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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Eu (ainda) acredito no SNS

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No meio de uma urgência caótica, às quatro da manhã, rodeado de doentes em choque séptico, familiares completamente descompensados e colegas mais novos que pedem autorização para prescrever um paracetamol (e bem!), dou por mim a pensar:

 

"É mesmo isto que eu quero para a minha vida?"

 

Dou por mim a afogar-me no meio de um sistema viciado, corrompido, que serve apenas para servir os interesses de alguns, alguns esses que, por sinal, não incluem nem os doentes nem a maior parte dos profissionais que nele trabalham. Dou por mim a olhar à minha volta e a ver uma instituição moribunda, repleta de quintas, onde cada um se esforça acima de tudo para proteger a sua própria propriedade, desprovido de qualquer tipo de interesse em fazer com que as coisas mudem para melhor. Dou por mim envolvido numa engrenagem na qual são os piores de nós que se destacam. Os mais sacanas, aqueles que passam por cima de mais gente para chegar onde querem, aqueles que querem saber de tudo menos do bem estar dos doentes e utilizam a sua nobre arte para enaltecer o seu próprio ego frágil e alimentar as suas inseguranças. Aqueles que fazem tudo para silenciar os poucos que ainda se insurgem e tentam explicar que é possível fazer com que o Serviço Nacional de Saúde funcione melhor, para todos.

 

Dou por mim a trabalhar oitenta horas por semana quando poderia trabalhar no privado e ganhar o mesmo em metade do tempo. Dou por mim a ter de justificar a uma família furiosa porque é que a TAC que foi pedida há duas horas ainda não foi realizada quando se há alma que não tem culpa disso sou eu. Dou por mim a pensar que nessas mesmas duas horas, no privado, o doente já tinha feito a TAC e já se encontrava de receita na mão, desfeito em sorrisos e agradecimentos pelo bom tratamento que recebeu na instituição. Dou por mim a procurar infindavelmente doentes que não respondem à chamada e podem estar perdidos por esses corredores do Hospital a fora, simplesmente porque não existe nenhum profissional destacado e capaz de os orientar até ao meu gabinete de observação. Dou por mim a levar com os gritos de um doente com uma cólica renal, por estar há cinco minutos à espera que eu consiga sequer aproximar-me dele sem ser abordado por trinta pessoas que querem saber resultados de análises, onde fica o raio-X, quanto tempo falta para serem atendidos, etc.

 

Dou por mim a fazer o melhor que sei, que posso e que consigo com as condições que me são oferecidas, em nome dessa nobre criação que é o SNS. Dou por mim a achar que sou masoquista por continuar a achar que o meu futuro continua a ser o SNS, que lá é que se está bem, que não posso abdicar de uma carreira hospitalar, mesmo que não consiga justificar o porquê de achar isso. Dou por mim a olhar para os meus colegas e a ver gente acabada, farta, olheirenta, desmotivada, que se continua a arrastar pelos corredores a tentar fazer com que as coisas vão funcionando. Ou pior do que isso, acomodados. Esses são os piores, os acomodados. Aqueles que acham que está tudo bem, que o SNS tem pequenas falhas como qualquer sistema, mas que é nosso dever aguentar com e corrigir essas mesmas falhas, nem que seja em prejuízo da nossa própria saúde mental ou física. Aqueles que acham que sofrer faz parte da beleza de ser médico. Que abdicar de tempo de qualidade com a família e os poucos amigos são ossos do ofício. Que faz parte. É suposto. Sempre foi assim e, portanto, se eles tiveram de passar por isso nós também temos.

 

Dou por mim a fazer um paralelismo entre o SNS e o álbum conceptual dos Pink Floyd denominado Animals (por sua vez inspirado na obra de George Orwell, Animal Farm). Nele, a sociedade encontra-se dividida essencialmente em três escalões, ou castas. Os porcos são quem manda. Têm a seu mando as ovelhas, que são aquela franja da população que simplesmente se está nas tintas e não quer saber. Por fim, os cães são quem tenta agitar o sistema e retirar os porcos do poder, apenas para no fim perderem a batalha contra as ovelhas e terem de se retirar para evitar ser chacinados.

 

Pois bem, amigos e amigas, sinto-me um autêntico cão no SNS. Os poucos de nós que vão persistindo tentam aguentar as investidas dos porcos e das ovelhas até ao dia em que se fartam e abandonam o barco. Ou, neste caso, a quinta.

 

Começo a achar que chegou a minha hora de os acompanhar. Eu não preciso disto. Não preciso de me sujeitar a estas condições de trabalho que roçam o deplorável. Não preciso de continuar a dar a cara por erros e incompetências que não fui eu que cometi. Não preciso de continuar a ser vilificado por tentar mudar aquilo que acho que está mal, de forma a tornar o SNS um sítio minimamente agradável e motivante para todos, em vez de ser só para alguns. Não preciso de continuar a passar mais tempo no hospital do que em casa para poder almejar a ter um estilo de vida próximo daquele que sonhei ter e para o qual me esforcei. Não preciso de continuar a sentir que devo alguma coisa ao meu país, aos contribuintes ou aos doentes, porque já paguei o que devia. Com juros. Não preciso de me continuar a colocar a mim e aos meus em último lugar. Não preciso de continuar a sair mais tarde do que devia. Não preciso de continuar a fazer as funções de outros para que o sistema funcione. Não preciso de continuar a abdicar do meu bem-estar para que o sistema funcione. Não preciso de continuar a achar que para ser médico é preciso ser infeliz e miserável. 


Estou desmotivado. Estou muito desmotivado. Ainda acredito no Serviço Nacional de Saúde. Até quando é que eu não sei.

Celeste, uma boa mulher

Celeste era uma boa mulher. Católica devota, mãe de cinco filhos, dedicou toda a sua vida aos outros. Desde cedo soube como a vida custava quando foi obrigada a ficar em casa a tomar conta dos irmãos, em vez de ir à escola como sempre sonhou. Quando os irmãos ficaram crescidos, rapidamente foi trabalhar para a terra com os pais, gente humilde e sem grandes posses. Mais tarde, já casada, acabou por aprender a ler e concluiu a quarta classe, completando assim um dos seus sonhos de infância.

 

Celeste casou cedo. O seu marido era Jerónimo, homem de poucas palavras e afectos, trabalhador do campo e no fundo, bem lá no fundo, um bom homem. Certo, uma ou outra vez foi mais violento com ela, sobretudo depois de algumas noites de copos. Mas Celeste, como católica praticante que era, sempre deu a outra face. Mesmo quando Jerónimo achava que uma bofetada não era suficiente. Mas vá, no outro dia de manhã pedia sempre desculpa pelo que tinha feito, jurava que não voltava a repetir e, a pouco e pouco, Celeste acabava por perdoá-lo. Afinal, se Jesus perdoou quem o crucificou, porque não havia ela de perdoar o homem a quem prometeu não abandonar? Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, certo?

 

Mas com o tempo, Jerónimo acabou por amolecer. Sobretudo após o nascimento dos netos, foram raras as vezes que lhe voltou a bater. E nunca com a força com que o havia feito no passado. Certo, Celeste passou um mau bocado quando o Senhor resolveu chamá-lo para junto Dele. Afinal, uma mulher passa a vida a dedicar a sua vida a outro ser, a transformá-lo de um ser abrutalhado num companheiro fiel com quem ainda esperava viver muitas aventuras... E o homem fina-se assim? Bom, pelo menos servia-lhe de consolo saber que Jerónimo estava com o Criador. Ou melhor, assim pensava ela. Sabemos nós que homem que bate em mulheres tem um cantinho bem especial e quentinho reservado para ele lá em baixo.

 

Mas não façamos essa desfeita à Celeste. Deixemo-la viver na ilusão de que um dia irá reencontrar o seu mais-que-tudo, pai dos seus filhos. Filhos esses que, valha-nos o Senhor, não herdaram nenhuma das características menos atractivas do pai. Carinhosos e atenciosos, sempre trataram Celeste como a princesa lá de casa, pensamento que fizeram questão de incutir aos filhos, quando os tiveram. E portanto, com o apoio da família, Celeste foi a pouco e pouco ultrapassando o trauma da viuvez.

 

Claro, se devota era quando casada, mais se tornou depois de viúva. Não havia volta a dar, os Domingos eram o dia de ir visitar o Senhor. Desde cedo tentou incutir os seus rebentos a seguirem as suas pisadas e a prostrarem-se semanalmente defronte de umas estátuas enquanto ouviam o senhor padre recitar os feitiços mágicos que pareciam hipnotizar toda a aldeia, mas infelizmente nenhum deles se tornou católico tão praticante como ela. Sinais dos tempos, dizia para si enquanto tentava convencer-se que o importante era que praticassem o bem, mesmo que se recusassem a conversar com o Criador com a mesma frequência que ela fazia.

 

Verdade seja dita, Celeste criou cinco filhos exemplares. Conseguiu ser mãe, avó, esposa, trabalhadora, conselheira, amiga... Tudo numa só pessoa. Nunca foi de chamar muito a atenção, mas quem a conhecia reconhecia-lhe o valor e o espírito guerreiro, ainda que bondoso. E, na verdade, não era preciso muito para reparar nos calos dos dedos resultantes de anos e anos a segurar enxadas e ancinhos, ou os nós dos dedos deformados de mais uns quantos anos a fazer uns biscates a costurar vestidos para gente de bem, de forma a poder complementar assim o orçamento familiar e garantir que nenhum dos filhos era privado de cumprir o sonho de estudar, se assim o quisesse.

 

E talvez todo esse esforço tenha compensado quando os anos começaram a somar-se sob os ossos cansados desta nossa avozinha querida. À medida que as costas iam encurvando, as rugas da face se tornavam mais expressivas e pronunciadas e os cabelos iam prateando, também o amor e o carinho que recebia dos filhos e netos ia aumentando. E dos bisnetos também, não fossem eles demasiado novos para sequer compreender o conceito de "mãe da avó".

 

E eis que, finalmente, depois de uma vida dedicada aos outros, o seu dia chegou. Na verdade, Celeste não se recorda bem do que se passou nesse dia. Lembra-se de acordar num sítio estranho, diferente, com uma grande quantidade de pessoas vestidas de branco à sua volta, pessoas essas que não conhecia, mas que lhe transmitiam um conforto estranho quando olhavam para ela de forma enternecida e lhe seguravam a mão. Celeste lembra-se de terem falado com ela e também de ter respondido, mas se lhe perguntarem agora do que falaram, certamente não será capaz de se lembrar. Conversas vãs, talvez.

 

A verdade é que, à medida que o tempo passava, o olhar ternurento dessas meninas e alguns meninos vestidos de branco que a rodeavam começou a transformar-se num esgar de preocupação. As bocas e olhos que antes sorriam para ela rapidamente se converteram em gritos, expressões de pânico. Aquela dança que quase os fazia flutuar em torno dela convertia-se rapidamente numa série de movimentos bruscos, toscos, em que muitos deles se atropelavam uns aos outros. A pouco e pouco mais e mais gente foi chegando. Primeiro novos, depois cada vez mais velhos, olhavam para ela com ar preocupado, coçavam a cabeça e afagavam a barba, como se algo lhes estivesse a escapar.

 

A verdade é que, de facto, Celeste não se sentia bem. Algo nela crescia, uma sensação de desconforto que insistia em não passar, mal definida, ora no peito, ora nas costas. A cabeça ficava mais e mais leve e Celeste sentia cada vez mais dificuldade em concentrar-se nas caras que a rodeavam e nos olhares transtornados que lhe lançavam. Os seus contornos esbatiam-se rapidamente e aquilo que antes eram pessoas rapidamente se transformou em vultos. Subitamente, tudo escureceu. Lá ao fundo, bem lá ao fundo, a romper o silêncio, Celeste ouviu a voz de uma mulher dizer, de forma seca:

 

"Sôtor, acho que ela vai parar".

 

Quando voltou a clarear, todos os vultos e sombras haviam desaparecido. O desconforto e mal estar que se vinha a acumular nos últimos minutos transformava-se agora numa sensação de leveza que nunca antes havia sentido, uma felicidade imensa, indescritível por palavras, que a fazia ascender em direcção às estrelas. A pouco e pouco, outros vultos iam surgindo. Vultos esses que rapidamente se convertiam em faces, incrivelmente bem esculpidas, de traços angelicais, que a fulminavam com ternura no olhar e a enchiam de alegria. Era quase como se tivesse nascido novamente. À medida que ascendia, cada vez mais Celeste tinha a certeza que tinha morrido e estava a ir para o Céu. E as faces que a olhavam só podiam ser anjos.

 

Celeste estava feliz. Finalmente, depois de uma vida dedicada aos outros, o momento dela havia chegado. Ela era a protagonista. Que especial se sentia por ser a convidada de honra daquele sítio tão especial que era o Paraíso. Será que ia reencontrar a sua mãe? A sua irmã Jacinta, de quem tanto gostava? O amor da sua vida, Jerónimo? Tantas questões, tanta antecipação! Mal se conseguia controlar. Um coro composto pelas mais belas vozes que alguma vez tinha ouvido entoava cânticos de celebração, como que a anunciar a chegada de mais uma alma à terra prometida. As lágrimas que caíam da face de Celeste eram de alegria, pura alegria, que transbordavam sob a forma se água com cloreto de sódio que os seus sacos lacrimais não mais conseguiam conter.

 

O momento havia chegado. Celeste continuava a ascender e outro vulto, este maior, de corpo inteiro, se ia assomando no seu campo visual. Uma figura masculina, de barbas brancas e longas, vestida de branco, que a fitava com um sorriso discreto, quase como se lhe estivesse a dar as boas-vindas à sua nova casa. Na sua mão direita Celeste pôde ver uma grande chave dourada, que de certeza que servia para a abrir o gigante portão, também dourado, que ia surgindo lá ao fundo, entre as nuvens.

 

"Bem-vinda, minha filha", disse o homem, com um tom de voz grave e profundo, mas terno.

 

Antes que Celeste pudesse sequer responder, sentiu como que uma corda a apertar-se com força à volta do seu pescoço. A luz desvaneceu-se rapidamente e todas os seres que sorriam e cantavam para ela foram obliterados por um relâmpago que iluminou todo o céu e apagou todo aquele cenário idílico que se desenhava à frente dos seus olhos. Depois do relâmpago, Celeste sentiu uma forte pressão a ser aplicada bem no meio do seu peito. Uma não, na verdade várias, que comprimiam a sua caixa torácica com uma força indescritível, que lhe tirava o ar e que a empurrava a pouco e pouco novamente para baixo.

 

Desesperada, Celeste tentou lutar. Sempre foi uma lutadora em vida, ainda que nunca o tenha feito de forma violenta, mas agora sentia que era imperativo debater-se. Aquele era o seu momento, ninguém tinha o direito de lho tirar. Mas nada podia fazer contra a força sobrenatural que lhe perfurava o esterno de forma ritmada e a trazia de volta à realidade. O desconforto e mal estar que antes havia sentido voltava a desenhar-se nas entranhas do seu ser, desta vez mais forte, como se as mãos invisíveis que lhe comprimiam o peito os estivessem na verdade, a fazer entrar pelo seu peito a dentro.

 

De repente, as compressões cessaram. Após poucos segundos, um novo relâmpago iluminou os céus. Este mais forte ainda que o primeiro, quase a cegava tal era a violência do impacto. Novamente, as mesmas pessoas que inicialmente a acompanharam neste sonho bizarro, aqueles miúdos e miúdas rodeadas por alguns seres mais velhos, todos vestidos de branco, iam começando novamente a surgir. Desta vez, sorriam de forma maldosa, como se tivessem satisfeitos por interromper de forma tão brusca aquele seu momento tão bonito. Lá ao longe, Celeste reconheceu algumas caras. Eram dois dos seus filhos, com as respectivas mulheres ao lado, com os olhos esbugalhados repletos de lágrimas, mãos ao peito, em pose de antecipação, como se algo de muito grave tivesse acontecido mesmo à sua frente.

 

Depois do segundo relâmpago, aquela pressão que lhe esmagava o peito voltou, mais forte que nunca. As sombras que a rodeavam iam desaparecendo a pouco e pouco e, mais uma vez, os vultos em seu redor tornaram-se cada vez mais nítidos. Celeste voltou a ouvir vozes, falando entre si de forma assertiva, sem no entanto conseguir compreender o que diziam. À medida que o seu peito ia sendo ciclicamente comprimido, o olhar de apreensão na cara dos seus filhos ia dando lugar a um esgar esperançoso, um segurar de mão apertado, um abraço vigoroso entre irmãos, quase como se festejassem uma grande vitória. As vozes dos que a rodeavam ficavam cada vez mais claras, quase a pontos de achar que lhe gritavam todas aquelas ordens e indicações ao ouvido. A certa altura, as compressões cessaram novamente. Desta vez todas as pessoas que corriam à sua volta pararam, olhando para ela com antecipação. Um dos homens mais velhos que assistia ao episódio chegou-se à frente, junto a Celeste e disse:

 

"Tem pulso. Liguem para os Cuidados Intensivos".

 

Profissionais de saúde. A atrasar encontros com São Pedro desde 1767.

 

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Olá, eu sou o Zol e quero muito ajudar a Matilde

Olá. O meu nome é Zolgensma. Ok, na verdade não é bem assim que me chamo. O meu verdadeiro nome é Onasemnogene Abeparvovec-xioi. É, quem me baptizou tinha quase tanto jeito para escolher nomes como têm aqueles casais que resolvem chamar Fátima Letícia ou Soraia Andreia às filhas. Depois lá me arranjaram um nome comercial mais catita, Zolgensma, que ainda assim faz com que muita gente morda a língua quanto o tenta pronunciar. Para facilitar as coisas, podes chamar-me Zol.

 

Quem sou eu? Ora, ainda bem que perguntas. Sou um fármaco novo, criado na terra dos arranha-céus e das celebridades que se tornam presidentes, vulgo Estados Unidos da América, por um grupo de cientistas que, após muitos anos de pesquisa e trabalho, finalmente tiveram a ideia brilhante de pegar no meu pai, um daqueles vírus chatos que só costuma dar chatices em doentes imunossuprimidos, o Cytomegalovirus e juntaram-no com a minha mãe, uma sequência genética criada em laboratório a quem os cientistas gostam de chamar vector e, após um longo romance... Voilá! Aqui estou eu.

 

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(Este sou eu. #nofilter)

 

Já vos expliquei como fui concebido mas ainda não vos expliquei qual é a minha função. Pois muito bem, fui criado especificamente para tratar uma doença genética rara, que afecta menos de uma criança por cada dez mil nascimentos, mas altamente debilitante e quase uniformemente fatal. Essa doença chama-se atrofia muscular espinhal e basicamente, sem querer entrar em pormenores muito chatos, consiste num defeito num gene, chamado SMN1, que produz uma proteína, também ela chamada SMN. Sim, esta gente é toda muito pouco original. Gastaram a "criatividade" toda quando me escolheram o nome. Enfim, o que essa proteína faz é permitir a sobrevivência dos neurónios motores da criança, que lhe permitem deglutir, mexer-se e respirar. Pronto, é verdade que o corpo humano tem outro gene semelhante que faz a mesma coisa, chamado SMN2. O único problema é que esse gene é mais preguiçoso do que um dermatologista no serviço de urgência, como tal só produz 10% da quantidade necessária de proteína para garantir a sobrevivência dos neurónios.

 

E, portanto, quando o principal gene produtor de SMN está defeituoso, a falta desta proteína leva ao desenvolviment de atrofia muscular espinhal. Esta doença manifesta-se geralmente pouco depois do nascimento e cursa com sintomas chatos como dificuldade na amamentação, hipotonia e dificuldade respiratória. Muitas das crianças que sofrem desta doença necessitam de suporte ventilatório contínuo ao fim do primeiro ano de vida e uma grande parte delas acaba mesmo por morrer durante a infância.

 

É verdade, isto é tudo muito deprimente. Mas calma, nem tudo é mau! Porque desde que eu comecei a ser testado nos ensaios clínicos, a verdade é que a maior parte das crianças que me tomou manteve-se livre de suporte ventilatório contínuo durante a duração do estudo, o que é óptimo! Não faço milagres, não sou perfeito, mas uma coisa é certa: pareço ser a melhor hipótese que estas crianças têm de ter uma infância próxima do normal.

 

Eu sei que pareço um agente imobiliário a tentar vender um T2 na Reboleira, mas as vantagens não acabam por aqui! Uma vez que sou uma terapia genética, basta ser administrado uma única vez e o tratamento fica concluído. Sessenta minutinhos de infusão e já está! Claro, a batalha não acaba por aí, seguem-se muitos anos de reabilitação e outras medidas de suporte tão ou mais importantes que eu, mas pelo menos a minha parte fica despachada!

 

Claro, nem tudo são vantagens. Apesar de não ter propriamente contraindicações, a verdade é que em algumas crianças causo lesão hepática, por vezes grave. Mas enfim, nada que o paracetamol também não cause, não é verdade? Além disso, com um mês de corticóides a coisa costuma melhorar. Infelizmente, no entanto, a minha principal desvantagem não é essa. É mesmo o preço. É que eu sou muito, muito caro. Caro a pontos de provavelmente em Portugal só o Joe Berardo me conseguir adquirir, com o dinheiro que o Estado tão gentilmente lhe "emprestou". Custo perto de dois milhões de euros, o que é uma enormidade para o português médio. Têm de se lembrar que elaborar-me custou e continua a custar muito dinheiro, envolveu muitos anos de pesquisa e trabalho de laboratório por parte de muitos cientistas, patentes, ensaios clínicos, já para não falar no transporte e na minha acomodação. Esse, meus amigos e amigas, é o meu principal defeito e quanto a isso nada posso fazer.

 

Mas enfim, voltando à minha história. Nasci e vivi toda a minha vida na terra dos livres e lar dos bravos, tratei algumas crianças, até que em meados de 2019 conheci uma menina recém-nascida chamada Matilde. A Matilde tem atrofia muscular espinhal e é uma excelente candidata a ser tratada por mim. Mal a conheci, ainda que à distância, percebi logo que a minha função era tratá-la. Não consigo deixar de olhar para os olhos dela e pensar em tudo aquilo que ela vai conseguir atingir na vida depois de me tomar. Quem sabe se não se poderá tornar uma cientista famosa e criar mais fármacos para ajudar outras crianças, como eu?

 

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(Olha-me para esta riqueza! <3)

 

Infelizmente, as coisas não estão muito fáceis para a Matilde. Actualmente está internada na sequência de uma infecção respiratória, com insuficiência respiratória. Os pais da Matilde têm feito os possíveis para divulgar o caso, foram à televisão, criaram uma página nas redes sociais e, felizmente, as pessoas estão a demonstrar uma solidariedade tremenda e a ajudar conforme podem. O tuga é mesmo assim. Passa à frente nas filas do supermercado, estaciona em segunda fila, mas também consegue ser muito solidário quando quer! A pouco e pouco, os pais da Matilde vão conseguindo amealhar uma quantia proveniente de donativos, que é jeitosa mas ainda não é suficiente para me comprar.


E o tempo urge! Quanto mais tarde eu for administrado, maior é a quantidade de neurónios que morrem e maior é também a dependência com que a Matilde vai ficar! É urgente que eu chegue o mais depressa possível a  Portugal, esse país estranho em que as pessoas não têm armas e que metade dos meus conterrâneos acha que faz parte de Espanha! Por isso te peço, a ti que estás a ler esta minha, vá, auto-biografia: se tens possibilidade, ajuda a Matilde. Faz um donativo. Pouco ou muito, não importa. E divulga. Divulga muito o caso da Matilde. Mostra às outras pessoas como é importante a minha ajuda, o quanto antes. Ao fazê-lo, estás a dar a melhor hipótese à Matilde de ter uma infância e uma vida com qualidade.

 

Este é o NIB da conta para a qual podes fazer um donativo para ajudar a Matilde:

PT50 0035 0685 00008068 130 56

Caixa Geral de Depósitos

Matilde Sande

 

Esta é a página de Facebook da Matilde:
Matilde, uma bebé especial

 

Obrigado a todos e a todas! Hoje é pela Matilde, amanhã pode ser pelo teu bebé.

Escherichia coli: a história de uma guerreira

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“Quem me dera ter tido a mesma sorte que os meus irmãos-irmãs”, pensava Escherichia coli, enquanto se preparava para enfrentar a fúria do seu pai-mãe.

 

E. coli, como era carinhosamente chamada pelos irmãos-irmãs, nasceu e cresceu num cantinho de bexiga próximo do meato uretral que, segundo as histórias contadas pelo seu progenitor, já havia sido conquistado e colonizado pelos seus antepassados há várias horas atrás, o que equivale a séculos para uma bactéria. Com emoção, ouvira várias vezes esses contos heroicos de um grupo de enterobacteriáceas, seus tetra-tetra-tetra-avôs-avós, que valorosamente haviam conseguido transitar do tracto gastro-intestinal para o tracto génito-urinário de uma hospedeira saudável, feito do qual poucas estirpes de bactérias se podem gabar. Lembrava-se da luta que foi conseguir sair do recto, atravessar o períneo, penetrar o meato urinário e marchar corajosamente uretra acima, travando batalhas épicas contra vários jactos de urina, cujo objectivo principal era arrastá-las dali para fora, batalhas essas nas quais se perderam milhões, senão biliões, de outras bactérias. Mas não o seu tetra-tetra-tetra-avô-avó. Esse conseguiu ultrapassar todas essas adversidades, tendo vindo a falecer já dentro da bexiga, não sem antes se multiplicar e dar início a uma geração de bactérias guerreiras.

 

“Pelo menos conseguiu chegar à terra prometida”, dizia-lhe o seu pai-mãe, de lágrimas nos olhos. Quer dizer, lágrimas metafóricas, uma vez que as bactérias não têm capacidade de chorar. Nem sequer têm olhos ou glândulas lacrimais. Mas a emoção era palpável nas suas palavras. Palavras, essas, metafóricas também, claro está.

 

Seguiam-se depois as histórias dos descendentes dessa bactéria peregrina, que lutaram durante várias gerações para conseguir manter aquele pequeno oásis na sua posse, travando batalhas épicas contra as malvadas células epiteliais da bexiga, que correspondem à primeira linha de defesa da imunidade inata que, por sua vez e para quem não sabe, é o mais antigo dos mecanismos de defesa dos organismos vertebrados. Durante horas, os seus antepassados combateram a pletora de interleucinas produzidas por estes seres vis mas, no fim, conseguiram prevalecer.

 

“Por isso orgulha-te dos teus flagelos e dos teus pilli, pois é por eles que estamos aqui hoje!”, brandia o seu pai-mãe, enquanto o preparava para a batalha decisiva que se avizinhava.

 

Desde cedo, Escherichia coli fez do seu principal objectivo de vida agradar ao seu pai-mãe. Nunca teve grande espírito guerreiro, é facto, mas como resistir a este chamamento glorioso que o conduzia para a batalha? E que desfeita faria ao seu pai-mãe se se acobardasse. E. coli sabia o desgosto que o seu progenitor sentia por nunca ter sido chamado para a guerra. Uma mutação num gene que codifica os seus flagelos tornou-o incapaz de combater, facto que muito o envergonhava e fazia sofrer. Talvez por isso tenha projectado tantos dos seus desejos de grandeza para o seu filho-filha que, por obra do destino, havia nascido sem essa mesma mutação e, portanto, estava apto a batalhar. E foram talvez esses mesmos desejos de grandeza que, chegada a hora, os levou a cometer o maior erro que podiam ter cometido: tentar provocar uma infecção renal, leia-se pielonefrite, em vez de causar apenas uma infecção da bexiga, também conhecida por cistite.

 

Nessa fatídica hora, Escherichia coli e os seus irmãos-irmãs marcharam rumo ao meato ureteral, o local onde a bexiga se liga aos ureteros, que são os canais de ligação entre o sistema pielo-calicial e a bexiga e, portanto, a forma mais rápida de atingir o rim. Os ânimos estavam em alta. Parecia que todas as bactérias presentes naquela expedição partilhavam dos delírios de grandeza do pai-mãe de E. coli. Entoavam-se cânticos heroicos, metafóricos, claro, ao mesmo tempo que se sonhava com as glórias que os esperavam quando atingissem o rim e causassem uma pielonefrite.

 

“Será que a Xana vai ter febre?”, perguntavam uns. “Será que vai dar entrada no Serviço de Urgência em sépsis?”, questionavam outros.

 

“Amigos-amigas”, disse o líder do grupo, “se todos-todas vocês fizerem bem o vosso trabalho, vamos conseguir mandar a Xana para os Cuidados Intensivos!”. As bactérias aplaudiram e brandiram os seus flagelos, mais determinadas que nunca.

 

Mas afinal, quem era a Xana? A Xana era a hospedeira destas bactérias. Mulher jovem, sexualmente activa, de 28 anos que, volta e meia, lá apanhava uma ou outra infecção urinária. Fã acérrima de produtos e tratamentos naturais, mal começou a sentir um certo desconforto urinário, que é aquilo a que os médicos chamam disúria, recorreu à ervanária e comprou um extracto de arando que, segundo a senhora que lho vendeu, era melhor que um antibiótico para tratar este tipo de infecções.

 

“Esses antibióticos só fazem é mal! Vai ver que vai ficar mais que boa!”, dizia-lhe a senhora da ervanária, esfregando as mãos e arregalando os olhos enquanto a Xana introduzia o código pessoal no terminal de multibanco para pagar o produto. Escusado será dizer que o extracto de arando foi água para o tetra-tetra-tetra-avô-avó de E. coli. Ao perceber que a hospedeira tinha optado por um tratamento natural em detrimento de um antibiótico, soube que a primeira batalha estava ganha. Foi um dos seus últimos consolos antes de morrer, uma espécie de prémio-carreira para um dos guerreiros-guerreiras mais valorosos que aquele microbioma alguma vez tinha visto.

 

Infelizmente, aquilo que parecia ser uma batalha ganha rapidamente se revelou um pesadelo. À chegada ao uretero, as bactérias rapidamente perceberam que o caminho até ao rim era muito mais difícil do que se pensava. Para além de íngreme, com o efeito da gravidade a jogar contra eles e a dificultar a sua já árdua batalha contra o fluxo de urina, o epitélio do uretero, que é a camada de células que reveste este canal, era muito mais difícil de penetrar do que o da bexiga.

 

A pouco e pouco, milhares de bactérias iam perecendo, sendo novamente arrastadas para a bexiga pela urina. As poucas que sobreviviam lá progrediam lentamente, quase como um grupo de exploradores a escalar o monte Evereste. Por momentos, chegaram a ver o sistema pielo-calicial lá bem ao longe. Uma espécie de porta do paraíso para estes guerreiros que, já exaustos, apenas queriam chegar ao rim, causar infecção, descansar, reproduzir-se e colher os louros de tão valorosa batalha.

 

Claro que nessa altura a Xana já estava a começar a ficar com náuseas e dor lombar e, por esse motivo, acabou por ir à urgência. Azar dos azares, como até já estava com uma frequência cardíaca um bocadinho mais acelerada, acabou por ser triada com pulseira amarela e não verde. E esse, meus amigos, esse foi o ponto de viragem da batalha. É que um azar nunca vem só e para além de receber pulseira amarela, a Xana foi à urgência às quatro da manhã, sabendo que ia ser atendida mais rapidamente porque certamente iria haver menos gente à espera. Quase que dá vontade de torcer pelas bactérias, não é?

 

E assim foi. A Xana foi atendida em pouco mais de dez minutos, fez uma análise à urina e rapidamente foi medicada. E desta vez foi medicada com um antibiótico e não com um desses produtos de ervanária que serve para nos deixar mais leves no bolso lateral das calças (ou, em algumas pessoas, no bolso traseiro).

 

Não durou muito até que o antibiótico entrasse em circulação. E daí, em poucos minutos estava no rim. E foi aí que começou a desgraça. Os nossos guerreiros valorosos, já cansados, não foram sequer adversários para o poder do antibiótico. Morreram aos milhares, senão milhões. Uma autêntica chacina. Os poucos que sobreviveram, mais não puderam fazer senão fugir e esconder-se. Foi o caso do nosso protagonista, Escherichia coli. Apavorado por ver os seus camaradas serem brutalmente assassinados por estes bárbaros da família dos beta-lactâmicos, engoliu o orgulho e fugiu. Fugiu sem olhar para trás. De lágrimas nos olhos metafóricos e com os flagelos a dar, a dar, correu como nunca havia corrido. Lá atrás ouvia os gritos dos que iam morrendo às mãos do antibiótico. Por momentos pensou que não ia sobreviver. Mas felizmente conseguiu esconder-se num divertículo da bexiga onde os antibióticos tiveram mais dificuldade em penetrar, rezou aos deuses das bactérias que o poupassem e, milagre ou não, foi poupado.

 

Depois de deixar passar o tempo de semi-vida do antibiótico, decidiu esgueirar-se para fora do divertículo onde se tinha escondido e o panorama que encontrou deixou-o de rastos. Milhares de milhões de bactérias mortas, a ser arrastadas por aquele rio de urina hemática. Restos de paredes celulares, fímbrias e flagelos espalhados por aquele tracto génito-urinário… Enfim, não foi bonito de se ver.

 

Mas apesar do terror que o preenchia, sabia que a pior batalha ainda estava para vir. Mais do que a culpa de sobrevivente. Mais do que ter assistido à morte dos seus irmãos-irmãs e primos-primas. Mais do que o desalento por saber que nunca mais iria conseguir cumprir o seu destino. Pior que isso tudo. A desilusão que ia causar ao seu pai-mãe.

 

Vagarosamente, dirigiu-se para o seu local de nascimento, aquele cantinho de bexiga que em tempos lhe transmitiu sensações tão boas e que era agora o palco do momento mais negro da sua vida.

 

O seu progenitor assomou-se à entrada, aguardando ansiosamente notícias sobre a batalha. O ar de antecipação e alegria rapidamente se transformou em apreensão e choque quando percebeu que a sua prole vinha sozinha, exibindo vários golpes que denunciavam um desfecho desfavorável do confronto.

 

- Então, filho-filha? Como correu? – perguntou, roendo as suas unhas metafóricas.

 

- Fomos dizimados, pai-mãe. – respondeu E. coli, esforçando-se de forma hercúlea para conter as lágrimas às quais não vou chamar metafóricas para não correr o risco de ser repetitivo, mas que não existiam.

 

- Dizimados?! Como assim? O que se passou?

 

- Foi um antibiótico. Um beta-lactâmico. Atacou-nos à traição quase às portas do bacinete. Não tivemos qualquer hipótese.

 

O progenitor lançou um suspiro de incredulidade e choque.

 

- Quantos… Quantos morreram?

 

- Mais de 105 unidades formadoras de colónias.

 

- Meu Deus… Que barbaridade, que massacre! Não posso crer! O que é que lhe deu para ir à urgência?! Eu julgava que ela era daquelas parvas que só se gosta de tratar com produtos naturais!

 

- Também nós, pai-mãe.

 

- E quem foi o bárbaro que lhe prescreveu o antibiótico?

 

- Provavelmente algum interno de formação específica do primeiro ou do segundo ano.

 

- Esses mentecaptos! Têm a mania que são deuses! Assassinos, é o que são!

 

Notava-se pelo tom de voz do progenitor que o sentimento de choque rapidamente se transformava em raiva. Continuou:

 

- Achas que alguns de vocês conseguiram chegar ao rim?

 

- Eu não estava na linha da frente do batalhão, por isso sobrevivi. Mas creio que sim. Não mais de mil, certamente.

 

- Então ainda há esperança!

 

- Pai-mãe, pai-mãe… O médico que a viu nem sequer lhe pediu análises ao sangue. Só à urina.

 

- Como assim? Então mas ela não tinha dor lombar?

 

- Tinha, sim.

 

- E não tinha náuseas e vómitos?

 

- Também.

 

- E não teve febre?

 

- Teve.

 

- Quanto foi a temperatura máxima dela?

 

- 37ºC.

 

- Meu idiota! 37ºC não é febre!

 

- Mas pai-mãe, a Xana sempre teve temperaturas muito baixas! A temperatura basal dela é de 35ºC. Ela com 37ºC já se sente muito prostrada! Não será febre interior?

 

Nessa altura, o progenitor parou. Ficou a olhar incrédulo para o infinito. Não conseguiu deixar de se sentir estúpido e inútil. Disse:

 

- Eu não acredito que estou a ouvir isto da tua boca, filho-filha. Tanto tempo perdido a transmitir-te os conhecimentos mais básicos sobre infecção… Conhecimentos esses que me foram transmitidos pelo meu pai-mãe e que lhe foram transmitidos a ele pelo seu pai-mãe… E assim sucessivamente até ao teu tetra-tetra-tetra-avô-avó, paz à sua alma. Tanto empenho, tantos minutos perdidos… E para quê? Para tu me vires falar de febres interiores? Para vires questionar o mais elementar dos conhecimentos sobre saúde humana? Achas-te melhor que Hipócrates?! Que Galeno?!

 

- Não, pai-mãe.

 

- Qual é o primeiro mandamento do juramento das bactérias?

- 37ºC não é febre.

 

- Qual é o segundo mandamento do juramento das bactérias?

 

- Só se considera febre quando a temperatura corporal é superior a 38.3ºC. Assim como Hipócrates escreveu, assim se cumpra.

 

- E o terceiro mandamento?

 

- Não existe febre interior. Isso é só parvo.

 

- Então porque é que me vens falar em febres interiores?! E se a temperatura máxima dela foi 37ºC, porque raio é que dizes que lhe provocaste febre?!

 

- Oh pai-mãe, ela até disse ao médico que tinha a boca toda rebentada por causa da febre…

 

E foi aí que se fez luz na sua cabeça. O seu filho-filha era um caso perdido. Nada havia a fazer para o ajudar. Sentou-se na poltrona, lançou um longo suspiro e sem o olhar nos olhos, apenas exclamou:

 

- Devias ter morrido lá com os teus irmãos-irmãs.

Omeprazol e homeoprazol: a história de dois irmãos

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Ranitidina e Sucralfato eram um casal feliz. Tinham os dois empregos muito parecidos, com a diferença de que ele trabalhava apenas durante 6 a 8 horas, e portanto tinha de ir trabalhar mais vezes, enquanto ela fazia turnos mais longos, geralmente de 12 horas, podendo, por isso, ficar mais dias em casa. A fase inicial do seu relacionamento foi algo conturbada, sobretudo devido à presença constante do ex-namorado de ranitidina, chamado Bismuto, um tipo com mau feitio que também trabalhava na área da secreção ácida do estômago. Bismuto era claramente menos eficaz na sua função do que Ranitidina, o que era fonte de muitos conflitos entre os dois enquanto mantiveram o seu conturbado relacionamento e que acabou por ser o principal motivo da sua separação. Quando Bismuto se arrependeu, Sucralfato já tinha "roubado", por assim dizer, a sua princesa encantada e estavam prestes a casar.

 

Pouco depois de se casarem, Ranitidina e Sucralfato tiveram o seu primeiro filho, um jovem chamado Omeprazol. Viria a tornar-se um jovem forte, atlético, determinado, tendo tido muito mais sucesso no ramo da inibição da secreção ácida do que os seus pais, facto que os orgulhava muito. Capaz de fazer turnos de 24 horas, Omeprazol era sistematicamente escolhido para as tarefas mais difíceis, como tratar gastrites ou esofagites erosivas ou mesmo ser co-adjuvante no tratamento de hemorragias digestivas altas. Tornou-se muito conhecido e famoso na área da protecção gástrica e por ser tão respeitado pelos restantes fármacos, acabou por ser o fundador de uma empresa denominada Inibidores da Bomba de Protões, LDA, à qual se juntaram os seus quatro primos, lansoprazol, pantoprazol, esomeprazol e rabeprazol.

 

Omeprazol não era o único filho do casal Ranitidina e Sucralfato. Pouco depois do nascimento do primeiro rebento, o casal Sucraltidina, como era conhecido entre os amigos, teve mais um filho, ao qual chamaram Homeoprazol. Infelizmente, desde logo pareceu que desta vez os deuses da farmacologia não tinham sido muito benevolentes para o casal, pois todas as características valorosas e admiráveis com que o primogénito Omeprazol havia sido brindado não tinham sido transmitidas de forma alguma a Homeoprazol. Era mais do que óbvio que o segundo filho do casal tinha um grave problema não só de desenvolvimento psico-motor mas também de temperamento. Nunca lhe tinha sido identificado qualquer tipo de propriedade farmacológica, estava constantemente a tentar denegrir o irmão e a dizer que ele é que fazia bem às pessoas e era globalmente gozado pelos restantes medicamentos, que lhe chamavam nomes maldosos como Placebo ou Água com Açúcar.

 

Talvez por esse motivo tenham Ranitidina e Sucralfato decidido proteger o pequeno Homeoprazol dos olhares jocosos e maledicências dos outros fármacos. Inclusivamente Omeprazol, por quem o irmão sentia uma inveja que faria Caim corar de vergonha, o tentava proteger. Chegou a entrar várias vezes em conflitos com os medicamentos que gozavam com o seu irmão à sua frente, tendo certamente o pior conflito sido com Clopidogrel, um fármaco anti-agregante com quem Omeprazol um dia se pegou, tendo criado uma inimizade que durou para sempre. Talvez por essa inimizade é que qualquer médico que saiba o que está a fazer sabe que nunca deve prescrever os dois fármacos em conjunto. Eles simplesmente não combinam.

 

Sim, rivalidades fraternas à parte, Omeprazol gostava de Homeoprazol. Sabia que ele era um autêntico inútil, verdade, mas gostava dele na mesma. E sabia também que cada vez que o irmão mais novo lhe chamava veneno e lhe dizia que ele era o poster boy do lobby farmacêutico, era certamente a inveja que falava mais alto. Acabava, cedo ou tarde, por perdoá-lo, até porque tinha coisas mais importantes para fazer. Dizia frequentemente que enquanto houvesse metaplasias intestinais de Barrett por tratar e Helicobacter pylori por erradicar, tudo isso era mais importante do que as bocas do irmão. Por vezes até o chegava a convidar para algum tratamento mais simples. E o irmão lá ia, coitado. Pouco fazia sem ser ver o seu irmão em acção, mas pronto, sentia-se útil também e isso era o mais importante.

 

Ao contrário do seu irmão mais velho, que precocemente abandonou o lar para ocupar a estante de uma qualquer farmácia do grupo Holon, demorou bastante tempo para que Homeoprazol saísse de casa dos pais. Apenas muito tempo depois do irmão sair, numa altura em que o QI global da população desceu inexplicavelmente vinte pontos e toda a gente começou a comprar produtos homeopáticos e naturopáticos, é que Homeoprazol conseguiu ir ocupar uma estante de uma daquelas clínicas manhosas de Medicina Holística, uma espécie de colégio para crianças com necessidades especiais onde se tentava dar alguma utilidade a este tipo de produtos problemáticos e inúteis. Foi naquela clínica que Homeoprazol conheceu alguns dos seus amigos mais próximos, como o Oscilococcinum, um rapaz filho de emigrantes ilegais que dizia curar gripes quase tão bem como um antibiótico, o Calcitrin, que dizia fortalecer os ossos dos velhinhos ao mesmo tempo que lhes esvaziava as carteiras e, não menos importante, o Cogumelo do Tempo, que andava por ali a pavonear-se gabando-se de aparecer com frequência na televisão, mas cuja função ninguém sabia bem qual era.

 

Um certo dia, Ranitidina e Sucralfato, já velhotes, decidiram reunir os dois filhos num almoço de família. Omeprazol foi o primeiro a chegar.

 

- Pai, mãe, há quanto tempo não vos via!

 

- Filho! Que saudades! - exclamou Ranitidina, enquanto corria para os braços de Omeprazol.

 

- Então, rapaz, que tens feito? - perguntou Sucralfato ao filho.

 

- Nada de diferente do costume, pai. Tratar gastrites, refluxos, ocasionalmente ajudar a matar um ou outro Helicobacter - respondeu Omeprazol.

 

- Ai filho, que orgulho que temos em ti! - disse a mãe, com uma lágrima no canto do olho.

 

- Ultimamente têm surgido uns estudos que dizem que eu ando a ser prescrito em demasia e que tenho mais efeitos adversos do que se imaginava, mas nada com a qual não consigamos lidar - referiu Omeprazol, com uma cara mais séria. Notava-se que aquele assunto o preocupava.

 

- Como assim? - perguntou o pai.

 

- Oh, sabes como é, os médicos prescrevem-me por tudo e por nada e, pior que isso, mantém os doentes indefinidamente a tomar-me sem motivo nenhum. É natural que mais cedo ou mais tarde alguém fosse notar os meus efeitos adversos. Mas nada com que se tenham de preocupar. Eu e os meus colaboradores na IBP, LDA estamos a lidar com o assunto da melhor forma.

 

Nisto, chegou Homeoprazol.

 

- Olááááááá - disse, enquanto se babava.

 

- Olá filho... - respondeu Ranitidina, sem grande entusiasmo.

 

- Então puto, estás a gostar de viver lá na Clínica da Banha da Cobra? - perguntou ironicamente Omeprazol.

 

- Não é Clínica da Banha da Cobra! É Clínica de Medicina Holística! Muito melhor que a Medicina Convencional e praticada há milénios pelos povos do Oriente! Inclui Homeopatia, Naturopatia, Medicina Tradicional Chinesa e Terapia de Biomagnetismo! E brevemente vamos abrir um departamento de Urinoterapia, onde as pessoas se vão curar fazendo xixi para cima umas das outras!

 

- Uau, que importante! Quanto tempo demoraste a decorar isso tudo? - questionou novamente Omeprazol.

 

- Vá, não sejas assim para o teu irmão. Conta-nos o que tens feito, filho - rematou Sucralfato.

 

- Olha pai, tenho feito muitas coisas importantes! Já curei gastrites, depressões, cancros e até a SIDA, só que ninguém quer saber!

 

- A sério? E onde estão os estudos que comprovam isso tudo que estás a dizer, filho?

 

- Ainda bem que perguntas, pai. Aqui os tenho - respondeu Homeoprazol, enquanto atirava uma série de papéis para cima do pai.

 

- Oh filho... Isto são só rabiscos desenhados em guardanapos de papel - disse Sucralfato, após olhar para os papéis.

 

- Ai é? Ai é? Pelo menos não são estudos comprados pelas empresas farmacêuticas, como os estudos que o Omeprazol vos traz para casa! - retorquiu Homeoprazol.

 

- Pronto, logo vi que isto tinha de cair para cima de mim - suspirou o irmão mais velho.

 

- Vá, vá, não comecem já a discutir. Vamos mas é comer, fiz rolo de carne e já está a ficar frio - disse Ranitidina.

 

- Ena pá! Rolo de carne! O meu preferido! Lá na Clínica só nos deixam comer comida paleo sem glúten, sem lactose e beber água alcalina - gritou Homeoprazol, desatando depois a correr de forma desengonçada para a cozinha.

 

- Ele... Ele tem os atacadores dos sapatos desapertados. Daqui a um bocado ainda cai e bate com a cabeça - disse Omeprazol.

 

Sucralfato chegou-se ao ouvido do filho mais velho e sussurou:

 

- Deixa. Ele nunca chegou a aprender a atar os atacadores. 

 

Pai e filho olharam um para o outro e soltaram em conjunto um suspiro de consternação. Ia ser um almoço longo.