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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

E se a Medicina fosse Hollywood?

Às vezes, quando estou a estudar alguma coisa super interessante e crucial para a minha formação como médico, como por exemplo, sei lá, as mutações na UDP-glucoroniltransferase, dou por mim a ocupar a minha cabeça com assuntos também eles muito interessantes mas certamente menos importantes para a minha formação. Um dos mais recentes que me assolou o pensamento enquanto eu me obrigava a gostar dos defeitos de conjugação da bilirrubina foi "E se a Medicina fosse Hollywood?". Dei por mim a estabelecer paralelismos entre as várias especialidades e os actores mais conhecidos da capital do cinema americano. O resultado foi este.

 

 

A propósito do aumento da taxa de mortalidade infantil em Portugal

Muito se tem falado do aumento da taxa de mortalidade infantil a que se assistiu durante o ano de 2018. Se em 2017 a taxa de mortalidade de crianças até um ano de idade foi de 2.7 por cada mil nascimentos, o valor mais baixo dos últimos anos, no ano passado esse mesmo valor subiu para 3.3, o que corresponde a um excedente de 60 óbitos em relação ao ano anterior.

 

Resultado de imagem para mortalidade infantil

 

Preocupante? Sim, bastante.

 

A hecatombe? Não. Não é caso para tanto. Porquê?

 

Em primeiro lugar, deve ser esclarecido que a taxa de mortalidade infantil, juntamente com a taxa de mortalidade materna, constituem dois dos mais fidedignos indicadores de qualidade dos cuidados de saúde do país. Portanto, se a taxa de mortalidade aumenta isso é sinal de que, de alguma forma, os cuidados de saúde prestados à população se degradaram. Isso é inegável.

 

Culpa de médicos, enfermeiros ou outros profissionais de saúde? Nem por sombras.

 

Culpa da má gestão pública de dinheiros e da redução do investimento na saúde a que se tem assistido nos últimos anos? Provavelmente sim.

 

(Recordo que só desde a saída da Troika de Portugal o valor investido na saúde por parte dos governos de Passos e da geringonça diminuiu 2.6 mil milhões de euros.)

 

Ou seja, é fácil estabelecer uma relação de causalidade entre a sangria a que o SNS tem sido sujeito e o aumento da taxa de mortalidade infantil. Isso é inegável.

 

Ainda assim, há que analisar estes dados com alguma sobriedade. Afinal de contas, estamos a comparar os dados de 2018 com o ano em que, por sinal, obtivemos o segundo valor mais baixo de mortalidade infantil dos últimos dez anos (apenas ultrapassado, curiosamente, por 2010 em que o valor se situou nos 2.5 óbitos por 1000 nascimentos). Ou seja, faz mais sentido comparar o valor de 2018 com a média dos últimos dez anos.

 

E como eu sou um gajo porreiro que até faz contas por vocês, posso-vos adiantar que o valor médio de mortalidade infantil em Portugal nos últimos dez anos foi 3.1, bastante mais próximo do valor obtido em 2018.

 

Ou seja, conforme disse há pouco, há razões para ficarmos preocupados porque o valor este ano foi superior à média dos últimos dez anos. No entanto não nos podemos esquecer que este indicador, tal como muitos outros, sofre oscilações pontuais com o tempo causados por uma multiplicidade de razões que não vou enumerar (até porque não as sei, se soubesse se calhar tida escolhido saúde pública em vez de estar a fazer urgências a 8 euros/hora). E, portanto, um valor isolado diz-nos pouco sobre o estado da saúde em Portugal. É preciso avaliar a tendência de variação deste índice para podermos tirar algum tipo de conclusão fidedigna sobre o mesmo.

 

É importante não perder as estribeiras com tudo o que lemos ou ouvimos. Eu sou o principal crítico das políticas deste governo e já me viram várias vezes manifestar o meu desagrado com a forma como o SNS tem sido gerido nos últimos anos. Ainda assim, é importante não levar as mãos à cabeça com qualquer headline que invada o nosso feed de notícias nas redes sociais, porque isso faz-nos parecer histéricos e perder a razão.

 

Portugal tem dos melhores e mais dedicados profissionais de saúde do mundo, não tenho dúvidas disso.

 

A razão está do nosso lado e, cedo ou tarde, há-de vir ao de cima. Mas para isso precisamos de utilizar os argumentos certos e não nos deixar levar pela indignação da semana.