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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Escherichia coli: a história de uma guerreira

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“Quem me dera ter tido a mesma sorte que os meus irmãos-irmãs”, pensava Escherichia coli, enquanto se preparava para enfrentar a fúria do seu pai-mãe.

 

E. coli, como era carinhosamente chamada pelos irmãos-irmãs, nasceu e cresceu num cantinho de bexiga próximo do meato uretral que, segundo as histórias contadas pelo seu progenitor, já havia sido conquistado e colonizado pelos seus antepassados há várias horas atrás, o que equivale a séculos para uma bactéria. Com emoção, ouvira várias vezes esses contos heroicos de um grupo de enterobacteriáceas, seus tetra-tetra-tetra-avôs-avós, que valorosamente haviam conseguido transitar do tracto gastro-intestinal para o tracto génito-urinário de uma hospedeira saudável, feito do qual poucas estirpes de bactérias se podem gabar. Lembrava-se da luta que foi conseguir sair do recto, atravessar o períneo, penetrar o meato urinário e marchar corajosamente uretra acima, travando batalhas épicas contra vários jactos de urina, cujo objectivo principal era arrastá-las dali para fora, batalhas essas nas quais se perderam milhões, senão biliões, de outras bactérias. Mas não o seu tetra-tetra-tetra-avô-avó. Esse conseguiu ultrapassar todas essas adversidades, tendo vindo a falecer já dentro da bexiga, não sem antes se multiplicar e dar início a uma geração de bactérias guerreiras.

 

“Pelo menos conseguiu chegar à terra prometida”, dizia-lhe o seu pai-mãe, de lágrimas nos olhos. Quer dizer, lágrimas metafóricas, uma vez que as bactérias não têm capacidade de chorar. Nem sequer têm olhos ou glândulas lacrimais. Mas a emoção era palpável nas suas palavras. Palavras, essas, metafóricas também, claro está.

 

Seguiam-se depois as histórias dos descendentes dessa bactéria peregrina, que lutaram durante várias gerações para conseguir manter aquele pequeno oásis na sua posse, travando batalhas épicas contra as malvadas células epiteliais da bexiga, que correspondem à primeira linha de defesa da imunidade inata que, por sua vez e para quem não sabe, é o mais antigo dos mecanismos de defesa dos organismos vertebrados. Durante horas, os seus antepassados combateram a pletora de interleucinas produzidas por estes seres vis mas, no fim, conseguiram prevalecer.

 

“Por isso orgulha-te dos teus flagelos e dos teus pilli, pois é por eles que estamos aqui hoje!”, brandia o seu pai-mãe, enquanto o preparava para a batalha decisiva que se avizinhava.

 

Desde cedo, Escherichia coli fez do seu principal objectivo de vida agradar ao seu pai-mãe. Nunca teve grande espírito guerreiro, é facto, mas como resistir a este chamamento glorioso que o conduzia para a batalha? E que desfeita faria ao seu pai-mãe se se acobardasse. E. coli sabia o desgosto que o seu progenitor sentia por nunca ter sido chamado para a guerra. Uma mutação num gene que codifica os seus flagelos tornou-o incapaz de combater, facto que muito o envergonhava e fazia sofrer. Talvez por isso tenha projectado tantos dos seus desejos de grandeza para o seu filho-filha que, por obra do destino, havia nascido sem essa mesma mutação e, portanto, estava apto a batalhar. E foram talvez esses mesmos desejos de grandeza que, chegada a hora, os levou a cometer o maior erro que podiam ter cometido: tentar provocar uma infecção renal, leia-se pielonefrite, em vez de causar apenas uma infecção da bexiga, também conhecida por cistite.

 

Nessa fatídica hora, Escherichia coli e os seus irmãos-irmãs marcharam rumo ao meato ureteral, o local onde a bexiga se liga aos ureteros, que são os canais de ligação entre o sistema pielo-calicial e a bexiga e, portanto, a forma mais rápida de atingir o rim. Os ânimos estavam em alta. Parecia que todas as bactérias presentes naquela expedição partilhavam dos delírios de grandeza do pai-mãe de E. coli. Entoavam-se cânticos heroicos, metafóricos, claro, ao mesmo tempo que se sonhava com as glórias que os esperavam quando atingissem o rim e causassem uma pielonefrite.

 

“Será que a Xana vai ter febre?”, perguntavam uns. “Será que vai dar entrada no Serviço de Urgência em sépsis?”, questionavam outros.

 

“Amigos-amigas”, disse o líder do grupo, “se todos-todas vocês fizerem bem o vosso trabalho, vamos conseguir mandar a Xana para os Cuidados Intensivos!”. As bactérias aplaudiram e brandiram os seus flagelos, mais determinadas que nunca.

 

Mas afinal, quem era a Xana? A Xana era a hospedeira destas bactérias. Mulher jovem, sexualmente activa, de 28 anos que, volta e meia, lá apanhava uma ou outra infecção urinária. Fã acérrima de produtos e tratamentos naturais, mal começou a sentir um certo desconforto urinário, que é aquilo a que os médicos chamam disúria, recorreu à ervanária e comprou um extracto de arando que, segundo a senhora que lho vendeu, era melhor que um antibiótico para tratar este tipo de infecções.

 

“Esses antibióticos só fazem é mal! Vai ver que vai ficar mais que boa!”, dizia-lhe a senhora da ervanária, esfregando as mãos e arregalando os olhos enquanto a Xana introduzia o código pessoal no terminal de multibanco para pagar o produto. Escusado será dizer que o extracto de arando foi água para o tetra-tetra-tetra-avô-avó de E. coli. Ao perceber que a hospedeira tinha optado por um tratamento natural em detrimento de um antibiótico, soube que a primeira batalha estava ganha. Foi um dos seus últimos consolos antes de morrer, uma espécie de prémio-carreira para um dos guerreiros-guerreiras mais valorosos que aquele microbioma alguma vez tinha visto.

 

Infelizmente, aquilo que parecia ser uma batalha ganha rapidamente se revelou um pesadelo. À chegada ao uretero, as bactérias rapidamente perceberam que o caminho até ao rim era muito mais difícil do que se pensava. Para além de íngreme, com o efeito da gravidade a jogar contra eles e a dificultar a sua já árdua batalha contra o fluxo de urina, o epitélio do uretero, que é a camada de células que reveste este canal, era muito mais difícil de penetrar do que o da bexiga.

 

A pouco e pouco, milhares de bactérias iam perecendo, sendo novamente arrastadas para a bexiga pela urina. As poucas que sobreviviam lá progrediam lentamente, quase como um grupo de exploradores a escalar o monte Evereste. Por momentos, chegaram a ver o sistema pielo-calicial lá bem ao longe. Uma espécie de porta do paraíso para estes guerreiros que, já exaustos, apenas queriam chegar ao rim, causar infecção, descansar, reproduzir-se e colher os louros de tão valorosa batalha.

 

Claro que nessa altura a Xana já estava a começar a ficar com náuseas e dor lombar e, por esse motivo, acabou por ir à urgência. Azar dos azares, como até já estava com uma frequência cardíaca um bocadinho mais acelerada, acabou por ser triada com pulseira amarela e não verde. E esse, meus amigos, esse foi o ponto de viragem da batalha. É que um azar nunca vem só e para além de receber pulseira amarela, a Xana foi à urgência às quatro da manhã, sabendo que ia ser atendida mais rapidamente porque certamente iria haver menos gente à espera. Quase que dá vontade de torcer pelas bactérias, não é?

 

E assim foi. A Xana foi atendida em pouco mais de dez minutos, fez uma análise à urina e rapidamente foi medicada. E desta vez foi medicada com um antibiótico e não com um desses produtos de ervanária que serve para nos deixar mais leves no bolso lateral das calças (ou, em algumas pessoas, no bolso traseiro).

 

Não durou muito até que o antibiótico entrasse em circulação. E daí, em poucos minutos estava no rim. E foi aí que começou a desgraça. Os nossos guerreiros valorosos, já cansados, não foram sequer adversários para o poder do antibiótico. Morreram aos milhares, senão milhões. Uma autêntica chacina. Os poucos que sobreviveram, mais não puderam fazer senão fugir e esconder-se. Foi o caso do nosso protagonista, Escherichia coli. Apavorado por ver os seus camaradas serem brutalmente assassinados por estes bárbaros da família dos beta-lactâmicos, engoliu o orgulho e fugiu. Fugiu sem olhar para trás. De lágrimas nos olhos metafóricos e com os flagelos a dar, a dar, correu como nunca havia corrido. Lá atrás ouvia os gritos dos que iam morrendo às mãos do antibiótico. Por momentos pensou que não ia sobreviver. Mas felizmente conseguiu esconder-se num divertículo da bexiga onde os antibióticos tiveram mais dificuldade em penetrar, rezou aos deuses das bactérias que o poupassem e, milagre ou não, foi poupado.

 

Depois de deixar passar o tempo de semi-vida do antibiótico, decidiu esgueirar-se para fora do divertículo onde se tinha escondido e o panorama que encontrou deixou-o de rastos. Milhares de milhões de bactérias mortas, a ser arrastadas por aquele rio de urina hemática. Restos de paredes celulares, fímbrias e flagelos espalhados por aquele tracto génito-urinário… Enfim, não foi bonito de se ver.

 

Mas apesar do terror que o preenchia, sabia que a pior batalha ainda estava para vir. Mais do que a culpa de sobrevivente. Mais do que ter assistido à morte dos seus irmãos-irmãs e primos-primas. Mais do que o desalento por saber que nunca mais iria conseguir cumprir o seu destino. Pior que isso tudo. A desilusão que ia causar ao seu pai-mãe.

 

Vagarosamente, dirigiu-se para o seu local de nascimento, aquele cantinho de bexiga que em tempos lhe transmitiu sensações tão boas e que era agora o palco do momento mais negro da sua vida.

 

O seu progenitor assomou-se à entrada, aguardando ansiosamente notícias sobre a batalha. O ar de antecipação e alegria rapidamente se transformou em apreensão e choque quando percebeu que a sua prole vinha sozinha, exibindo vários golpes que denunciavam um desfecho desfavorável do confronto.

 

- Então, filho-filha? Como correu? – perguntou, roendo as suas unhas metafóricas.

 

- Fomos dizimados, pai-mãe. – respondeu E. coli, esforçando-se de forma hercúlea para conter as lágrimas às quais não vou chamar metafóricas para não correr o risco de ser repetitivo, mas que não existiam.

 

- Dizimados?! Como assim? O que se passou?

 

- Foi um antibiótico. Um beta-lactâmico. Atacou-nos à traição quase às portas do bacinete. Não tivemos qualquer hipótese.

 

O progenitor lançou um suspiro de incredulidade e choque.

 

- Quantos… Quantos morreram?

 

- Mais de 105 unidades formadoras de colónias.

 

- Meu Deus… Que barbaridade, que massacre! Não posso crer! O que é que lhe deu para ir à urgência?! Eu julgava que ela era daquelas parvas que só se gosta de tratar com produtos naturais!

 

- Também nós, pai-mãe.

 

- E quem foi o bárbaro que lhe prescreveu o antibiótico?

 

- Provavelmente algum interno de formação específica do primeiro ou do segundo ano.

 

- Esses mentecaptos! Têm a mania que são deuses! Assassinos, é o que são!

 

Notava-se pelo tom de voz do progenitor que o sentimento de choque rapidamente se transformava em raiva. Continuou:

 

- Achas que alguns de vocês conseguiram chegar ao rim?

 

- Eu não estava na linha da frente do batalhão, por isso sobrevivi. Mas creio que sim. Não mais de mil, certamente.

 

- Então ainda há esperança!

 

- Pai-mãe, pai-mãe… O médico que a viu nem sequer lhe pediu análises ao sangue. Só à urina.

 

- Como assim? Então mas ela não tinha dor lombar?

 

- Tinha, sim.

 

- E não tinha náuseas e vómitos?

 

- Também.

 

- E não teve febre?

 

- Teve.

 

- Quanto foi a temperatura máxima dela?

 

- 37ºC.

 

- Meu idiota! 37ºC não é febre!

 

- Mas pai-mãe, a Xana sempre teve temperaturas muito baixas! A temperatura basal dela é de 35ºC. Ela com 37ºC já se sente muito prostrada! Não será febre interior?

 

Nessa altura, o progenitor parou. Ficou a olhar incrédulo para o infinito. Não conseguiu deixar de se sentir estúpido e inútil. Disse:

 

- Eu não acredito que estou a ouvir isto da tua boca, filho-filha. Tanto tempo perdido a transmitir-te os conhecimentos mais básicos sobre infecção… Conhecimentos esses que me foram transmitidos pelo meu pai-mãe e que lhe foram transmitidos a ele pelo seu pai-mãe… E assim sucessivamente até ao teu tetra-tetra-tetra-avô-avó, paz à sua alma. Tanto empenho, tantos minutos perdidos… E para quê? Para tu me vires falar de febres interiores? Para vires questionar o mais elementar dos conhecimentos sobre saúde humana? Achas-te melhor que Hipócrates?! Que Galeno?!

 

- Não, pai-mãe.

 

- Qual é o primeiro mandamento do juramento das bactérias?

- 37ºC não é febre.

 

- Qual é o segundo mandamento do juramento das bactérias?

 

- Só se considera febre quando a temperatura corporal é superior a 38.3ºC. Assim como Hipócrates escreveu, assim se cumpra.

 

- E o terceiro mandamento?

 

- Não existe febre interior. Isso é só parvo.

 

- Então porque é que me vens falar em febres interiores?! E se a temperatura máxima dela foi 37ºC, porque raio é que dizes que lhe provocaste febre?!

 

- Oh pai-mãe, ela até disse ao médico que tinha a boca toda rebentada por causa da febre…

 

E foi aí que se fez luz na sua cabeça. O seu filho-filha era um caso perdido. Nada havia a fazer para o ajudar. Sentou-se na poltrona, lançou um longo suspiro e sem o olhar nos olhos, apenas exclamou:

 

- Devias ter morrido lá com os teus irmãos-irmãs.

Omeprazol e homeoprazol: a história de dois irmãos

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Ranitidina e Sucralfato eram um casal feliz. Tinham os dois empregos muito parecidos, com a diferença de que ele trabalhava apenas durante 6 a 8 horas, e portanto tinha de ir trabalhar mais vezes, enquanto ela fazia turnos mais longos, geralmente de 12 horas, podendo, por isso, ficar mais dias em casa. A fase inicial do seu relacionamento foi algo conturbada, sobretudo devido à presença constante do ex-namorado de ranitidina, chamado Bismuto, um tipo com mau feitio que também trabalhava na área da secreção ácida do estômago. Bismuto era claramente menos eficaz na sua função do que Ranitidina, o que era fonte de muitos conflitos entre os dois enquanto mantiveram o seu conturbado relacionamento e que acabou por ser o principal motivo da sua separação. Quando Bismuto se arrependeu, Sucralfato já tinha "roubado", por assim dizer, a sua princesa encantada e estavam prestes a casar.

 

Pouco depois de se casarem, Ranitidina e Sucralfato tiveram o seu primeiro filho, um jovem chamado Omeprazol. Viria a tornar-se um jovem forte, atlético, determinado, tendo tido muito mais sucesso no ramo da inibição da secreção ácida do que os seus pais, facto que os orgulhava muito. Capaz de fazer turnos de 24 horas, Omeprazol era sistematicamente escolhido para as tarefas mais difíceis, como tratar gastrites ou esofagites erosivas ou mesmo ser co-adjuvante no tratamento de hemorragias digestivas altas. Tornou-se muito conhecido e famoso na área da protecção gástrica e por ser tão respeitado pelos restantes fármacos, acabou por ser o fundador de uma empresa denominada Inibidores da Bomba de Protões, LDA, à qual se juntaram os seus quatro primos, lansoprazol, pantoprazol, esomeprazol e rabeprazol.

 

Omeprazol não era o único filho do casal Ranitidina e Sucralfato. Pouco depois do nascimento do primeiro rebento, o casal Sucraltidina, como era conhecido entre os amigos, teve mais um filho, ao qual chamaram Homeoprazol. Infelizmente, desde logo pareceu que desta vez os deuses da farmacologia não tinham sido muito benevolentes para o casal, pois todas as características valorosas e admiráveis com que o primogénito Omeprazol havia sido brindado não tinham sido transmitidas de forma alguma a Homeoprazol. Era mais do que óbvio que o segundo filho do casal tinha um grave problema não só de desenvolvimento psico-motor mas também de temperamento. Nunca lhe tinha sido identificado qualquer tipo de propriedade farmacológica, estava constantemente a tentar denegrir o irmão e a dizer que ele é que fazia bem às pessoas e era globalmente gozado pelos restantes medicamentos, que lhe chamavam nomes maldosos como Placebo ou Água com Açúcar.

 

Talvez por esse motivo tenham Ranitidina e Sucralfato decidido proteger o pequeno Homeoprazol dos olhares jocosos e maledicências dos outros fármacos. Inclusivamente Omeprazol, por quem o irmão sentia uma inveja que faria Caim corar de vergonha, o tentava proteger. Chegou a entrar várias vezes em conflitos com os medicamentos que gozavam com o seu irmão à sua frente, tendo certamente o pior conflito sido com Clopidogrel, um fármaco anti-agregante com quem Omeprazol um dia se pegou, tendo criado uma inimizade que durou para sempre. Talvez por essa inimizade é que qualquer médico que saiba o que está a fazer sabe que nunca deve prescrever os dois fármacos em conjunto. Eles simplesmente não combinam.

 

Sim, rivalidades fraternas à parte, Omeprazol gostava de Homeoprazol. Sabia que ele era um autêntico inútil, verdade, mas gostava dele na mesma. E sabia também que cada vez que o irmão mais novo lhe chamava veneno e lhe dizia que ele era o poster boy do lobby farmacêutico, era certamente a inveja que falava mais alto. Acabava, cedo ou tarde, por perdoá-lo, até porque tinha coisas mais importantes para fazer. Dizia frequentemente que enquanto houvesse metaplasias intestinais de Barrett por tratar e Helicobacter pylori por erradicar, tudo isso era mais importante do que as bocas do irmão. Por vezes até o chegava a convidar para algum tratamento mais simples. E o irmão lá ia, coitado. Pouco fazia sem ser ver o seu irmão em acção, mas pronto, sentia-se útil também e isso era o mais importante.

 

Ao contrário do seu irmão mais velho, que precocemente abandonou o lar para ocupar a estante de uma qualquer farmácia do grupo Holon, demorou bastante tempo para que Homeoprazol saísse de casa dos pais. Apenas muito tempo depois do irmão sair, numa altura em que o QI global da população desceu inexplicavelmente vinte pontos e toda a gente começou a comprar produtos homeopáticos e naturopáticos, é que Homeoprazol conseguiu ir ocupar uma estante de uma daquelas clínicas manhosas de Medicina Holística, uma espécie de colégio para crianças com necessidades especiais onde se tentava dar alguma utilidade a este tipo de produtos problemáticos e inúteis. Foi naquela clínica que Homeoprazol conheceu alguns dos seus amigos mais próximos, como o Oscilococcinum, um rapaz filho de emigrantes ilegais que dizia curar gripes quase tão bem como um antibiótico, o Calcitrin, que dizia fortalecer os ossos dos velhinhos ao mesmo tempo que lhes esvaziava as carteiras e, não menos importante, o Cogumelo do Tempo, que andava por ali a pavonear-se gabando-se de aparecer com frequência na televisão, mas cuja função ninguém sabia bem qual era.

 

Um certo dia, Ranitidina e Sucralfato, já velhotes, decidiram reunir os dois filhos num almoço de família. Omeprazol foi o primeiro a chegar.

 

- Pai, mãe, há quanto tempo não vos via!

 

- Filho! Que saudades! - exclamou Ranitidina, enquanto corria para os braços de Omeprazol.

 

- Então, rapaz, que tens feito? - perguntou Sucralfato ao filho.

 

- Nada de diferente do costume, pai. Tratar gastrites, refluxos, ocasionalmente ajudar a matar um ou outro Helicobacter - respondeu Omeprazol.

 

- Ai filho, que orgulho que temos em ti! - disse a mãe, com uma lágrima no canto do olho.

 

- Ultimamente têm surgido uns estudos que dizem que eu ando a ser prescrito em demasia e que tenho mais efeitos adversos do que se imaginava, mas nada com a qual não consigamos lidar - referiu Omeprazol, com uma cara mais séria. Notava-se que aquele assunto o preocupava.

 

- Como assim? - perguntou o pai.

 

- Oh, sabes como é, os médicos prescrevem-me por tudo e por nada e, pior que isso, mantém os doentes indefinidamente a tomar-me sem motivo nenhum. É natural que mais cedo ou mais tarde alguém fosse notar os meus efeitos adversos. Mas nada com que se tenham de preocupar. Eu e os meus colaboradores na IBP, LDA estamos a lidar com o assunto da melhor forma.

 

Nisto, chegou Homeoprazol.

 

- Olááááááá - disse, enquanto se babava.

 

- Olá filho... - respondeu Ranitidina, sem grande entusiasmo.

 

- Então puto, estás a gostar de viver lá na Clínica da Banha da Cobra? - perguntou ironicamente Omeprazol.

 

- Não é Clínica da Banha da Cobra! É Clínica de Medicina Holística! Muito melhor que a Medicina Convencional e praticada há milénios pelos povos do Oriente! Inclui Homeopatia, Naturopatia, Medicina Tradicional Chinesa e Terapia de Biomagnetismo! E brevemente vamos abrir um departamento de Urinoterapia, onde as pessoas se vão curar fazendo xixi para cima umas das outras!

 

- Uau, que importante! Quanto tempo demoraste a decorar isso tudo? - questionou novamente Omeprazol.

 

- Vá, não sejas assim para o teu irmão. Conta-nos o que tens feito, filho - rematou Sucralfato.

 

- Olha pai, tenho feito muitas coisas importantes! Já curei gastrites, depressões, cancros e até a SIDA, só que ninguém quer saber!

 

- A sério? E onde estão os estudos que comprovam isso tudo que estás a dizer, filho?

 

- Ainda bem que perguntas, pai. Aqui os tenho - respondeu Homeoprazol, enquanto atirava uma série de papéis para cima do pai.

 

- Oh filho... Isto são só rabiscos desenhados em guardanapos de papel - disse Sucralfato, após olhar para os papéis.

 

- Ai é? Ai é? Pelo menos não são estudos comprados pelas empresas farmacêuticas, como os estudos que o Omeprazol vos traz para casa! - retorquiu Homeoprazol.

 

- Pronto, logo vi que isto tinha de cair para cima de mim - suspirou o irmão mais velho.

 

- Vá, vá, não comecem já a discutir. Vamos mas é comer, fiz rolo de carne e já está a ficar frio - disse Ranitidina.

 

- Ena pá! Rolo de carne! O meu preferido! Lá na Clínica só nos deixam comer comida paleo sem glúten, sem lactose e beber água alcalina - gritou Homeoprazol, desatando depois a correr de forma desengonçada para a cozinha.

 

- Ele... Ele tem os atacadores dos sapatos desapertados. Daqui a um bocado ainda cai e bate com a cabeça - disse Omeprazol.

 

Sucralfato chegou-se ao ouvido do filho mais velho e sussurou:

 

- Deixa. Ele nunca chegou a aprender a atar os atacadores. 

 

Pai e filho olharam um para o outro e soltaram em conjunto um suspiro de consternação. Ia ser um almoço longo.

As 5 coisas que mais detesto na Medicina

Bom dia, amigos e amigas! Decidi começar a semana com mais uma sessão de catarse informática, desta feita sob a forma de um artigo em que partilho convosco as coisas que mais me irritam na profissão de médico. Não que queira começar a semana numa nota negativa, mas se é para mandar vir com a vida nada melhor do que fazê-lo a uma segunda-feira. Parece-me óbvio.

 

Em primeiro lugar, um disclaimer. Eu adoro ser médico. Talvez isso não transpareça no tom com que escrevo muitos dos meus textos mas é a mais pura da verdade. Quando o escolhi ser fi-lo de forma consciente e informada, sabendo perfeitamente que ser um bom médico envolve dar muito de nós aos outros sem esperar a devida recompensação, monetária ou outra. Não me imagino a fazer mais nada da minha vida, apesar das múltiplas vezes em que ao longo dos últimos anos me questionei se não seria mais feliz a trabalhar na caixa do Pingo Doce ou a servir à mesa. Dúvidas todos temos e isso é normal. O que interessa é que, no fim do dia, saibamos que o rumo que estamos a dar à nossa vida é o mais correcto.

 

Atentem, no entanto, que qualquer pessoa que diga que continuaria a exercer Medicina se ganhasse o Euromilhões está a aldrabar-vos. Eu sou o primeiro a admitir: a única dúvida que teria se me calhasse o Euromilhões seria que música escolher para fazer a minha saída triunfal do Hospital, depois de rescindir o contrato, rasgá-lo de forma dramática em frente ao Conselho de Administração e desfilar pela saída do Hospital com o dedo do meio bem erguido no ar para que todos pudessem ver. Ah, claro, e que animal escolheria para montar enquanto o faço. Um lama? Um dragão de komodo? Tudo questões válidas.

 

Mas mesmo sabendo que esta foi a vida que um sôtor escolheu, há certas e determinadas coisas na profissão de Medicina das quais desgosto particularmente. É nessas que me vou centrar, por ordem crescente de asco ou desespero que me provocam.

 

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5 - Discutir doentes com colegas de outras especialidades

 

OK, começo logo por aquela que considero potencialmente mais controversa. Eu detesto ter de discutir doentes com colegas de outras especialidades. E bem sei que na Medicina ninguém trabalha sozinho, todos dependemos uns dos outros e devemos colocar os egos de lado para promover o melhor interesse dos doentes. Ainda assim, não vale a pena tentar negar que, apesar de parecermos muito corporativistas para quem vê de fora, a verdade é que muitos de nós são uns autênticos, perdoem-me o francês, cabrõezinhos para os colegas. Particularmente para os colegas mais novos. Eu, pessoalmente, já perdi a conta ao número de vezes em que me irritei com colegas que, do conforto do seu lar, acham inadmissível que eu não saiba ver que a lesão isquémica que aparece na TC crâneo-encefálica do doente é antiga e não recente. Ou que, como é óbvio, uma dilatação de 12 mm do bacinete não é motivo para se ligar à Urologia às três da manhã. E atenção, isto serve para os dois lados. Também não me parece admissível que refilemos com um psiquiatra ou com um ortopedista por confundir um flutter auricular com uma fibrilhação auricular. Gozar com eles na Internet? Claro. Ser incorrecto com eles em pessoa? Não.

 

Tratem os colegas com respeito, gente! Independentemente da idade ou grau de diferenciação! Aquilo que para vocês parece óbvio porque o veêm todos os dias, para outro colega pode não ser! Mais: se estás em casa de prevenção e recebes uma chamada de um colega de presença física na urgência, tenta ser paciente. Eu sei que é chato ser acordado a meio da noite com uma dúvida que para ti é óbvia. Mas pensa: tu estás no conforto do teu lar e não há nada melhor que isso! Quer dizer, se estivesses num hotel de cinco estrelas na Polinésia Francesa talvez isso fosse melhor, mas tu entendeste o que quis dizer! Fazer urgência em presença fixa, com doentes à espera, acompanhantes mal-criados e sem dormir há vinte horas é e será sempre pior do que estar em casa de prevenção! Não sejas arrogante e tenta ajudar os colegas. Se achas que o doente não tem indicação cirúrgica ou não se justifica a realização de um determinado exame que o colega está a propôr, justifica-o de forma fundamentada e ajuda-o a melhorar. Não sejas um idiota que projecta as suas frustrações pessoais e profissionais em cima dos colegas mais novos. Isso não te vai fazer sentir mais feliz, a sério.

 

4 - Convencer as famílias a levar o doente para casa

 

Mais uma vez, novo disclaimer: bem sei que há gente que vive mal e não tem condições para ter os familiares, geralmente idosos e dependentes, em casa. Bem sei também que muita gente, por muito que goste do familiar, não lhe consegue prestar o apoio que precisa. Ainda assim, lamento informar-vos, mas a maioria dos casos de abandono hospital que presencio são perpetrados por gente que não vive assim tão mal e que, com algum esforço, até conseguia ter o paizinho ou a mãezinha em casa. Abandonar um familiar no hospital devia ser uma solução de último recurso, reservada para aqueles casos dramáticos em que, pura e simplesmente, não é possível prestar em ambulatório os cuidados ao doente que ele precisa. O hospital não deve ser o depósito de idosos. O hospital não deve ser usado como o local onde se vai deixar o doente porque não dá jeito tê-lo em casa. Ou porque nos apetece ir passar o fim-de-semana fora e não podemos levar o velho atrelado.

 

E mesmo nas situações dramáticas em que o internamento social é a única opção, a primeiríssima coisa que os familiares deviam fazer era ir tentar resolver a sua vidinha de forma a conseguir tirar o doente do hospital o mais rápido possível! Infelizmente não é isso que vejo. Não é infrequente ser no dia da alta que a família se lembra que não consegue ter o familiar em casa, apesar de já previamente informada, por várias vezes, que o dia da alta se está a avizinhar. Isto frustra-me de uma forma que eu não consigo exprimir por palavras. 

 

É que explicar a um familiar o porquê de o doente estar melhor em casa parece-me uma discussão fútil e uma perda de tempo. Mesmo que a família não tenha noção das complicações inerentes ao internamento, vulgo infecções nosocomiais, perda de autonomia, delirium, iatrogenias, etc., parece-me intuitivo que, sempre que possível, o doente fica melhor em casa do que no hospital! Isto na minha cabeça é óbvio. E sempre foi, mesmo antes sequer de ter entrado para Medicina.

 

Sim, é verdade que os recursos sociais extra-hospitalares deste país estão longe de ser perfeitos. E o elevado número de casos de abandono hospitalar deste país não têm a ver apenas com egoísmo ou má-fé dos familiares. Em defesa da verdade e por uma questão de justiça, é importante dizer que há muita coisa a melhorar, particularmente no que diz respeito à existência de lares com mensalidades que não sejam absolutamente incomportáveis de pagar ou vagas em cuidados continuados ou paliativos. Ainda assim, o mais importante a mudar é a mentalidade do povo. Enquanto isso não mudar, todos os investimentos irão cair em saco roto.

 

3 - Desempenhar funções que não me competem

 

Vá, vá, não se enervem, eu tenho perfeita noção que não existe trabalho nenhum em que pontualmente não tenhamos de fazer alguma tarefa para a qual não nos pagam ou que deveria ser feita por outra pessoa qualquer. Nâo há trabalhos perfeitos e isso também se aplica à Medicina. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a levantar-se de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para ir à procura do doente na sala de espera porque já o chamámos três vezes pelo intercomunicador e ele não apareceu. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a telefonar às famílias de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para informar que o doente tem alta. É assim em todo o lado e não é exclusivo da profissão médica, já sei.

 

Dito isto, a quantidade de tempo do nosso dia de trabalho que perdemos a resolver questões informáticas ou burocráticas que não nos dizem respeito é abismal. É absolutamente abismal. Ou é a impressora que não funciona e é preciso mudar o toner que ninguém sabe onde está. Ou é preciso telefonar trinta vezes para o secretariado da Imagiologia a pedir por amor de Deus para não nos marcarem a TAC que estamos a pedir para daqui a três semanas. Ou é preciso preencher um formulário qualquer que alguém se lembrou de criar para prescrever um determinado fármaco mas ninguém sabe muito bem onde está. Ou é preciso enviar dez e-mails para a Informática para nos virem arranjar o PC que não funciona há três dias. Ou é preciso esperar quase cinco minutos para que a PEM nos permita passar receitas na urgência...

 

Enfim, o Serviço Nacional de Saúde é um pesadelo burocrático. Não há outra forma de o dizer. De tal forma que me arrisco a dizer que o problema em Portugal não é a falta de médicos, mas sim a forma como somos criminalmente mal aproveitados. E basta ver que qualquer país da União Europeia mais evoluído que Portugal tem um rácio médico/habitante inferior ao nosso. Amigos, habituem-se à ideia: não é preciso abrir mais vagas nas faculdades de Medicina para resolver os problemas do SNS.

 

2 - Ver o meu recibo de vencimento

 

Esta também não é exclusiva da Medicina, bem sei. Provavelmente toda a gente que se encontra a ler este texto neste preciso momento partilha desta opinião. A não ser que o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou o Joe Berardo se encontrem a ler isto. Nesse caso, a próxima mensagem é para vocês: paguem o que devem, seus caloteiros! Não vou perder mais tempo neste tópico. Oito euros à hora.

 

1 - Transmitir más notícias às famílias

 

Num tom mais sério, termino com aquilo que, de longe, me custa mais em ser médico. E que, curiosamente, é a única coisa que sei que nunca vai mudar e que será sempre da minha responsabilidade, por muito que as coisas melhorem. Eu detesto, odeio mesmo, ter de comunicar más notícias às famílias. É horrível. E não me interpretem mal, eu tenho perfeita noção que, isto sim, tenho de ser eu a fazer. A responsabilidade de comunicar más notícias, trate-se de falecimentos ou agravamento da situação clínica, é e sempre deverá ser do médico. Mais ninguém. Mas custa. Se custa.

 

Até me considero uma pessoa relativamente impermeável, apesar de empática, à quantidade de coisas macabras que vejo no dia-a-dia, mas se houve situações que me ficaram marcadas na memória e que me hão-de perseguir para o resto da vida, certamente serão aqueles momentos em que tenho de comunicar a uma senhora que o seu marido acabou de falecer. Não é fácil explicar a alguém que a vida continua, mesmo depois de ter perdido a sua companhia dos últimos 50 anos. E cada reacção é diferente. Algumas pessoas choram, outras ficam incrédulas, outras revoltadas. A nossa função é saber lidar com todos os sentimentos que aquela notícia provocou na família. É mostrar-lhes que fizemos o nosso melhor para evitar aquele desfecho. Ou então, e talvez até mais importante que isso, é explicar-lhes que tentámos tudo para que a transição do seu ente querido para o outro lado fosse o mais pacífica possível. É transmitir-lhes alguma calma e serenidade num dos piores momentos da sua vida.

 

Esta, amigos e amigas, esta sim, é a tarefa que mais me custa fazer enquanto médico. Curiosamente, ou não, é a única que não dispensaria fazer mesmo que pudesse. Ossos do ofício.

Se os médicos fossem Vingadores

Depois de ter ido ver o filme "Avengers: Endgame" no meu home cinema privado, que fica no piso -1 da minha mansão com vista para o mar, acompanhado por duas modelos da Playboy que conheci há tempos numa dessas festas do jet set que frequento enquanto ponho o dedo no registo biométrico do Hospital e, supostamente, estou a trabalhar (wink, wink), não pude deixar de reparar que muitas das personagens do filme partilham semelhanças mais do que evidentes com muitos dos nossos colegas. Por isso mesmo, decidi dar asas à imaginação e utilizar o tempo em que devia estar a ver doentes na urgência para escrever este artigo, no qual estabeleço uma comparação entre os vários heróis da saga da Marvel e os médicos das várias especialidades que embelezam os Hospitais do SNS por esse Portugal fora. Espero que gostem.

 

AVISO: Este artigo contém spoilers. Se já viste o filme, prossegue. Se ainda não viste o filme porque estiveste de urgência e subsequentemente demasiado cansado/a para sequer pensar em ir ao cinema, percebo a tua dor. Vai ver o filme quando puderes e depois volta aqui (ou seja, lá para 2021, espero que o blog ainda exista nessa altura). Se não viste o filme porque não segues a saga e não te interessas muito por este tipo de filmes pouco intelectuais, o que raio é que se passa de errado contigo?! Como foi viver debaixo de uma rocha durante os últimos dez anos? Passaram muitos desses filmes pseudo-intelectuais da treta de que tu tanto gostas lá nesse buraco de onde vieste? Anyways, spoiler alert. Considerem-se avisados.

 

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Hulk - Ortopedia

 

Começamos com o mais óbvio. Se algum dos pequeninos presentes na sala achou que a Ortopedia poderia ser representada por alguém mais do que o Incrível Hulk (ou, em alternativa, o Drax), deve ter levado com um dumbbell na cabeça, só pode. Conhecido por ser o músculo do grupo, conhecemos neste último filme uma faceta mais intelectual e profunda do gigante verde que todos adoramos. Quase que fez lembrar quando o Ortopedista se lembra de pedir um raio-X do tórax a um doente ou consegue olhar para um ECG e perceber que está perante uma fibrilhação auricular. Mas tal como este herói, também o Ortopedista por muito que se esforce do ponto de vista intelectual, está lá para esmagar (salvo seja) e martelar ossos, cavilhas e próteses. Não se exige grande raciocínio da sua parte, mas tal como os Vingadores agradeceram a sua presença quando foi preciso manejar as Pedras do Infinito, também nós agradecemos a presença dos ortopedistas no SU quando cometemos o erro de pedir um raio-X a um doente com dor lombar e depois não o conseguimos interpretar.

 

Thor - Cirurgia Geral

 

Esta também é um bocado óbvia. A vida de Thor estabelece um paralelismo quase perfeito com o percurso de um interno de Cirurgia Geral. Começam por ser os galãs do pedaço (num caso, o galã de Asgard, no outro o galã do Bloco Operatório). Enquanto que Thor era sempre o primeiro a saltar para a frente de batalha, também o interno de Cirurgia Geral já nos seus tempos de aluno era o primeiro a saltar para a beira do campo operatório, enquanto os seus nove colegas se acotovelam atrás dele na tentativa desesperada de ver alguma coisa do que se está a passar na cirurgia. Nos seus tempos glórios, ambos demonstravam ser portadores de uma coragem notável em situações de perigo, seja a enfrentar vilões sádicos e perigosos como Loki ou, talvez pior que isso, suturar indivíduos alcoolizados à sexta-feira à noite na urgência de São José. Mas, infelizmente e como se pôde constatar neste último filme, tanto Thor como o interno, ou até já especialista, de Cirurgia Geral com o tempo vão acabando por perder o fôlego, ao mesmo tempo que a barriga vai inchando. E aquilo que em tempos foi um guerreiro valoroso, acaba por se tornar num gorducho mole que manda sempre os outros fazer o trabalho dele. Pena.

 

Homem-aranha - Gastroenterologia

 

Se há característica que podemos atribuir ao nosso vizinho amigável aracnídeo, essa característica é a agilidade. Haverá alguém melhor do que o alter ego de Peter Parker para sobrevoar os céus da cidade, percorrer túneis e caminhos apertados enquanto persegue os vilões e esgueirar-se por oríficios onde outros nunca entrariam? Claro que há! São os nossos amigos da especialidade do cócó! Com uma fluidez de movimento que faz corar o herói mais jovem desta saga, os gastroenterologistas também possuem a capacidade de explorar qualquer orifício, percorrer qualquer túnel ou canal, atravessar criptas, esfíncteres, pólipos e outros obstáculos, tudo com o intuito de descobrir por que raio é que o doente está a sangrar! E já os viram laquear varizes esofágicas? Se aquilo não vos faz lembrar o Homem-Aranha a prender os seus inimigos numa teia, provavelmente o vosso Glasgow está abaixo de 15.

 

 

Hawkeye - Anatomia Patológica

 

Eu sei que pode parecer estranha esta comparação. Mas desde cedo que este herói foi ridicularizado pelos parcos poderes que apresentava e pelo papel aparentemente secundário que desempenhou em todos os filmes da saga. Até que "Avengers: Endgame" chegou. Pudemos, finalmente, perceber que o homem que lança setas afinal é um membro válido da equipa, daqueles que mesmo não dando muito nas vistas, é crucial para o desenrolar da acção. Ora, as semelhanças entre Hawkeye e os vampiros da Medicina são mais que muitas. Vivem nas sombras, chamam pouco a atenção, gostam de conservar distância dos restantes colegas e alvos (que neste caso são os doentes) mas sem eles o mais provável era qualquer tipo de missão dar para o torto. E já nem falo na semelhança, mais que óbvia, entre o lançamento de setas e a marcação de lesões da mama com arpão. A propósito, acabei de descobrir que se escreve 'arpão' e não 'harpão'. Quem diria?

 

Capitã Marvel - Pediatria

 

A capitã Marvel foi uma adição relativamente recente à equipa. Sendo uma das personagens mais poderosas da saga, tem super-poderes que rivalizam com os de Thor ou de Hulk. No fundo, toda a gente a admira mas ninguém quer trocar de lugar com ela, porque sabem que no fim do dia se há alguém que tem de ir enfrentar o vilão sozinha, o mais provável é ter de ser ela. Com os pediatras é igual. Toda a gente admira o seu ar jovial e disposição, regra geral, bem disposta, mas ninguém está minimamente disposto a trocar de lugar com eles/elas. Porquê? Ainda perguntam? Experimentem apanhar um miúdo cigano de 5 anos a ter uma convulsão febril com a família toda à porta da sala de emergência pronta a sacar das naifas e começar a fazer desaparecer carteiras. Ao pé destes tipos, o Thanos é um menino. É nestas alturas que pensamos: ainda bem que há quem goste disto! Eles gostam. Valha-nos isso. Amém.

 

Doutor Estranho - Psiquiatria

 

Ninguém se quer meter com o poder da mente. E todos os restantes Vingadores olham para o Doctor Strange da mesma forma que, médicos, olhamos para os nossos colegas psiquiatras. Não sabemos o que andam por ali a fazer, sabemos que estão no mundo deles, não pescamos nada do que eles dizem e honestamente vivemos bem com isso. Limitamo-nos a tratar dos problemas mundanos e deixamos para eles os trâmites do subjectivo, da psicanálise, dos humores e das perturbações de personalidade. Quando eles chegam esboçamos um sorriso, como se a sua presença não nos causasse um ligeiro desconforto com o qual tentamos lidar, gostamos muito deles mas de preferência com uma distância de segurança.

 

Capitão América - Medicina Interna

 

O líder da equipa. Aquele que dá tudo por todos, com vista a fazer sempre o bem. Toda a gente o toma como garantido, mas quando a coisa aperta todos olham para ele com aquele olhar de cãozinho abandonado a aguardar orientações. Como um bom capitão, o internista é aquele que dá o corpo ao manifesto, sem pensar duas vezes e sem segundas intenções. Sabe que para que uns possam enfrentar aqueles vilões charmosos e bem vestidos que frequentam o privado e com isso ganhar 29 euros à hora, outros têm de ficar a enfrentar os soldados rasos e mal cheirosos nas trincheiras da urgência pública, ainda para mais a oito euros à hora. O Capitão América não está nisto por dinheiro, fama ou poder, mas sim porque gosta de fazer o mais acertado. O internista também. No fim, é ele que se voluntaria para as tarefas que ninguém quer fazer, como, sei lá, ir devolver as Pedras do Infinito à sua respectiva linha temporal ou ir transportar para outro hospital um doente cirúrgico que parou na enfermaria, foi ventilado pela Anestesia que agora diz que não o pode ir levar, esse tipo de coisas. Claro que depois acaba por pagar a conta. Enquanto os outros vão mantendo a sua aparência jovial, o internista chega ao fim ele próprio com um aspecto semelhante aos doentes que trata. Pelo menos assim tem a oportunidade de aplicar em si mesmo todos os conhecimentos de Geriatria que adquiriu durante a sua formação.

 

Homem de Ferro - Medicina Geral e Familiar

 

Infelizmente, no nosso mundo ainda há um ser mais infeliz que o internista. Refiro-me, logicamente, ao pobre do médico de família. Tal como Tony Stark, também ele é visto pelos colegas como um boémio que não gosta muito de trabalhar. Um calão que gosta é de boa vida e poucos calos nas mãos. Mas o que é certo é que no fim do dia é ele que se sacrifica para que o vilão possa ser destruído ou, adaptando isto para a nossa realidade, é para ele que mandamos as velhinhas que vão pela vigésima sétima vez nos últimos dois meses à urgência com dor torácica em contexto de ansiedade. É que para os internistas a batalha é dura mas, em princípio, termina quando o doente tem alta. Para o MGF não há altas. Já imaginaram o que isso é? Uma batalha eterna contra baixas fraudulentas, renovações de receituário, queixas inespecíficas e pessoas com necessidade de atenção? Se isso não é dar a vida pela Medicina, não sei o que será.

 

Menção horrorosa:

Thanos - Ministra da Saúde

 

Obviamente que tinha de fazer esta menção, até porque não há heróis se não existirem vilões à altura que os ponham à prova. Infelizmente por motivos legais aconselharam-me a não me referir a ninguém pelo seu nome verdadeiro, portanto vamos apenas dizer que este vilão é bastante TEMIDO por toda a gente. Wink, wink. Mas a sério, o plano de Thanos era dizimar metade das criaturas vivas do Universo, com a desculpa de que a Humanidade se tornou muito corrupta e dispendiosa para o planeta. Ao aniquilar metade dos seres vivos, Thanos pretendia que a metade remanescente prosperasse e mostrasse ao mundo aquilo de que realmente era capaz. Faz um bocado lembrar as políticas destes nossos tão queridos governantes. Reduzir pessoal, reduzir custos, pôr hospitais e centros de saúde a funcionar com metade dos recursos humanos com que deveriam funcionar e esperar que a metade que resta se sinta honrada pela oportunidade que lhe foi tão benevolamente concedida e com isso prospere e passe a produzir o dobro ou o triplo. Pelo mesmo valor, entenda-se. Claro que a coisa não podia correr bem. Se com Thanos, a metade dos heróis poupados se revoltou e acabou por levar a melhor, infelizmente parece-me que por muito que estalemos os dedos, esta vilã não vai desaparecer assim tão facilmente. Pelo menos até Outubro.

O evangelho segundo São Pérolas

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Todos certamente se encontram familiarizados com a cena icónica da Paixão de Cristo, retratada pelos quatro evangelhos do Novo Testamento. No entanto, dados recentes sugerem a existência de um evangelho apócrifo, descoberto recentemente num local de escavações arqueológicas em Jerusalém, que se pensa ser atribuído a São Pérolas, um mártir que dedicou a vida à instrução das massas, sendo responsável por textos históricos como “37ºC não é febre”, “Se vais à urgência às quatro da manhã porque tens gases, és só parvo” e, claro, a Parábola dos Recursos Humanos.

 

Segundo o Evangelho de São Pérolas, ao que parece, a cena da Paixão de Cristo foi também presenciada por médicos de algumas especialidades. Este texto apócrifo centra-se nas reacções dos vários médicos às cenas que se iam desenrolando diante dos seus olhos e começa da seguinte forma:

 

Medicina Interna: Hummm, este homem não está nada bem. Vejo claros sinais de trauma. Está polipneico e fala numa língua estranha, provavelmente aramaico, parecendo também estar a ter alucinações visuais, uma vez que continua incessantemente a chamar pelo pai, no entanto não vejo ninguém à sua volta. É melhor chamar as outras especialidades. Vou começar por pedir apoio da Cirurgia.

 

Cirurgia Geral: Então? O que é que se passa?

 

Medicina Interna: Olhe colega, este senhor que se encontra a ser crucificado apresenta no dorso múltiplas lesões compatíveis com chicotadas que acho que vão precisar de ser suturadas.

 

Cirurgia Geral: E interrompe-me o jantar por causa disso? Suturas é para o IAC! Foste ver dele à sala da pequena cirurgia?

 

Medicina Interna: Efectivamente não, porque se reparar o doente tem também múltiplas abrasões e lacerações no couro cabeludo, por causa daquela coroa de espinhos que lhe colocaram, já para não falar das lesões perfurantes das mãos e dos pés causadas pelos pregos.

 

Cirurgia Geral: Sim, mas se envolve mãos e pés tem de ser a Cirurgia Plástica a suturar! Têm de chamar a Cirurgia Plástica.

 

Medicina Interna: Humm, isso é capaz de demorar. É melhor deixarmos isto para segundo plano e focarmo-nos na polipneia. Vou pedir apoio da Pneumologia.

 

Pneumologia: Então colega, o que é que se passa?

 

Medicina Interna: Boa noite colega. Então é o seguinte: este doente está a ser crucificado mas não consegui deixar de reparar que está a ficar bastante polipneico, por isso pedi a sua colaboração.

 

Pneumologia: E a gasimetria?

 

Medicina Interna: Como calcula, não lhe consegui fazer gasimetria. O homem está crucificado a três metros de altura do chão, não consigo ir lá acima picá-lo.

 

Pneumologia: Acho isto incrível… Chamar a Pneumologia sem sequer ter uma gasimetria?! Se não consegue ir à radial, porque é que não tentou ir à femoral? Só precisava de se colocar às cavalitas de um colega seu e era capaz de lá conseguir chegar…

 

Medicina Interna: Pois, de facto é verdade, mas olhe, isto tem estado muito complicado aqui e não me lembrei dessa possibilidade. Mas mesmo sem gasimetria, o que é que acha que lhe pode estar a causar a polipneia? Será uma embolia pulmonar?

 

Pneumologia: Não! Embolia pulmonar não é, de certeza. O homem tem algum factor de risco para trombose venosa profunda?

 

Medicina Interna: Que eu saiba não. Só não consegui saber se é fumador. Quando lhe perguntei se fumava ele só dizia coisas sem sentido. Não parava de me perguntar porque é que o abandonei…

 

Pneumologia: Cá para mim essa polipneia é só ansiedade. Já experimentou dar-lhe um diazepam?

 

Medicina Interna: Tinha pensado mais em dar-lhe risperidona, atendendo ao quadro de alucinações… Mas se calhar é melhor pedir o apoio da Psiquiatria.

 

Psiquiatria: Chamou?

 

Medicina Interna: Sim. Boa noite, colega. É o seguinte: este doente está aqui com um discurso um bocado incoerente. Já pediu para nos perdoarem porque nós não sabemos o que estamos a fazer, já falou do pai, já perguntou porque é que o abandonaram. Eu acho que está a ter alucinações.

 

Psiquiatria: Sim, mas ele agora está demasiado instável para eu o entrevistar.

 

Medicina Interna: Mas não consegue apurar nada?

 

Psiquiatria: É assim, dá a sensação que tem uma relação um bocado conturbada com o pai, que me parece ser uma figura um pouco ausente. Mas tirando isso, não consigo apurar mais nada. Seja como for, sugiro exclusão de doença orgânica. Como estão as análises?

 

Medicina Interna: Não lhe conseguimos colher análises. Mas pelo aspecto dele, se não é embolia pulmonar nem doença psicológica, se calhar pode estar a hiperventilar por estar em sépsis. Se calhar vou chamar a Infecciologia.

 

Infecciologia: Diga.

 

Medicina Interna: Olá colega. Olhe, este doente está a hiperventilar e parece estar um bocado diaforético. Não conseguimos ver os restantes sinais vitais mas estamos com receio que ele esteja a ficar séptico.

 

Infecciologia: Ui, vocês já viram aqueles pregos ferrugentos espetados nas mãos e nos pés do homem? Ele fez a vacina do tétano?

 

Medicina Interna: Por acaso não lhe perguntei.

 

Infecciologia: E deram-lhe a imunoglobulina?

 

Medicina Interna: Não demos, porque achámos que havia assuntos mais urgentes a tratar, nomeadamente o facto de ele parecer estar a entrar em sépsis…

 

Infecciologia: Pois. E pode mesmo estar. E assim pela clínica não consigo perceber qual é o foco primário. Poderá ser cutâneo, atendendo às várias lesões que apresenta. Já lhe colheram produtos microbiológicos?

 

Medicina Interna: O José de Arimateia já lhe conseguiu colher um bocado de sangue com o Santo Graal… Acha que dá para enviar para hemoculturas?

 

Infecciologia: Não! Foi feito sem assepsia nenhuma, de certeza. Vai vir tudo inquinado. O melhor é começarmos já antibioterapia empírica.

 

Medicina Interna: Se calhar alguma coisa de espectro alargado, não? Piperacilina-tazobactam parece-lhe bem?

 

Infecciologia: Então mas o homem fez antibiótico nos últimos três meses, por acaso?

 

Medicina Interna: Que eu saiba, não.

 

Infecciologia: Vive em lar ou esteve internado recentemente?

 

Medicina Interna: Não.

 

Infecciologia: E qual é a prevalência de MRSA e Pseudomonas aeruginosa multirresistente aqui em Jerusalém, sabe?

 

Medicina Interna: Não faço ideia.

 

Infecciologia: Seja como for, acho que não se justifica começar já com piperacilina-tazobactam. Ainda por cima sem culturas nem sequer vamos poder de-escalar o antibiótico. Depois queixam-se que têm surtos de Clostridium difficile e KPC… Pode dar-lhe 2 milhões de unidades de penicilina G endovenosa. Cobre bem a pele e o pulmão.

 

Medicina Interna: Ok, colega. Mas acho que o homem está a começar a apagar-se. Acho que daqui a um bocado se vai cansar e deixa de respirar. Vou chamar a Anestesiologia, acho que é melhor entubar o doente.

 

Anestesiologia: Sim?

 

Medicina Interna: Olá colega. Olhe, é o seguinte: tenho aqui este doente de 33 anos, politraumatizado e com sinais de sépsis. O doente estava a hiperventilar mas agora está a ficar mais bradipneico, acho que o vamos ter de entubar e ventilar.

 

Anestesiologia: E como é que você está à espera que eu o entube? O homem está a três metros de altura! Ainda por cima nem consigo fazer hiperextensão do pescoço! Isto nem com videolaringoscópio lá vai. Se me arranjarem um escadote talvez lhe consiga pôr uma máscara laríngea…

 

Medicina Interna: E com o que é que o sedamos?

 

Anestesiologia: Damos-lhe um bocadinho de propofol.

 

Medicina Interna: Mas o homem está em choque! Se lhe damos propofol ainda se apaga de vez.

 

Anestesiologia: Pois, é verdade, de facto. Vocês têm etomidato aqui no Monte do Calvário?

 

Medicina Interna: Não faço ideia. E agora a enfermeira está na passagem de turno, não posso ir lá interromper. Seja como for, o homem já está tão apagado que se calhar nem precisa de sedação.

 

Cirurgia Plástica: Chamaram?

 

Medicina Interna: Chamámos sim, mas já há mais de uma hora.

 

Cirurgia Plástica: Estava ali no bloco a terminar uma mamoplastia mas aquilo atrasou-se um pouco mais do que eu estava à espera. Diga lá.

 

Medicina Interna: É assim, este doente tem ali quatro feridas nas mãos e nos pés que vão precisar de ser suturadas.

 

Cirurgia Plástica: Está bem, mas se calhar é melhor chamarem primeiro a Ortopedia. É que os soldados romanos estão a começar a partir as pernas dos outros condenados à morte e se calhar é mais importante tratar disso primeiro.

 

Medicina Interna: OK, então vou chamar a Ortopedia.

 

Ortopedia: Como é que é, pequeninos???

 

Medicina Interna: Oh colega, é o seguinte: este doente tem várias lacerações e lesões cutâneas que a cirurgia plástica não quer suturar, está a entrar em sépsis e já vai começar antibiótico assim que a enfermeira passar o turno, o colega de anestesiologia está a tentar ver se arranja etomidato e um escadote para lhe colocar uma máscara laríngea… E agora os soldados romanos vão lhe partir as pernas.

 

Ortopedia: Só percebi metade dessas palavras que utilizaste, pequenino. Então mas ele tem as pernas partidas ou não?

 

Medicina Interna: Ainda não, mas vai ter.

 

Ortopedia: Epá então se não tem fractura, da nossa parte tem alta.

 

Cirurgia Plástica: Da nossa também.

 

Cirurgia Geral: E da nossa.

 

Pneumologia: Da nossa também tem alta.

 

Medicina Interna: Malta, malta!!! O homem está ali crucificado, com montes de lesões a precisar de suturas, a entrar em choque séptico e na iminência de ser ventilado… E vocês dão-lhe alta assim?

 

Pneumologia: Olha, aquele soldado romano está a espetar-lhe uma lança no hemitórax! Será que era um hemotórax que estava a causar a polipneia?

 

Medicina Interna: Eu… Eu acho que o doente morreu.

 

Anestesiologia: Eu não lhe consigo sentir o pulso pedioso.

 

Pneumologia: E não está a respirar.

 

Ortopedia: Está a começar a chover, pequeninos.

 

Medicina Interna: Pronto, morreu. O que é que pomos como causa de morte no certificado de óbito?

 

Pneumologia: O melhor é pedir autópsia, não?

 

Anatomia Patológica: Não se esqueçam que hoje é sexta-feira. Se quiserem autópsia só a partir de segunda…

 

Medicina Interna: Temos de perguntar à família o que prefere. Está ali a mãe dele. O colega da Psiquiatria quer vir comigo para lhe transmitirmos a notícia?

 

Psiquiatria: Sim, posso ir. E o que dizemos quando ela perguntar qual foi a causa de morte?

 

Medicina Interna: Olhe, como esta gente é toda muito religiosa, podemos dizer que não sabemos, mas que agora ele está nas mãos de Deus.

 

Cardiologia: Chamaram?