que estalemos os dedos, esta vilã não vai desaparecer assim tão facilmente. Pelo menos até Outubro.

O evangelho segundo São Pérolas

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Todos certamente se encontram familiarizados com a cena icónica da Paixão de Cristo, retratada pelos quatro evangelhos do Novo Testamento. No entanto, dados recentes sugerem a existência de um evangelho apócrifo, descoberto recentemente num local de escavações arqueológicas em Jerusalém, que se pensa ser atribuído a São Pérolas, um mártir que dedicou a vida à instrução das massas, sendo responsável por textos históricos como “37ºC não é febre”, “Se vais à urgência às quatro da manhã porque tens gases, és só parvo” e, claro, a Parábola dos Recursos Humanos.

 

Segundo o Evangelho de São Pérolas, ao que parece, a cena da Paixão de Cristo foi também presenciada por médicos de algumas especialidades. Este texto apócrifo centra-se nas reacções dos vários médicos às cenas que se iam desenrolando diante dos seus olhos e começa da seguinte forma:

 

Medicina Interna: Hummm, este homem não está nada bem. Vejo claros sinais de trauma. Está polipneico e fala numa língua estranha, provavelmente aramaico, parecendo também estar a ter alucinações visuais, uma vez que continua incessantemente a chamar pelo pai, no entanto não vejo ninguém à sua volta. É melhor chamar as outras especialidades. Vou começar por pedir apoio da Cirurgia.

 

Cirurgia Geral: Então? O que é que se passa?

 

Medicina Interna: Olhe colega, este senhor que se encontra a ser crucificado apresenta no dorso múltiplas lesões compatíveis com chicotadas que acho que vão precisar de ser suturadas.

 

Cirurgia Geral: E interrompe-me o jantar por causa disso? Suturas é para o IAC! Foste ver dele à sala da pequena cirurgia?

 

Medicina Interna: Efectivamente não, porque se reparar o doente tem também múltiplas abrasões e lacerações no couro cabeludo, por causa daquela coroa de espinhos que lhe colocaram, já para não falar das lesões perfurantes das mãos e dos pés causadas pelos pregos.

 

Cirurgia Geral: Sim, mas se envolve mãos e pés tem de ser a Cirurgia Plástica a suturar! Têm de chamar a Cirurgia Plástica.

 

Medicina Interna: Humm, isso é capaz de demorar. É melhor deixarmos isto para segundo plano e focarmo-nos na polipneia. Vou pedir apoio da Pneumologia.

 

Pneumologia: Então colega, o que é que se passa?

 

Medicina Interna: Boa noite colega. Então é o seguinte: este doente está a ser crucificado mas não consegui deixar de reparar que está a ficar bastante polipneico, por isso pedi a sua colaboração.

 

Pneumologia: E a gasimetria?

 

Medicina Interna: Como calcula, não lhe consegui fazer gasimetria. O homem está crucificado a três metros de altura do chão, não consigo ir lá acima picá-lo.

 

Pneumologia: Acho isto incrível… Chamar a Pneumologia sem sequer ter uma gasimetria?! Se não consegue ir à radial, porque é que não tentou ir à femoral? Só precisava de se colocar às cavalitas de um colega seu e era capaz de lá conseguir chegar…

 

Medicina Interna: Pois, de facto é verdade, mas olhe, isto tem estado muito complicado aqui e não me lembrei dessa possibilidade. Mas mesmo sem gasimetria, o que é que acha que lhe pode estar a causar a polipneia? Será uma embolia pulmonar?

 

Pneumologia: Não! Embolia pulmonar não é, de certeza. O homem tem algum factor de risco para trombose venosa profunda?

 

Medicina Interna: Que eu saiba não. Só não consegui saber se é fumador. Quando lhe perguntei se fumava ele só dizia coisas sem sentido. Não parava de me perguntar porque é que o abandonei…

 

Pneumologia: Cá para mim essa polipneia é só ansiedade. Já experimentou dar-lhe um diazepam?

 

Medicina Interna: Tinha pensado mais em dar-lhe risperidona, atendendo ao quadro de alucinações… Mas se calhar é melhor pedir o apoio da Psiquiatria.

 

Psiquiatria: Chamou?

 

Medicina Interna: Sim. Boa noite, colega. É o seguinte: este doente está aqui com um discurso um bocado incoerente. Já pediu para nos perdoarem porque nós não sabemos o que estamos a fazer, já falou do pai, já perguntou porque é que o abandonaram. Eu acho que está a ter alucinações.

 

Psiquiatria: Sim, mas ele agora está demasiado instável para eu o entrevistar.

 

Medicina Interna: Mas não consegue apurar nada?

 

Psiquiatria: É assim, dá a sensação que tem uma relação um bocado conturbada com o pai, que me parece ser uma figura um pouco ausente. Mas tirando isso, não consigo apurar mais nada. Seja como for, sugiro exclusão de doença orgânica. Como estão as análises?

 

Medicina Interna: Não lhe conseguimos colher análises. Mas pelo aspecto dele, se não é embolia pulmonar nem doença psicológica, se calhar pode estar a hiperventilar por estar em sépsis. Se calhar vou chamar a Infecciologia.

 

Infecciologia: Diga.

 

Medicina Interna: Olá colega. Olhe, este doente está a hiperventilar e parece estar um bocado diaforético. Não conseguimos ver os restantes sinais vitais mas estamos com receio que ele esteja a ficar séptico.

 

Infecciologia: Ui, vocês já viram aqueles pregos ferrugentos espetados nas mãos e nos pés do homem? Ele fez a vacina do tétano?

 

Medicina Interna: Por acaso não lhe perguntei.

 

Infecciologia: E deram-lhe a imunoglobulina?

 

Medicina Interna: Não demos, porque achámos que havia assuntos mais urgentes a tratar, nomeadamente o facto de ele parecer estar a entrar em sépsis…

 

Infecciologia: Pois. E pode mesmo estar. E assim pela clínica não consigo perceber qual é o foco primário. Poderá ser cutâneo, atendendo às várias lesões que apresenta. Já lhe colheram produtos microbiológicos?

 

Medicina Interna: O José de Arimateia já lhe conseguiu colher um bocado de sangue com o Santo Graal… Acha que dá para enviar para hemoculturas?

 

Infecciologia: Não! Foi feito sem assepsia nenhuma, de certeza. Vai vir tudo inquinado. O melhor é começarmos já antibioterapia empírica.

 

Medicina Interna: Se calhar alguma coisa de espectro alargado, não? Piperacilina-tazobactam parece-lhe bem?

 

Infecciologia: Então mas o homem fez antibiótico nos últimos três meses, por acaso?

 

Medicina Interna: Que eu saiba, não.

 

Infecciologia: Vive em lar ou esteve internado recentemente?

 

Medicina Interna: Não.

 

Infecciologia: E qual é a prevalência de MRSA e Pseudomonas aeruginosa multirresistente aqui em Jerusalém, sabe?

 

Medicina Interna: Não faço ideia.

 

Infecciologia: Seja como for, acho que não se justifica começar já com piperacilina-tazobactam. Ainda por cima sem culturas nem sequer vamos poder de-escalar o antibiótico. Depois queixam-se que têm surtos de Clostridium difficile e KPC… Pode dar-lhe 2 milhões de unidades de penicilina G endovenosa. Cobre bem a pele e o pulmão.

 

Medicina Interna: Ok, colega. Mas acho que o homem está a começar a apagar-se. Acho que daqui a um bocado se vai cansar e deixa de respirar. Vou chamar a Anestesiologia, acho que é melhor entubar o doente.

 

Anestesiologia: Sim?

 

Medicina Interna: Olá colega. Olhe, é o seguinte: tenho aqui este doente de 33 anos, politraumatizado e com sinais de sépsis. O doente estava a hiperventilar mas agora está a ficar mais bradipneico, acho que o vamos ter de entubar e ventilar.

 

Anestesiologia: E como é que você está à espera que eu o entube? O homem está a três metros de altura! Ainda por cima nem consigo fazer hiperextensão do pescoço! Isto nem com videolaringoscópio lá vai. Se me arranjarem um escadote talvez lhe consiga pôr uma máscara laríngea…

 

Medicina Interna: E com o que é que o sedamos?

 

Anestesiologia: Damos-lhe um bocadinho de propofol.

 

Medicina Interna: Mas o homem está em choque! Se lhe damos propofol ainda se apaga de vez.

 

Anestesiologia: Pois, é verdade, de facto. Vocês têm etomidato aqui no Monte do Calvário?

 

Medicina Interna: Não faço ideia. E agora a enfermeira está na passagem de turno, não posso ir lá interromper. Seja como for, o homem já está tão apagado que se calhar nem precisa de sedação.

 

Cirurgia Plástica: Chamaram?

 

Medicina Interna: Chamámos sim, mas já há mais de uma hora.

 

Cirurgia Plástica: Estava ali no bloco a terminar uma mamoplastia mas aquilo atrasou-se um pouco mais do que eu estava à espera. Diga lá.

 

Medicina Interna: É assim, este doente tem ali quatro feridas nas mãos e nos pés que vão precisar de ser suturadas.

 

Cirurgia Plástica: Está bem, mas se calhar é melhor chamarem primeiro a Ortopedia. É que os soldados romanos estão a começar a partir as pernas dos outros condenados à morte e se calhar é mais importante tratar disso primeiro.

 

Medicina Interna: OK, então vou chamar a Ortopedia.

 

Ortopedia: Como é que é, pequeninos???

 

Medicina Interna: Oh colega, é o seguinte: este doente tem várias lacerações e lesões cutâneas que a cirurgia plástica não quer suturar, está a entrar em sépsis e já vai começar antibiótico assim que a enfermeira passar o turno, o colega de anestesiologia está a tentar ver se arranja etomidato e um escadote para lhe colocar uma máscara laríngea… E agora os soldados romanos vão lhe partir as pernas.

 

Ortopedia: Só percebi metade dessas palavras que utilizaste, pequenino. Então mas ele tem as pernas partidas ou não?

 

Medicina Interna: Ainda não, mas vai ter.

 

Ortopedia: Epá então se não tem fractura, da nossa parte tem alta.

 

Cirurgia Plástica: Da nossa também.

 

Cirurgia Geral: E da nossa.

 

Pneumologia: Da nossa também tem alta.

 

Medicina Interna: Malta, malta!!! O homem está ali crucificado, com montes de lesões a precisar de suturas, a entrar em choque séptico e na iminência de ser ventilado… E vocês dão-lhe alta assim?

 

Pneumologia: Olha, aquele soldado romano está a espetar-lhe uma lança no hemitórax! Será que era um hemotórax que estava a causar a polipneia?

 

Medicina Interna: Eu… Eu acho que o doente morreu.

 

Anestesiologia: Eu não lhe consigo sentir o pulso pedioso.

 

Pneumologia: E não está a respirar.

 

Ortopedia: Está a começar a chover, pequeninos.

 

Medicina Interna: Pronto, morreu. O que é que pomos como causa de morte no certificado de óbito?

 

Pneumologia: O melhor é pedir autópsia, não?

 

Anatomia Patológica: Não se esqueçam que hoje é sexta-feira. Se quiserem autópsia só a partir de segunda…

 

Medicina Interna: Temos de perguntar à família o que prefere. Está ali a mãe dele. O colega da Psiquiatria quer vir comigo para lhe transmitirmos a notícia?

 

Psiquiatria: Sim, posso ir. E o que dizemos quando ela perguntar qual foi a causa de morte?

 

Medicina Interna: Olhe, como esta gente é toda muito religiosa, podemos dizer que não sabemos, mas que agora ele está nas mãos de Deus.

 

Cardiologia: Chamaram?

Lair Ribeiro e o óleo de côco

Olá, ilustres colegas, amigos e amigas. Apesar de sentir que este tema tem sido debatido até à exaustão desde a peixeirada que foi o último Prós e Contras subordinado ao tema "Medicina convencional VS Terapias alternativas", hoje foi-me sugerido pelo Henrique, uma pérola de fã, que perdesse e vos fizesse perder perder algum do meu e vosso tempo, respectivamente, para falar um pouco do polémico Dr. Lair Ribeiro.

 

Fazendo apenas um apanhado geral do seu portfólio, Lair Ribeiro é um médico cardiologista autor de vários best sellers e obras científicas, como por exemplo "Fanatismo a Iemanjá" e, claro, "Gerando lucro" e "O poder da imaginação", que, de certa forma, servem como resumo da actividade "científica" desempenhada por este senhor. É conhecido pela sua posição a favor de produtos naturais para o tratamento de algumas doenças, como o óleo de côco ou a bela da águinha, em detrimento de compostos químicos que, apesar das dezenas de estudos prospectivos a demonstrar a sua eficácia, só fazem é mal à saúde e servem para enriquecer as empresas farmacêuticas e, claro está, os médicos que os prescrevem.

 

Para escrever este texto baseei-me num excerto do podcast Maluco Beleza em que o convidado foi, justamente, o senhor, perdão, doutor Lair Ribeiro. E perdoem-me, desde já, não ter assistido à entrevista na íntegra, mas infelizmente o meu tempo e neurónios são finitos e tive receio de perder demasiado dos dois se o fizesse. Como tal, vou dar-vos a oportunidade de assistirem ao excerto a que me refiro, com a ressalva de que não serão julgados se optarem por não o fazer e, caso o façam, que me ilibo de toda e qualquer responsabilidade para a vossa saúde mental e/ou física que daí possa advir. Veja o excerto da entrevista AQUI.

 

Já terminaram? OK, agora inspirem fundo e, se for preciso, massagem o seio carotídeo para controlar a taquicárdia que a visualização deste vídeo vos provocou. Eu espero.

 

Recuperados? OK, então vamos falar um pouco das barbaridades proferidas aqui pelo Sr. Lair Ribeiro.

 

Começamos pela primeira calinada do dia. Primeiro, Lair Ribeiro enuncia os vários tipos de ácidos gordos que conhece, apenas para no fim perguntar a Rui Unas: "Está vendo como eu percebo de bioquímica?". Ora, caro Lair, o facto de numerares ácidos gordos não prova que percebes de bioquímica coisíssima nenhuma. Por exemplo, eu sei númerar vários tipos de linfoma: linfoma de Hodgkin, linfoma folicular, linfoma linfoplasmocítico, linfoma difuso de grandes células B, linfoma de Burkitt, linfoma do manto, linfoma esplénico marginal, linfoma difuso de pequenas células B. Agora, o que é que eu percebo de linfomas? Bola. E aqui temos a lição número 1 do dia: decorar nomes de coisas não equivale a conhecimento aprofundado sobre nada.

 

Depois, Lair volta a utilizar o argumento clássico dos defensores das terapias alternativas, logo a seguir ao facto de se tratarem de práticas milenares (tal como as sangrias ou os autos de fé), que é o número de livros ou estudos publicados sobre o tema. Lair refere que se for feita uma pesquisa na Amazon, que como sabemos é um motor de busca de literatura científica quase tão bom como a PubMed, concluímos que existem mais de mil livros publicados sobre os benefícios do óleo de côco. "Todos favoráveis à sua utilização", reitera o Dr. Ribeiro. Como é que chegou a esta conclusão? Não faço ideia. Será que leu os mais de mil livros todos? E se os leu, será que o fez como o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República, lia os livros todos que dizia que lia (ou seja, obrigava os alunos da faculdade onde leccionava a fazer-lhe resumos para ele debitar na televisão)? Questões que ficam em aberto até um pouco mais à frente, altura em que Lair Ribeiro refere que estuda oito a dez horas por dia. Claro que fica implícito que o acto de estudar do Dr. Lair Ribeiro não é igual ao dos restantes mortais, na medida em que dá a sensação que, para ele, ver vídeos do YouTube equivale a estudar. Se assim for, eu serei certamente um especialista em gatos, já que passo uma parte significativa do meu tempo livre a ver vídeos sobre estes adoráveis felinos na Internet. Ainda ontem o fiz, até às duas da manhã. Será que estou habilitado a abrir uma clínica veterinária?

 

Mas estamos a perder-nos em pormenores e a deixar o mais importante para trás. E entramos aqui na lição número 2 do dia: o número de publicações sobre determinado tema não provam a sua eficácia. Por favor, que isto entre nas vossas cabeças, suas sumidades defensoras do poder terapêutico da água com açúcar. Existem centenas, senão milhares, de estudos e livros sobre tabaco. Isto confere ao cigarro, magicamente, alguma propriedade terapêutica? Mais do que o número de livros ou estudos, importa a sua qualidade e os resultados que transmitem!

 

De seguida somos então brindados com algum do conhecimento científico do Dr. Lair Ribeiro, quando o mesmo refere que o ácido láurico é convertido no estômago a monolaurina, substância que inibe a transcriptase (presumo que reversa) do vírus da imunodeficiência humana. Assim, segundo o professor, esta substância milagrosa tem a capacidade de inibir a replicação do vírus e, assim, evitar a progressão da infecção para SIDA. Até aqui tudo bem, no entanto ficam algumas questões no ar. Talvez o Dr. Ribeiro não esteja a par do assunto mas, regra geral, o vírus do VIH não entra no organismo pelo estômago. Claro que com as práticas sexuais modernas a que assistimos tudo é possível, ainda assim as vias de contaminação mais frequentes continuam a ser a sexual, vertical e parentérica. Depois, aproveitando também para introduzir aqui uma perspectiva histórica, talvez o Dr. Lair não se recorde que durante muitos anos os doentes com VIH foram tratados com inibidores da transcriptase reversa como monoterapia. O que é que lhes acontecia? Morriam na mesma, apenas mais lentamente. E os que não morreram foi porque se aguentaram até surgirem outras classes de fármacos. Admitindo que a tal monolaurina possa ter eventual efeito anti-transcriptase reversa, facto que admito desde já desconhecer, ainda que pudesse ser aplicada no tratamento destes doentes, não ia ser suficiente. O VIH caracteriza-se pela sua elevadíssima capacidade mutagénica e aquisição de resistência a anti-retrovirais. Daí a importância de o tratar com várias classes de fármacos diferentes, com mecanismos de actuação diferentes. E temos aqui a lição número 3 do dia: se fores portador do VIH consome o óleo de côco que quiseres, mas por favor não pares a medicação anti-retroviral.

 

Mas aparentemente o Dr. Lair Ribeiro veio preparado para todos estes argumentos, já que pouco depois aproveita para dar o exemplo das ilhas do Pacífico, onde a dieta se baseia no côco e nos quais, segundo o senhor professor, não existe SIDA. Existe VIH, sim, mas não existe SIDA. Palavras do próprio. Referências bibliográficas? Nem vê-las. Por isso mesmo, decidi fazer uma espécie de fact-check para tentar comprovar ou desmentir as palavras deste santo. Bom, começando pelo Hawai, só em 2016 54 pessoas foram diagnosticadas com infecção por VIH. Destas, vinte tinham SIDA. E estes dados são do CDC. Portanto, podemos riscar o Hawai da lista de ilhas do Pacífico em que "não há SIDA". Na Nova Zelândia, segundo a organização UNAIDS, existiam até 2017 3700 pessoas a viver com VIH. Desde o início da epidemia, menos de 100 pessoas morreram na sequência de complicações relacionadas com a SIDA. Provavelmente pessoas que não comiam côco, presumo. Por fim, o melhor estudo que consegui arranjar sobre a prevalência da doença nas restantes ilhas do Pacífico remonta a 2004. Já nessa altura, 2335 pessoas tinham desenvolvido SIDA desde a instituição de programas de vigilância, em meados dos anos 80. Dessas, 617 já não se encontram connosco.

 

Mas foquemo-nos no côco e deixemos as ilhas do Pacífico. Porque afinal o que importa aqui é atentarmos nos benefícios desta substância maravilhosa que Deus nos deu e não nos perdermos em pormenores estatísticos. Peguemos no exemplo de Moçambique, país nosso irmão onde o côco é amplamente utilizado na cozinha. E faço aqui um aparte para vos informar que a verdadeira receita de caril leva leite de côco e quem não concorda não está autorizado a ser meu amigo. A prevalência de SIDA em Moçambique? Só Deus sabe. Aquilo que sabemos é que mais de 12% da população vive com VIH. Mas depois deste abre-olhos proporcionado por Lair Ribeiro, pergunto-me porque é que gastámos tanto tempo e dinheiro ao longo destes anos todos a distribuir preservativos e anti-retrovirais em Moçambique quando tudo o que precisávamos era de plantar coqueiros. É aquilo a que se chama má gestão de recursos.

 

Brincadeiras à parte, termino com a lição número 4: óleo de côco não previne a SIDA coisíssima nenhuma. No meu entender, cada ser humano é dono do seu próprio corpo e, portanto, soberano naquilo que deve ou não lá colocar. Ainda assim, o VIH é uma questão de saúde pública. Desta forma, se fores diabético e quiseres seguir o conselho do Conan Osíris e comer bolos, aquilo que eu vou fazer como profissional de saúde é aconselhar-te a que não o faças. Mas no fim a decisão é tua. Em relação ao VIH, a coisa é um pouco diferente, ou seja, parares de tomar o Truvada só porque um charlatão qualquer te disse que a medicação é veneno e que o óleo de côco é que é bom faz-me alguma comichão. Porque neste caso não é só a tua saúde que está em risco, mas também a da tua mulher, marido, filhos, profissionais de saúde que tratam de ti e de todos os amigos e amigas com quem gostas de jogar ao quarto escuro sem roupa. Daí que nunca seja demais realçar a importância de seguir a opinião da ciência, à qual centenas, senão milhares, de cientistas muito mais brilhantes que tu ou eu juntos dedicaram as suas vidas. Aquela na qual o Estado e empresas investiram milhões, senão biliões de euros. Foi essa ciência que nos permitiu transformar uma doença que há trinta anos era invariavelmente letal, numa patologia crónica, semelhante à hipertensão arterial ou à Diabetes. Foi essa ciência que permitiu que dois pacientes atingissem a cura. E é essa ciência que permite que, a pouco e pouco, se combata a elevadíssima incidência da doença nos países subdesenvolvidos como Moçambique. Foi a ciência que o permitiu. E não a opinião de um charlatão que acha que percebe de bioquímica.

 

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Um dia na vida de um influencer médico

 

07:00h – Olá pessoal! Prontos para mais um dia espectacular? Não? Estão cansados porque estiveram de urgência anteontem e não conseguiram descansar nada por causa dos vossos vizinhos, que fazem barulho o dia todo e dizem que estão em casa deles e podem fazer o barulho que quiserem quando vocês tentam explicar-lhes que trabalharam de noite e precisam de descansar durante o dia? Se sim, então utilizem já o código PÉROLAS para obter 20% de desconto na compra de um pack de 50 cápsulas de café de marca branca. Compatíveis com qualquer máquina, desde Delta Q até Nespresso e disponíveis em vários sabores, estas cápsulas são a forma ideal de vocês começaram o vosso dia com um sorriso na cara!

 

08:00h – Atrasaste-te a tomar banho porque ficaste a chorar mais tempo do que é costume debaixo do chuveiro e, por isso, agora não vais ter tempo de tomar o pequeno-almoço? Não há problema, porque se usares o código PÉROLAS obténs 10% de desconto na compra de iogurtes líquidos de marca branca, que poderás disfrutar durante o pára-arranca do trânsito! Mas espera, se utilizares esse código, terás ainda direito a desconto de 20% na compra de tira-nódoas instantâneo, de marca branca, para limpares a roupa quando, invariavelmente, te sujares todo/a com o iogurte numa travagem brusca!

 

08:15h – Então?! Ias sair de casa sem tomar o teu anti-depressivo? Não pode ser! E se aproveitares a oportunidade que te vou oferecer e digitares o código PÉROLAS na compra de duas caixas de fluoxetina genérica, receberás mais uma caixa totalmente gratuita! Nada melhor para transformar as lágrimas de desespero num sorriso brando de aceitação cega de que a vida é horrível.

 

10:00h – Estás a trabalhar há pouco mais de uma hora e já perdeste a conta ao número de vezes que tiveste de fazer piscinas no hospital para ir levar tubos de sangue ao laboratório, ou correr atrás de colegas de outras especialidades para os convencer a irem observar os doentes? Então aproveita esta oportunidade única para receberes um par de ténis com rodinhas que te vão permitir poupar tempo e aumentar a esperança média de vida das tuas articulações. Se introduzires o código PÉROLAS terás direito a dois pares de ténis pelo preço de um! Aproveita já!

 

11:00h – A manhã ainda só vai a meio e já te sentes exausto/a, mesmo depois de teres bebido três cafés de seguida? Então eu tenho a oportunidade ideal para ti. Utiliza o código PÉROLAS na compra de um pack de 6 latas de bebida energética de marca branca e recebe outro pack totalmente gratuito. (Atenção: promoção não inclui bebidas de marca como Red Bull ou Monster.)

 

14:00h – Acabaste agora de ver os doentes da enfermaria mas tens de ir a correr para a consulta e não tens tempo de almoçar? Não te preocupes, porque se digitares o código PÉROLAS terás direito a 20% de desconto na compra de barrinhas energéticas de marca branca, que te vão aguentar mais umas horas sem precisares de comer. Mas se fores daqueles que ainda não consegue passar sem almoçar, ao digitares este mesmo código poderás ter 40% de desconto na compra de omeprazol, que irás certamente precisar depois de engolires o teu almoço à velocidade de um TGV. Perder tempo a cortar e mastigar comida não é para ti!

 

16:00h – O computador bloqueou dez vezes e ficaste sem tinteiro na impressora e agora, por causa disso, tens uma multidão de gente à porta do teu gabinete a ameaçar-te? Ou recusaste-te a passar uma baixa de três semanas a uma utente tua com um resfriado e agora tens o marido dela a dizer que te vai bater? É nestas alturas que não me arrependo de ter tirado o curso de defesa pessoal do Mestre Kobayashi, que me permite defender-me de agressões de familiares e doentes em fúria, imobilizando-os e fugindo o mais rapidamente possível! Queres aprender a defenderes-te com o curso de defesa pessoal do Mestre Kobayashi? Então digita PÉROLAS para teres direito a 20% de desconto no curso. E se trouxeres um amigo ou amiga contigo, ambos irão ter direito a um desconto de 30%!

 

17:00h – Terminaste a consulta e só agora é que pudeste vir dar alta aos doentes da enfermaria? Enquanto estavas a imprimir as notas de alta o tinteiro ficou outra vez sem tinta? Foste tentar abanar o tinteiro e agora ficaste cheio de nódoas de tinta? Aplicaste o anti-nódoas que te falei há pouco e mesmo assim as nódoas não saíram? Uma chatice, não é? Não te preocupes, porque te vou apresentar estes tinteiros de marca branca, extra-resistentes contra abanões, para que nunca mais te voltes a sujar com tinta. Se introduzires o código PÉROLAS, terás direito a um tinteiro de cor preta por cada pack de tinteiros de cores que comprares! E não te esqueças de avisar a dona Helena que já pode imprimir o horóscopo a cores nas impressoras do hospital!

 

18:00h – Finalmente estás a sair do trabalho, mas estás totalmente de rastos e ainda vais ter de ir para casa acabar o relatório que tens em atraso ou o trabalho que vais apresentar amanhã? Então para ti, e só mesmo para ti, apresento-te aqui a minha mais recente promoção! Se utilizares o código PÉROLAS poderás, neste preciso momento, obter 30% de desconto na compra de estimulantes como o modafinil ou o metilfenidato! Mas não nos ficamos por aqui! Uma vez que é possível que desenvolvas palpitações depois da quantidade absurda de estimulantes que tomaste para aguentar o dia, vou oferecer-te também um desconto extra de 20% na compra de propranolol! É só vantagens!

 

22:00h – Ups, são dez da noite e esqueceste-te completamente que tens de jantar. Deixa lá, acontece aos melhores! Agora vais ter de encomendar pizza ou hamburguer, mas se utilizares o código PÉROLAS na compra do teu jantar, terás direito ao transporte totalmente gratuito até ao teu domicílio! Só tens de te preocupar em abrir a porta, pagar, engolir a comida e voltar ao trabalho! Não há louça para lavar, nem cozinha para arrumar! Um espectáculo!

 

01:00h – Finalmente acabaste tudo o que tinhas para fazer, foste-te deitar mas os teus vizinhos de baixo, que vivem do RSI, decidiram fazer uma festinha em casa com kizomba aos berros e estão a ignorar os teus pedidos para fazer menos barulho? Não te preocupes, o tio Pérolas está aqui para te ajudar! Introduz o código PÉROLAS e recebe um vale de 10 euros na compra de tampões para os ouvidos, de marca branca, claro está! Disfruta de uma fantástica meia-noite de sono sem seres importunado pelos teus vizinhos com estes magníficos tampões de ouvidos!

 

02:00h – Ainda acordado/a? Mesmo com os tampões nos ouvidos, não consegues adormecer porque estás constantemente a pensar que estás a arruinar a tua vida e te devias era dedicar à pesca? Eu percebo, todos já passámos por isso. Mas se digitares agora PÉROLAS, terás direito a 25% de desconto na compra de qualquer benzodiazepina. Dorme tranquilamente até seres acordado pelo teu despertador daqui a 4 horas e acordares revigorado/a para começar um novo dia!

 

Do que estás à espera para aproveitar todas estas oportunidades? Para quê sofrer? A vida é para ser vivida com um sorriso forçado e sob o efeito de estimulantes, para quando faleceres aos 55 anos, a família que negligenciaste durante toda a tua vida possa usufruir não das tuas poupanças (porque não vais ter nenhuma), mas do teu seguro de vida!

 

Pérolas da Urgência. Lixar a tua vida para salvar a dos outros nunca foi tão fixe.