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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

As 5 coisas que mais detesto na Medicina

Bom dia, amigos e amigas! Decidi começar a semana com mais uma sessão de catarse informática, desta feita sob a forma de um artigo em que partilho convosco as coisas que mais me irritam na profissão de médico. Não que queira começar a semana numa nota negativa, mas se é para mandar vir com a vida nada melhor do que fazê-lo a uma segunda-feira. Parece-me óbvio.

 

Em primeiro lugar, um disclaimer. Eu adoro ser médico. Talvez isso não transpareça no tom com que escrevo muitos dos meus textos mas é a mais pura da verdade. Quando o escolhi ser fi-lo de forma consciente e informada, sabendo perfeitamente que ser um bom médico envolve dar muito de nós aos outros sem esperar a devida recompensação, monetária ou outra. Não me imagino a fazer mais nada da minha vida, apesar das múltiplas vezes em que ao longo dos últimos anos me questionei se não seria mais feliz a trabalhar na caixa do Pingo Doce ou a servir à mesa. Dúvidas todos temos e isso é normal. O que interessa é que, no fim do dia, saibamos que o rumo que estamos a dar à nossa vida é o mais correcto.

 

Atentem, no entanto, que qualquer pessoa que diga que continuaria a exercer Medicina se ganhasse o Euromilhões está a aldrabar-vos. Eu sou o primeiro a admitir: a única dúvida que teria se me calhasse o Euromilhões seria que música escolher para fazer a minha saída triunfal do Hospital, depois de rescindir o contrato, rasgá-lo de forma dramática em frente ao Conselho de Administração e desfilar pela saída do Hospital com o dedo do meio bem erguido no ar para que todos pudessem ver. Ah, claro, e que animal escolheria para montar enquanto o faço. Um lama? Um dragão de komodo? Tudo questões válidas.

 

Mas mesmo sabendo que esta foi a vida que um sôtor escolheu, há certas e determinadas coisas na profissão de Medicina das quais desgosto particularmente. É nessas que me vou centrar, por ordem crescente de asco ou desespero que me provocam.

 

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5 - Discutir doentes com colegas de outras especialidades

 

OK, começo logo por aquela que considero potencialmente mais controversa. Eu detesto ter de discutir doentes com colegas de outras especialidades. E bem sei que na Medicina ninguém trabalha sozinho, todos dependemos uns dos outros e devemos colocar os egos de lado para promover o melhor interesse dos doentes. Ainda assim, não vale a pena tentar negar que, apesar de parecermos muito corporativistas para quem vê de fora, a verdade é que muitos de nós são uns autênticos, perdoem-me o francês, cabrõezinhos para os colegas. Particularmente para os colegas mais novos. Eu, pessoalmente, já perdi a conta ao número de vezes em que me irritei com colegas que, do conforto do seu lar, acham inadmissível que eu não saiba ver que a lesão isquémica que aparece na TC crâneo-encefálica do doente é antiga e não recente. Ou que, como é óbvio, uma dilatação de 12 mm do bacinete não é motivo para se ligar à Urologia às três da manhã. E atenção, isto serve para os dois lados. Também não me parece admissível que refilemos com um psiquiatra ou com um ortopedista por confundir um flutter auricular com uma fibrilhação auricular. Gozar com eles na Internet? Claro. Ser incorrecto com eles em pessoa? Não.

 

Tratem os colegas com respeito, gente! Independentemente da idade ou grau de diferenciação! Aquilo que para vocês parece óbvio porque o veêm todos os dias, para outro colega pode não ser! Mais: se estás em casa de prevenção e recebes uma chamada de um colega de presença física na urgência, tenta ser paciente. Eu sei que é chato ser acordado a meio da noite com uma dúvida que para ti é óbvia. Mas pensa: tu estás no conforto do teu lar e não há nada melhor que isso! Quer dizer, se estivesses num hotel de cinco estrelas na Polinésia Francesa talvez isso fosse melhor, mas tu entendeste o que quis dizer! Fazer urgência em presença fixa, com doentes à espera, acompanhantes mal-criados e sem dormir há vinte horas é e será sempre pior do que estar em casa de prevenção! Não sejas arrogante e tenta ajudar os colegas. Se achas que o doente não tem indicação cirúrgica ou não se justifica a realização de um determinado exame que o colega está a propôr, justifica-o de forma fundamentada e ajuda-o a melhorar. Não sejas um idiota que projecta as suas frustrações pessoais e profissionais em cima dos colegas mais novos. Isso não te vai fazer sentir mais feliz, a sério.

 

4 - Convencer as famílias a levar o doente para casa

 

Mais uma vez, novo disclaimer: bem sei que há gente que vive mal e não tem condições para ter os familiares, geralmente idosos e dependentes, em casa. Bem sei também que muita gente, por muito que goste do familiar, não lhe consegue prestar o apoio que precisa. Ainda assim, lamento informar-vos, mas a maioria dos casos de abandono hospital que presencio são perpetrados por gente que não vive assim tão mal e que, com algum esforço, até conseguia ter o paizinho ou a mãezinha em casa. Abandonar um familiar no hospital devia ser uma solução de último recurso, reservada para aqueles casos dramáticos em que, pura e simplesmente, não é possível prestar em ambulatório os cuidados ao doente que ele precisa. O hospital não deve ser o depósito de idosos. O hospital não deve ser usado como o local onde se vai deixar o doente porque não dá jeito tê-lo em casa. Ou porque nos apetece ir passar o fim-de-semana fora e não podemos levar o velho atrelado.

 

E mesmo nas situações dramáticas em que o internamento social é a única opção, a primeiríssima coisa que os familiares deviam fazer era ir tentar resolver a sua vidinha de forma a conseguir tirar o doente do hospital o mais rápido possível! Infelizmente não é isso que vejo. Não é infrequente ser no dia da alta que a família se lembra que não consegue ter o familiar em casa, apesar de já previamente informada, por várias vezes, que o dia da alta se está a avizinhar. Isto frustra-me de uma forma que eu não consigo exprimir por palavras. 

 

É que explicar a um familiar o porquê de o doente estar melhor em casa parece-me uma discussão fútil e uma perda de tempo. Mesmo que a família não tenha noção das complicações inerentes ao internamento, vulgo infecções nosocomiais, perda de autonomia, delirium, iatrogenias, etc., parece-me intuitivo que, sempre que possível, o doente fica melhor em casa do que no hospital! Isto na minha cabeça é óbvio. E sempre foi, mesmo antes sequer de ter entrado para Medicina.

 

Sim, é verdade que os recursos sociais extra-hospitalares deste país estão longe de ser perfeitos. E o elevado número de casos de abandono hospitalar deste país não têm a ver apenas com egoísmo ou má-fé dos familiares. Em defesa da verdade e por uma questão de justiça, é importante dizer que há muita coisa a melhorar, particularmente no que diz respeito à existência de lares com mensalidades que não sejam absolutamente incomportáveis de pagar ou vagas em cuidados continuados ou paliativos. Ainda assim, o mais importante a mudar é a mentalidade do povo. Enquanto isso não mudar, todos os investimentos irão cair em saco roto.

 

3 - Desempenhar funções que não me competem

 

Vá, vá, não se enervem, eu tenho perfeita noção que não existe trabalho nenhum em que pontualmente não tenhamos de fazer alguma tarefa para a qual não nos pagam ou que deveria ser feita por outra pessoa qualquer. Nâo há trabalhos perfeitos e isso também se aplica à Medicina. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a levantar-se de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para ir à procura do doente na sala de espera porque já o chamámos três vezes pelo intercomunicador e ele não apareceu. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a telefonar às famílias de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para informar que o doente tem alta. É assim em todo o lado e não é exclusivo da profissão médica, já sei.

 

Dito isto, a quantidade de tempo do nosso dia de trabalho que perdemos a resolver questões informáticas ou burocráticas que não nos dizem respeito é abismal. É absolutamente abismal. Ou é a impressora que não funciona e é preciso mudar o toner que ninguém sabe onde está. Ou é preciso telefonar trinta vezes para o secretariado da Imagiologia a pedir por amor de Deus para não nos marcarem a TAC que estamos a pedir para daqui a três semanas. Ou é preciso preencher um formulário qualquer que alguém se lembrou de criar para prescrever um determinado fármaco mas ninguém sabe muito bem onde está. Ou é preciso enviar dez e-mails para a Informática para nos virem arranjar o PC que não funciona há três dias. Ou é preciso esperar quase cinco minutos para que a PEM nos permita passar receitas na urgência...

 

Enfim, o Serviço Nacional de Saúde é um pesadelo burocrático. Não há outra forma de o dizer. De tal forma que me arrisco a dizer que o problema em Portugal não é a falta de médicos, mas sim a forma como somos criminalmente mal aproveitados. E basta ver que qualquer país da União Europeia mais evoluído que Portugal tem um rácio médico/habitante inferior ao nosso. Amigos, habituem-se à ideia: não é preciso abrir mais vagas nas faculdades de Medicina para resolver os problemas do SNS.

 

2 - Ver o meu recibo de vencimento

 

Esta também não é exclusiva da Medicina, bem sei. Provavelmente toda a gente que se encontra a ler este texto neste preciso momento partilha desta opinião. A não ser que o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou o Joe Berardo se encontrem a ler isto. Nesse caso, a próxima mensagem é para vocês: paguem o que devem, seus caloteiros! Não vou perder mais tempo neste tópico. Oito euros à hora.

 

1 - Transmitir más notícias às famílias

 

Num tom mais sério, termino com aquilo que, de longe, me custa mais em ser médico. E que, curiosamente, é a única coisa que sei que nunca vai mudar e que será sempre da minha responsabilidade, por muito que as coisas melhorem. Eu detesto, odeio mesmo, ter de comunicar más notícias às famílias. É horrível. E não me interpretem mal, eu tenho perfeita noção que, isto sim, tenho de ser eu a fazer. A responsabilidade de comunicar más notícias, trate-se de falecimentos ou agravamento da situação clínica, é e sempre deverá ser do médico. Mais ninguém. Mas custa. Se custa.

 

Até me considero uma pessoa relativamente impermeável, apesar de empática, à quantidade de coisas macabras que vejo no dia-a-dia, mas se houve situações que me ficaram marcadas na memória e que me hão-de perseguir para o resto da vida, certamente serão aqueles momentos em que tenho de comunicar a uma senhora que o seu marido acabou de falecer. Não é fácil explicar a alguém que a vida continua, mesmo depois de ter perdido a sua companhia dos últimos 50 anos. E cada reacção é diferente. Algumas pessoas choram, outras ficam incrédulas, outras revoltadas. A nossa função é saber lidar com todos os sentimentos que aquela notícia provocou na família. É mostrar-lhes que fizemos o nosso melhor para evitar aquele desfecho. Ou então, e talvez até mais importante que isso, é explicar-lhes que tentámos tudo para que a transição do seu ente querido para o outro lado fosse o mais pacífica possível. É transmitir-lhes alguma calma e serenidade num dos piores momentos da sua vida.

 

Esta, amigos e amigas, esta sim, é a tarefa que mais me custa fazer enquanto médico. Curiosamente, ou não, é a única que não dispensaria fazer mesmo que pudesse. Ossos do ofício.

O evangelho segundo São Pérolas

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Todos certamente se encontram familiarizados com a cena icónica da Paixão de Cristo, retratada pelos quatro evangelhos do Novo Testamento. No entanto, dados recentes sugerem a existência de um evangelho apócrifo, descoberto recentemente num local de escavações arqueológicas em Jerusalém, que se pensa ser atribuído a São Pérolas, um mártir que dedicou a vida à instrução das massas, sendo responsável por textos históricos como “37ºC não é febre”, “Se vais à urgência às quatro da manhã porque tens gases, és só parvo” e, claro, a Parábola dos Recursos Humanos.

 

Segundo o Evangelho de São Pérolas, ao que parece, a cena da Paixão de Cristo foi também presenciada por médicos de algumas especialidades. Este texto apócrifo centra-se nas reacções dos vários médicos às cenas que se iam desenrolando diante dos seus olhos e começa da seguinte forma:

 

Medicina Interna: Hummm, este homem não está nada bem. Vejo claros sinais de trauma. Está polipneico e fala numa língua estranha, provavelmente aramaico, parecendo também estar a ter alucinações visuais, uma vez que continua incessantemente a chamar pelo pai, no entanto não vejo ninguém à sua volta. É melhor chamar as outras especialidades. Vou começar por pedir apoio da Cirurgia.

 

Cirurgia Geral: Então? O que é que se passa?

 

Medicina Interna: Olhe colega, este senhor que se encontra a ser crucificado apresenta no dorso múltiplas lesões compatíveis com chicotadas que acho que vão precisar de ser suturadas.

 

Cirurgia Geral: E interrompe-me o jantar por causa disso? Suturas é para o IAC! Foste ver dele à sala da pequena cirurgia?

 

Medicina Interna: Efectivamente não, porque se reparar o doente tem também múltiplas abrasões e lacerações no couro cabeludo, por causa daquela coroa de espinhos que lhe colocaram, já para não falar das lesões perfurantes das mãos e dos pés causadas pelos pregos.

 

Cirurgia Geral: Sim, mas se envolve mãos e pés tem de ser a Cirurgia Plástica a suturar! Têm de chamar a Cirurgia Plástica.

 

Medicina Interna: Humm, isso é capaz de demorar. É melhor deixarmos isto para segundo plano e focarmo-nos na polipneia. Vou pedir apoio da Pneumologia.

 

Pneumologia: Então colega, o que é que se passa?

 

Medicina Interna: Boa noite colega. Então é o seguinte: este doente está a ser crucificado mas não consegui deixar de reparar que está a ficar bastante polipneico, por isso pedi a sua colaboração.

 

Pneumologia: E a gasimetria?

 

Medicina Interna: Como calcula, não lhe consegui fazer gasimetria. O homem está crucificado a três metros de altura do chão, não consigo ir lá acima picá-lo.

 

Pneumologia: Acho isto incrível… Chamar a Pneumologia sem sequer ter uma gasimetria?! Se não consegue ir à radial, porque é que não tentou ir à femoral? Só precisava de se colocar às cavalitas de um colega seu e era capaz de lá conseguir chegar…

 

Medicina Interna: Pois, de facto é verdade, mas olhe, isto tem estado muito complicado aqui e não me lembrei dessa possibilidade. Mas mesmo sem gasimetria, o que é que acha que lhe pode estar a causar a polipneia? Será uma embolia pulmonar?

 

Pneumologia: Não! Embolia pulmonar não é, de certeza. O homem tem algum factor de risco para trombose venosa profunda?

 

Medicina Interna: Que eu saiba não. Só não consegui saber se é fumador. Quando lhe perguntei se fumava ele só dizia coisas sem sentido. Não parava de me perguntar porque é que o abandonei…

 

Pneumologia: Cá para mim essa polipneia é só ansiedade. Já experimentou dar-lhe um diazepam?

 

Medicina Interna: Tinha pensado mais em dar-lhe risperidona, atendendo ao quadro de alucinações… Mas se calhar é melhor pedir o apoio da Psiquiatria.

 

Psiquiatria: Chamou?

 

Medicina Interna: Sim. Boa noite, colega. É o seguinte: este doente está aqui com um discurso um bocado incoerente. Já pediu para nos perdoarem porque nós não sabemos o que estamos a fazer, já falou do pai, já perguntou porque é que o abandonaram. Eu acho que está a ter alucinações.

 

Psiquiatria: Sim, mas ele agora está demasiado instável para eu o entrevistar.

 

Medicina Interna: Mas não consegue apurar nada?

 

Psiquiatria: É assim, dá a sensação que tem uma relação um bocado conturbada com o pai, que me parece ser uma figura um pouco ausente. Mas tirando isso, não consigo apurar mais nada. Seja como for, sugiro exclusão de doença orgânica. Como estão as análises?

 

Medicina Interna: Não lhe conseguimos colher análises. Mas pelo aspecto dele, se não é embolia pulmonar nem doença psicológica, se calhar pode estar a hiperventilar por estar em sépsis. Se calhar vou chamar a Infecciologia.

 

Infecciologia: Diga.

 

Medicina Interna: Olá colega. Olhe, este doente está a hiperventilar e parece estar um bocado diaforético. Não conseguimos ver os restantes sinais vitais mas estamos com receio que ele esteja a ficar séptico.

 

Infecciologia: Ui, vocês já viram aqueles pregos ferrugentos espetados nas mãos e nos pés do homem? Ele fez a vacina do tétano?

 

Medicina Interna: Por acaso não lhe perguntei.

 

Infecciologia: E deram-lhe a imunoglobulina?

 

Medicina Interna: Não demos, porque achámos que havia assuntos mais urgentes a tratar, nomeadamente o facto de ele parecer estar a entrar em sépsis…

 

Infecciologia: Pois. E pode mesmo estar. E assim pela clínica não consigo perceber qual é o foco primário. Poderá ser cutâneo, atendendo às várias lesões que apresenta. Já lhe colheram produtos microbiológicos?

 

Medicina Interna: O José de Arimateia já lhe conseguiu colher um bocado de sangue com o Santo Graal… Acha que dá para enviar para hemoculturas?

 

Infecciologia: Não! Foi feito sem assepsia nenhuma, de certeza. Vai vir tudo inquinado. O melhor é começarmos já antibioterapia empírica.

 

Medicina Interna: Se calhar alguma coisa de espectro alargado, não? Piperacilina-tazobactam parece-lhe bem?

 

Infecciologia: Então mas o homem fez antibiótico nos últimos três meses, por acaso?

 

Medicina Interna: Que eu saiba, não.

 

Infecciologia: Vive em lar ou esteve internado recentemente?

 

Medicina Interna: Não.

 

Infecciologia: E qual é a prevalência de MRSA e Pseudomonas aeruginosa multirresistente aqui em Jerusalém, sabe?

 

Medicina Interna: Não faço ideia.

 

Infecciologia: Seja como for, acho que não se justifica começar já com piperacilina-tazobactam. Ainda por cima sem culturas nem sequer vamos poder de-escalar o antibiótico. Depois queixam-se que têm surtos de Clostridium difficile e KPC… Pode dar-lhe 2 milhões de unidades de penicilina G endovenosa. Cobre bem a pele e o pulmão.

 

Medicina Interna: Ok, colega. Mas acho que o homem está a começar a apagar-se. Acho que daqui a um bocado se vai cansar e deixa de respirar. Vou chamar a Anestesiologia, acho que é melhor entubar o doente.

 

Anestesiologia: Sim?

 

Medicina Interna: Olá colega. Olhe, é o seguinte: tenho aqui este doente de 33 anos, politraumatizado e com sinais de sépsis. O doente estava a hiperventilar mas agora está a ficar mais bradipneico, acho que o vamos ter de entubar e ventilar.

 

Anestesiologia: E como é que você está à espera que eu o entube? O homem está a três metros de altura! Ainda por cima nem consigo fazer hiperextensão do pescoço! Isto nem com videolaringoscópio lá vai. Se me arranjarem um escadote talvez lhe consiga pôr uma máscara laríngea…

 

Medicina Interna: E com o que é que o sedamos?

 

Anestesiologia: Damos-lhe um bocadinho de propofol.

 

Medicina Interna: Mas o homem está em choque! Se lhe damos propofol ainda se apaga de vez.

 

Anestesiologia: Pois, é verdade, de facto. Vocês têm etomidato aqui no Monte do Calvário?

 

Medicina Interna: Não faço ideia. E agora a enfermeira está na passagem de turno, não posso ir lá interromper. Seja como for, o homem já está tão apagado que se calhar nem precisa de sedação.

 

Cirurgia Plástica: Chamaram?

 

Medicina Interna: Chamámos sim, mas já há mais de uma hora.

 

Cirurgia Plástica: Estava ali no bloco a terminar uma mamoplastia mas aquilo atrasou-se um pouco mais do que eu estava à espera. Diga lá.

 

Medicina Interna: É assim, este doente tem ali quatro feridas nas mãos e nos pés que vão precisar de ser suturadas.

 

Cirurgia Plástica: Está bem, mas se calhar é melhor chamarem primeiro a Ortopedia. É que os soldados romanos estão a começar a partir as pernas dos outros condenados à morte e se calhar é mais importante tratar disso primeiro.

 

Medicina Interna: OK, então vou chamar a Ortopedia.

 

Ortopedia: Como é que é, pequeninos???

 

Medicina Interna: Oh colega, é o seguinte: este doente tem várias lacerações e lesões cutâneas que a cirurgia plástica não quer suturar, está a entrar em sépsis e já vai começar antibiótico assim que a enfermeira passar o turno, o colega de anestesiologia está a tentar ver se arranja etomidato e um escadote para lhe colocar uma máscara laríngea… E agora os soldados romanos vão lhe partir as pernas.

 

Ortopedia: Só percebi metade dessas palavras que utilizaste, pequenino. Então mas ele tem as pernas partidas ou não?

 

Medicina Interna: Ainda não, mas vai ter.

 

Ortopedia: Epá então se não tem fractura, da nossa parte tem alta.

 

Cirurgia Plástica: Da nossa também.

 

Cirurgia Geral: E da nossa.

 

Pneumologia: Da nossa também tem alta.

 

Medicina Interna: Malta, malta!!! O homem está ali crucificado, com montes de lesões a precisar de suturas, a entrar em choque séptico e na iminência de ser ventilado… E vocês dão-lhe alta assim?

 

Pneumologia: Olha, aquele soldado romano está a espetar-lhe uma lança no hemitórax! Será que era um hemotórax que estava a causar a polipneia?

 

Medicina Interna: Eu… Eu acho que o doente morreu.

 

Anestesiologia: Eu não lhe consigo sentir o pulso pedioso.

 

Pneumologia: E não está a respirar.

 

Ortopedia: Está a começar a chover, pequeninos.

 

Medicina Interna: Pronto, morreu. O que é que pomos como causa de morte no certificado de óbito?

 

Pneumologia: O melhor é pedir autópsia, não?

 

Anatomia Patológica: Não se esqueçam que hoje é sexta-feira. Se quiserem autópsia só a partir de segunda…

 

Medicina Interna: Temos de perguntar à família o que prefere. Está ali a mãe dele. O colega da Psiquiatria quer vir comigo para lhe transmitirmos a notícia?

 

Psiquiatria: Sim, posso ir. E o que dizemos quando ela perguntar qual foi a causa de morte?

 

Medicina Interna: Olhe, como esta gente é toda muito religiosa, podemos dizer que não sabemos, mas que agora ele está nas mãos de Deus.

 

Cardiologia: Chamaram?

Lair Ribeiro e o óleo de côco

Olá, ilustres colegas, amigos e amigas. Apesar de sentir que este tema tem sido debatido até à exaustão desde a peixeirada que foi o último Prós e Contras subordinado ao tema "Medicina convencional VS Terapias alternativas", hoje foi-me sugerido pelo Henrique, uma pérola de fã, que perdesse e vos fizesse perder perder algum do meu e vosso tempo, respectivamente, para falar um pouco do polémico Dr. Lair Ribeiro.

 

Fazendo apenas um apanhado geral do seu portfólio, Lair Ribeiro é um médico cardiologista autor de vários best sellers e obras científicas, como por exemplo "Fanatismo a Iemanjá" e, claro, "Gerando lucro" e "O poder da imaginação", que, de certa forma, servem como resumo da actividade "científica" desempenhada por este senhor. É conhecido pela sua posição a favor de produtos naturais para o tratamento de algumas doenças, como o óleo de côco ou a bela da águinha, em detrimento de compostos químicos que, apesar das dezenas de estudos prospectivos a demonstrar a sua eficácia, só fazem é mal à saúde e servem para enriquecer as empresas farmacêuticas e, claro está, os médicos que os prescrevem.

 

Para escrever este texto baseei-me num excerto do podcast Maluco Beleza em que o convidado foi, justamente, o senhor, perdão, doutor Lair Ribeiro. E perdoem-me, desde já, não ter assistido à entrevista na íntegra, mas infelizmente o meu tempo e neurónios são finitos e tive receio de perder demasiado dos dois se o fizesse. Como tal, vou dar-vos a oportunidade de assistirem ao excerto a que me refiro, com a ressalva de que não serão julgados se optarem por não o fazer e, caso o façam, que me ilibo de toda e qualquer responsabilidade para a vossa saúde mental e/ou física que daí possa advir. Veja o excerto da entrevista AQUI.

 

Já terminaram? OK, agora inspirem fundo e, se for preciso, massagem o seio carotídeo para controlar a taquicárdia que a visualização deste vídeo vos provocou. Eu espero.

 

Recuperados? OK, então vamos falar um pouco das barbaridades proferidas aqui pelo Sr. Lair Ribeiro.

 

Começamos pela primeira calinada do dia. Primeiro, Lair Ribeiro enuncia os vários tipos de ácidos gordos que conhece, apenas para no fim perguntar a Rui Unas: "Está vendo como eu percebo de bioquímica?". Ora, caro Lair, o facto de numerares ácidos gordos não prova que percebes de bioquímica coisíssima nenhuma. Por exemplo, eu sei númerar vários tipos de linfoma: linfoma de Hodgkin, linfoma folicular, linfoma linfoplasmocítico, linfoma difuso de grandes células B, linfoma de Burkitt, linfoma do manto, linfoma esplénico marginal, linfoma difuso de pequenas células B. Agora, o que é que eu percebo de linfomas? Bola. E aqui temos a lição número 1 do dia: decorar nomes de coisas não equivale a conhecimento aprofundado sobre nada.

 

Depois, Lair volta a utilizar o argumento clássico dos defensores das terapias alternativas, logo a seguir ao facto de se tratarem de práticas milenares (tal como as sangrias ou os autos de fé), que é o número de livros ou estudos publicados sobre o tema. Lair refere que se for feita uma pesquisa na Amazon, que como sabemos é um motor de busca de literatura científica quase tão bom como a PubMed, concluímos que existem mais de mil livros publicados sobre os benefícios do óleo de côco. "Todos favoráveis à sua utilização", reitera o Dr. Ribeiro. Como é que chegou a esta conclusão? Não faço ideia. Será que leu os mais de mil livros todos? E se os leu, será que o fez como o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República, lia os livros todos que dizia que lia (ou seja, obrigava os alunos da faculdade onde leccionava a fazer-lhe resumos para ele debitar na televisão)? Questões que ficam em aberto até um pouco mais à frente, altura em que Lair Ribeiro refere que estuda oito a dez horas por dia. Claro que fica implícito que o acto de estudar do Dr. Lair Ribeiro não é igual ao dos restantes mortais, na medida em que dá a sensação que, para ele, ver vídeos do YouTube equivale a estudar. Se assim for, eu serei certamente um especialista em gatos, já que passo uma parte significativa do meu tempo livre a ver vídeos sobre estes adoráveis felinos na Internet. Ainda ontem o fiz, até às duas da manhã. Será que estou habilitado a abrir uma clínica veterinária?

 

Mas estamos a perder-nos em pormenores e a deixar o mais importante para trás. E entramos aqui na lição número 2 do dia: o número de publicações sobre determinado tema não provam a sua eficácia. Por favor, que isto entre nas vossas cabeças, suas sumidades defensoras do poder terapêutico da água com açúcar. Existem centenas, senão milhares, de estudos e livros sobre tabaco. Isto confere ao cigarro, magicamente, alguma propriedade terapêutica? Mais do que o número de livros ou estudos, importa a sua qualidade e os resultados que transmitem!

 

De seguida somos então brindados com algum do conhecimento científico do Dr. Lair Ribeiro, quando o mesmo refere que o ácido láurico é convertido no estômago a monolaurina, substância que inibe a transcriptase (presumo que reversa) do vírus da imunodeficiência humana. Assim, segundo o professor, esta substância milagrosa tem a capacidade de inibir a replicação do vírus e, assim, evitar a progressão da infecção para SIDA. Até aqui tudo bem, no entanto ficam algumas questões no ar. Talvez o Dr. Ribeiro não esteja a par do assunto mas, regra geral, o vírus do VIH não entra no organismo pelo estômago. Claro que com as práticas sexuais modernas a que assistimos tudo é possível, ainda assim as vias de contaminação mais frequentes continuam a ser a sexual, vertical e parentérica. Depois, aproveitando também para introduzir aqui uma perspectiva histórica, talvez o Dr. Lair não se recorde que durante muitos anos os doentes com VIH foram tratados com inibidores da transcriptase reversa como monoterapia. O que é que lhes acontecia? Morriam na mesma, apenas mais lentamente. E os que não morreram foi porque se aguentaram até surgirem outras classes de fármacos. Admitindo que a tal monolaurina possa ter eventual efeito anti-transcriptase reversa, facto que admito desde já desconhecer, ainda que pudesse ser aplicada no tratamento destes doentes, não ia ser suficiente. O VIH caracteriza-se pela sua elevadíssima capacidade mutagénica e aquisição de resistência a anti-retrovirais. Daí a importância de o tratar com várias classes de fármacos diferentes, com mecanismos de actuação diferentes. E temos aqui a lição número 3 do dia: se fores portador do VIH consome o óleo de côco que quiseres, mas por favor não pares a medicação anti-retroviral.

 

Mas aparentemente o Dr. Lair Ribeiro veio preparado para todos estes argumentos, já que pouco depois aproveita para dar o exemplo das ilhas do Pacífico, onde a dieta se baseia no côco e nos quais, segundo o senhor professor, não existe SIDA. Existe VIH, sim, mas não existe SIDA. Palavras do próprio. Referências bibliográficas? Nem vê-las. Por isso mesmo, decidi fazer uma espécie de fact-check para tentar comprovar ou desmentir as palavras deste santo. Bom, começando pelo Hawai, só em 2016 54 pessoas foram diagnosticadas com infecção por VIH. Destas, vinte tinham SIDA. E estes dados são do CDC. Portanto, podemos riscar o Hawai da lista de ilhas do Pacífico em que "não há SIDA". Na Nova Zelândia, segundo a organização UNAIDS, existiam até 2017 3700 pessoas a viver com VIH. Desde o início da epidemia, menos de 100 pessoas morreram na sequência de complicações relacionadas com a SIDA. Provavelmente pessoas que não comiam côco, presumo. Por fim, o melhor estudo que consegui arranjar sobre a prevalência da doença nas restantes ilhas do Pacífico remonta a 2004. Já nessa altura, 2335 pessoas tinham desenvolvido SIDA desde a instituição de programas de vigilância, em meados dos anos 80. Dessas, 617 já não se encontram connosco.

 

Mas foquemo-nos no côco e deixemos as ilhas do Pacífico. Porque afinal o que importa aqui é atentarmos nos benefícios desta substância maravilhosa que Deus nos deu e não nos perdermos em pormenores estatísticos. Peguemos no exemplo de Moçambique, país nosso irmão onde o côco é amplamente utilizado na cozinha. E faço aqui um aparte para vos informar que a verdadeira receita de caril leva leite de côco e quem não concorda não está autorizado a ser meu amigo. A prevalência de SIDA em Moçambique? Só Deus sabe. Aquilo que sabemos é que mais de 12% da população vive com VIH. Mas depois deste abre-olhos proporcionado por Lair Ribeiro, pergunto-me porque é que gastámos tanto tempo e dinheiro ao longo destes anos todos a distribuir preservativos e anti-retrovirais em Moçambique quando tudo o que precisávamos era de plantar coqueiros. É aquilo a que se chama má gestão de recursos.

 

Brincadeiras à parte, termino com a lição número 4: óleo de côco não previne a SIDA coisíssima nenhuma. No meu entender, cada ser humano é dono do seu próprio corpo e, portanto, soberano naquilo que deve ou não lá colocar. Ainda assim, o VIH é uma questão de saúde pública. Desta forma, se fores diabético e quiseres seguir o conselho do Conan Osíris e comer bolos, aquilo que eu vou fazer como profissional de saúde é aconselhar-te a que não o faças. Mas no fim a decisão é tua. Em relação ao VIH, a coisa é um pouco diferente, ou seja, parares de tomar o Truvada só porque um charlatão qualquer te disse que a medicação é veneno e que o óleo de côco é que é bom faz-me alguma comichão. Porque neste caso não é só a tua saúde que está em risco, mas também a da tua mulher, marido, filhos, profissionais de saúde que tratam de ti e de todos os amigos e amigas com quem gostas de jogar ao quarto escuro sem roupa. Daí que nunca seja demais realçar a importância de seguir a opinião da ciência, à qual centenas, senão milhares, de cientistas muito mais brilhantes que tu ou eu juntos dedicaram as suas vidas. Aquela na qual o Estado e empresas investiram milhões, senão biliões de euros. Foi essa ciência que nos permitiu transformar uma doença que há trinta anos era invariavelmente letal, numa patologia crónica, semelhante à hipertensão arterial ou à Diabetes. Foi essa ciência que permitiu que dois pacientes atingissem a cura. E é essa ciência que permite que, a pouco e pouco, se combata a elevadíssima incidência da doença nos países subdesenvolvidos como Moçambique. Foi a ciência que o permitiu. E não a opinião de um charlatão que acha que percebe de bioquímica.

 

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Medicina só há uma

Depois de assistir ao debate Prós e Contras transmitido ontem na RTP 1, subordinado ao tema "Medicina convencional VS Medicinas alternativas", decidi trazer-vos aqui algumas reflexões sobre o tema para tentar, de algum modo, combater o barulho estatístico e ruído de fundo que se gera à volta deste tema e que em nada ajuda aqueles que verdadeiramente querem aprender algo sobre o tema.

 

 

Em primeiro lugar, começo por dizer que achei todo o debate de uma deselegância atroz. No meu entender, os únicos "palestrantes" que se comportaram à altura da ocasião foram o Dr. André Casado e o Dr. Hélio Pereira, cada um pertencendo a lados opostos da discussão. Todos os demais limitaram-se a partir para o insulto pessoal e escárnio. Com destaque para particular para um tal João Beles que, pela forma como se comportou durante todo o debate, creio que podemos concluir que se trata de um autêntico idiota. E esta é a única conclusão que não precisa de estudos prospectivos para ser retirada.

 

Dito isto e com a promessa que vou tentar, com todas as forças, não insultar mais ninguém e manter-me o mais sereno possível, vou partilhar convosco algumas ideias sobre este tema.

 

1 - Somos amigos, não inimigos.

 

Antes de começar a falar sobre o debate em si, quero apenas deixar um ponto assente, mesmo sabendo que para muitos as minhas palavras irão certamente cair em saco roto: nenhum médico está interessado em algo mais do que o melhor para o doente. E isto tem de entrar na cabeça das pessoas, nem que seja à martelada, o que seria irónico porque estaríamos a fazer mal a alguém para lhe provar que queremos o seu bem. Marteladas metafóricas, entenda-se. Qualquer médico que actue com outro interesse em mente que não o bem do seu doente deixou de ser médico há muito tempo. Por favor, gente boa, entendam isto. Há médicos bons e há médicos maus, sem dúvida. E quando digo maus não me refiro a incompetência. Refiro-me a maldade mesmo. Infelizmente há médicos que abusam de doentes, física ou psicologicamente. Ainda ontem li um artigo sobre um dentista (OK, não é bem médico, mas bear with me, please) que fazia procedimentos de extracção dentária a crianças sem anestesia e removia muito mais do que os dentes necessários  para obter benefícios em termos de segurança social. Isto aconteceu nos Estados Unidos e infelizmente este canalha não foi punido de forma alguma. Isto é um escândalo e revolta-me as entranhas tanto ou mais do que a vocês.

 

Infelizmente, a população humana distribui-se de forma gaussiana pelo espectro da bondade e maldade, ou seja, a maior parte de nós é suficientemente bom para conseguir conviver em sociedade, mas alguns de nós estão em um dos dois extremos, seja do lado Charles Manson, seja do lado, vá, Jesus Cristo. E na classe médica é igual. Não há curso nem exame que permita separar os bons dos maus. Agora, uma coisa vos posso garantir: a esmagadora maioria dos médicos com quem se vão cruzar durante a vossa vida faz parte do grupo de pessoas que quer o vosso bem, no matter what. Eu sei que pareço um bocado o João Beles quando atiro assim estatísticas vagas sem provas evidentes para o que estou a dizer, mas se vos posso apelar à emoção e ao sentimento por uma vez que seja, que seja agora. A maior parte de nós quer o vosso bem e não está aqui para vos prejudicar de forma nenhuma. Portanto, acreditem, se algum tipo de terapêutica descrita como não convencional fosse, de forma contundente e sem margem para dúvidas, descrita como eficaz, nós seríamos os primeiros a adoptá-la na nossa prática clínica.

 

2 - O título do debate é estúpido.

 

Ok, comecei logo a ajavardar no segundo tópico, eu sei. Mas é verdade. Segundo a Wikipédia (fonte mais credível que a maior parte dos estudos trazidos à discussão no debate de ontem), a Medicina é a ciência responsável pelo diagnóstico, tratamento, prognóstico e prevenção de doenças. Ora, tendo em conta que nenhuma das pseudo-ciências defendidas pela facção das "Medicinas não convencionais" comprovou, pelo método científico, ter algum tipo de efeito benéfico em nenhum destes âmbitos, chamar-lhes "Medicinas" é errado. Medicina só há uma. É a que diagnostica, previne e trata doenças e estabelece prognósticos. Tudo o resto será outra coisa qualquer, mas pelo amor da santa não lhe chamem Medicina. A partir do momento em que se conclua, de forma categórica e definitiva, que alguma destas "terapias" tem eficácia em algum destes pontos, passará logicamente para o campo da Medicina. 

 

"Ah e tal mas o bem-estar também é muito importante". Pois é. E muitas destas "terapias" assentam justamente nisso, na promoção do conforto e bem-estar. Isso não as torna Medicina. Senão, reparem: quando vou ao ginásio sinto bem-estar porque por momentos acredito que um dia vou deixar de ser um gordo sedentário e aquele é o meu primeiro passo da operação Verão 2019. Isso significa que fui ao médico? Quando eu chego a casa e os meus gatos me vêm receber à porta, transmitem-me bem-estar. Isso significa que estão a exercer Medicina? Quando fui ao Vietname uma senhora quis fazer-me uma massagem com final feliz. Será que isso a qualifica como profissional de saúde? Pois, é importante não misturar as coisas. Medicina só há uma.

 

3 - Só há uma forma de comprovar a eficácia de uma determinada terapêutica.

 

Ao contrário daquilo que esse tal João Beles disse quando apresentou uma pirâmide desenhada por ele no Powerpoint (pouco depois de ter acusado outro elemento do debate de apresentar gráficos sem fontes, o que torna tudo ainda mais irónico), as meta-análises não são o instrumento estatístico de maior força na determinação de eficácia de determinada substância ou acto terapêutico. E até estranhei como nenhum dos três palestrantes do lado da verdade o tenha referido. Os estudos científicos com maior poder estatístico são os estudos prospectivos, ou seja realizados ao longo do tempo e não de forma retrospectiva, ou seja, analisando dados passados, que incluam amostras representativas da população, tanto maiores quanto possível,  nos quais sejam comparados dois grupos de indivíduos, o grupo de pessoas que recebe determinado fármaco ou acto terapêutico VS o grupo de pessoas que não o recebe, de preferência duplamente cegos (ou seja, nem o doente nem o médico sabem que grupo recebe o quê). E apenas é possível confirmar que uma determinada molécula ou procedimento tem eficácia quando se comprova de forma estatisticamente significativa, ou seja, com um grau de probabilidade superior a 95%, que o grupo que a tomou teve melhores resultados, nos endpoints definidos pelos autores do estudo. E mesmo depois disso, para poder concluir isso é preciso ajustar os dois grupos no que diz respeito aos outros factores todos, ou seja, garantir que as comparações são feitas entre pessoas do mesmo sexo, idade e com as mesmas doenças ou características. Mas calma que isto não fica por aqui! Para que essa mesma molécula ou acto terapêutico seja integrado nas recomendações de prática clínica é geralmente necessário que mais estudos de qualidade o comprovem.

 

Quando analisamos todos os estudos apresentados pelos palestrantes defensores das "terapias não convencionais" concluímos que nenhum cumpre estes critérios. Ou seja, é intelectualmente desonesto e cientificamente errado dizer, por exemplo, que o chá verde ajuda a curar o cancro, quando nos baseamos em estudos sem qualidade. Reparem que ninguém nega que naquele estudo as pessoas que beberam chá verde tiveram menos cancro. Aquilo que nós defendemos é que não se pode, com base em estudos de 30 pessoas, dizer que o chá verde previne cancro da próstata. Nem sabemos quem são essas 30 pessoas! Seriam mais velhos ou mais novos? Teriam história familiar de cancro ou não? Tinham os mesmos factores de risco para desenvolver cancro? Não sabemos. Só sabemos que esse grupo teve menos cancro. Mas não podemos tirar conclusão absolutamente nenhuma com esses dados.

 

4 - O número de estudos que existem sobre determinada matéria não significa rigorosamente nada.

 

Perdi a conta ao número de vezes que ouvi ser dito coisas como "já foram feitos não sei quantos estudos" sobre um determinado tema. E então? O que é que isso me diz? Que estudos são esses? Têm qualidade? E quais foram os resultados desses estudos? É que, por exemplo, se eu escrever "tabaco" na Pubmed ou em outro motor de busca qualquer de literatura científica, vão aparecer-me centenas, senão milhares de estudos. Isso significa que o tabaco agora é terapêutico? Pode ser considerado uma terapia não convencional?

 

Este argumento é falacioso. O número de estudos sobre um determinado tema não significa nada, enquanto não soubermos que estudos foram, se foram estudos de qualidade ou se, por outro lado, foram estudos como os que o João Beles apresentou para defender a utilidade do chá verde no tratamento do cancro e, mais importante que tudo, que conclusões foram tiradas desses mesmos estudos. Frases vagas a apelar a um argumento de autoridade que não existe servem apenas para ludibriar as pessoas menos informadas e, quiçá, sacar alguns aplausos da plateia, como se viu ontem.

 

5 - Dizer que as terapias convencionais já estão aprovadas no estrangeiro não significa rigorosamente nada.

 

A determinada altura, ouvi o senhor Pedro Choy dizer que na China há centenas ou milhares de locais onde se pratica "terapia" tradicional chinesa. E então? O que é que isso contribui para o debate? Vamos usar a China como elemento comparativo do que quer que seja? A esperança média de vida em Portugal é superior à da China. E agora? O índice de desenvolvimento humano de Portugal é superior ao da China. E agora? Os cuidados de saúde prestados à população portuguesa são, em média, incomparavelmente superiores aos da população chinesa. E agora?

 

Da mesma forma, foi dito várias vezes que noutros países do mundo, incluindo na União Europeia, estas práticas já tinham sido aprovadas na prática clínica. Voltamos ao mesmo: e então? O que é que isso me diz? Nada. Isto serve apenas para utilizar o complexo de inferioridade subconsciente do tuga: se tudo o que vem lá de fora é melhor e se lá fora se faz, então é porque é bom. Lembrem-se que estes defensores das terapias alternativas são, mais do que outra coisa, excelentes marketeers. E toda esta conversa do estrangeiro serve apenas para usar o complexo de inferioridade do tuga contra ele próprio. É outro argumento de autoridade que não serve para nada. Por exemplo, eu podia dizer que na Arábia Saudita uma mulher que seja acusada de bruxaria é condenada à morte. Isso significa que é bom? É para implementar em Portugal também?

 

6 - O efeito placebo é muito importante.


Durante o debate foi também introduzido o tema do efeito placebo e das doenças que passam sozinhas. Foi dado o exemplo da gripe. Por definição, a gripe é uma doença auto-limitada, ou seja, dura alguns dias e depois passa. Eu até me posso banhar em urina de elefante da Malásia e ao fim de três dias estou curado. E então? Foi o xixi do paquiderme que me curou? Já para não falar em toda a envolvência psicossomática da coisa. A dor é o exemplo clássico do sintoma que é experienciado de forma completamente diferente de indivíduo para indivíduo. Isso explica a diferente tolerância à dor que cada pessoa tem. E mesmo a própria pessoa pode sentir a dor de forma diferente de dia para dia. Isto porque há um componente psicológico muito importante na sensação subjectiva da dor. A ansiedade e a depressão são exemplos clássicos de doenças que alteram e muito a modulação da dor.

 

Ou seja, falar no caso da dona Alzira que sofre de ciática há dois anos, que foi vista por vários médicos que não lhe resolveram o problema e que a seguir foi ao naturopata ou osteopata e ficou curada, lamento informar-vos, mas não significa rigorosamente nada. Primeiro, porque como foi dito, não sabemos até que ponto é que a dona Alzira não podia ter ficado curada de forma espontânea. Lembrem-se que o corpo humano é uma máquina muito complexa e tem uma capacidade regenerativa importante. Depois, esquecemo-nos de dizer que a dona Alzira estava muito deprimida e começou entretanto a tomar anti-depressivo, o que coincidiu com a melhoria da dor. Por fim, também não dissemos que a dona Alzira fica sempre nervosa quando vai ao médico e a dor aumenta de intensidade nessa altura. Já quando vai ao naturopata e é recebida num consultório limpinho, com uma secretária sorridente e atenciosa, com musiquinha ambiente calma, com cheiro de incenso no ar e sentadinha numa cadeira confortável, se calhar fica logo melhor antes sequer de ser vista pelo "terapeuta".

 

E mesmo que nada do que eu disse se aplique e de facto a dona Alzira melhorou mesmo com a naturopatia, fico muito feliz por ela e ainda bem que assim foi, mas um testemunho isolado, por muito importante que seja para aquela pessoa, não significa nada em termos estatísticos. Daí ter sido dito, e bem, que os testemunhos têm pouca importância na análise estatística da eficácia de determinada terapêutica. O facto de ter funcionado bem com a dona Alzira não significa que funcione bem com o senhor Artur ou com a dona Rosa. E muito menos deve ser usado como factor para ser incorporado em guidelines. Isso é só intelectualmente desonesto.

 

7 - O facto de muita gente recorrer a acupunctura não significa rigorosamente nada.

 

Por fim, foi dito também pelo senhor Pedro Choy, mesmo no fim do programa e já numa tentativa de descridibilizar e demonizar os seus adversários apelando ao sentimento do povo, que se mais de dois milhões de pessoas recorreram às "terapias" convencionais, é porque só podem ser benéficas. Isto seria o mesmo que dizer que se toda a gente fala ao telemóvel enquanto conduz, é porque só pode ser bom e tem de ser recomendado. Ou dizer que a convocatória para a Selecção Nacional devia ser feita por referendo e não por indicação do seleccionador. Ou que a nossa estratégia militar na guerra do Ultramar devia ter sido tomada por jardineiros e não por generais. Isto é estúpido. As pessoas, regra geral e particularmente em Portugal, têm uma literacia em relação à saúde muito baixa. E não há mal nenhum em não se dominar determinado tema, ninguém nasce ensinado. Eu, por exemplo, não percebo rigorosamente nada de mecânica e por isso mesmo é que quando o meu carro tem algum problema deixo-o no mecânico em vez de me pôr a inventar.

 

As decisões devem ser tomadas pelos especialistas em determinado tema e não por quem acha que percebe. Utilizar o argumento "se toda a gente faz é porque é bom" dá vontade de utilizar o argumento igualmente estúpido de "se toda a gente se atirasse para um poço, ias atrás?". Mas aí íamos parecer o João Beles e perdíamos a razão toda.

 

Enfim, em jeito de conclusão, quero dizer que fiquei desiludido com o debate. Acho que não serviu para elucidar ninguém de coisa nenhuma e por isso quero apelar a todos os meus colegas que não se deixem levar pelas emoções quando discutem este tipo de questões. Sejam pragmáticos e transmitam confiança aos doentes. Vocês têm a razão do vosso lado. E entendam também que ignorância e tendência para o conspiracionismo vai sempre existir. Faz parte do ser humano. Alguém vai sempre achar que há algo mais e que alguma coisa está a ser escondida por alguém. O ocultismo é muito mais interessante do que a ciência. Por isso é que as pessoas se matam umas às outras pela religião. Por isso mesmo, lembrem-se: o vosso dever com o doente é transmitir-lhe sempre a verdade e zelar pelo seu melhor interesse. Mas no fim do dia, o corpo e o poder de decisão é dele e não há nada que possam fazer em relação a isso. Não se consumam com isto. Se a coisa correr bem, óptimo. Se correr mal... Bom, Darwin chamava-lhe selecção natural.

Os exames orais deviam ser proibidos

Olá a todos e a todas. Depois de um parto difícil o canudo de especialista já cá canta. Que é o mesmo que dizer que as responsabilidades duplicam e o ordenado... Nem por isso! Ah, a vida é bela!

Mas deixemo-nos disso. Depois deste exame que me tirou umas duas décadas de vida, decidi partilhar aqui hoje convosco a minha opinião sobre uma praga com a qual temos vindo a lidar desde o início da nossa formação académica: os exames orais.

 

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Quem os defende diz que o exames orais são de grande importância para nos ensinarem a lidar o stress e a treinar as nossas capacidades de comunicação com outros seres humanos. Pois bem, amigos e amigas, eu estou aqui para vos dizer que isso é tudo peta. Para mal dos meus pecados, faço exames orais com alguma regularidade desde há uns doze anos e hoje posso-vos dizer com toda a propriedade que aquilo que ganhei com este tipo de exames foi mais ou menos o mesmo que ganhei em sair mais tarde 90% dos dias de trabalho.


Ou seja, nada.

 

1 - São provavelmente a forma mais injusta de avaliar um candidato

 

Todos conhecemos aquele tipo que pode não fazer ideia do que está a falar, mas por ter uma grande lábia safa-se sempre à grande nas orais. Também conhecemos aquela pobre coitada que se farta de estudar e até sabe as coisas, mas como é tímida e introvertida chega aos exames orais e dá a sensação que não sabe. Todos ouvimos a história daquele professor rebarbado da faculdade que dá notas inversamente proporcionais ao tamanho da saia e directamente proporcionais ao tamanho do decote. E o contrário também é verdade, ou seja, também há aqueles (felizmente cada vez menos frequentes) que ainda acham que determinadas especialidades não são para mulheres e correm as alunas todas a doze. Enfim, há-de tudo. E é inevitável que assim seja. Afinal, o ser humano é um animal intrinsecamente aldrabão, ou seja, colocar o poder de decisão sobre a vida académica de alguém nas mãos de uma pessoa é, no mínimo, injusto.

 

2 - Dão muito menos trabalho

 

Estão a ver aquelas faculdades de Medicina e aqueles internatos que gastam imenso dinheiro aos contribuintes e com quem toda a gente agora se preocupa? Pois bem, uma vez que mais de metade das pessoas responsáveis pela formação de internos e alunos nas universidades e hospitais fazem-no pro bono ou a um preço simbólico, é fácil perceber que dá muito mais jeito "pagar" a alguém para fazer meia dúzia de perguntas de quando em vez a uns quantos candidatos, do que "pagar" a esse mesmo alguém para elaborar um teste escrito e, cruzes credo, ter de o corrigir depois. Já para não falar na quantidade de papel e toners que se gastam no processo. E a canseira de ter de pensar em perguntas novas todos os anos ou semestres. Não pode ser! Por isso é que pelo menos no meu tempo havia umas quantas cadeiras cujo exame era igual todos os anos. Os alunos agradeciam, isso é certo. Agora, qualidade formativa? Nem vê-la.

 

3 - Não se pode avaliar um aluno de Medicina em exames de escolhas múltiplas.

 

Pronto, aqui eu até percebo. Afinal, quem é que se ia lembrar de fazer um único exame de escolhas múltiplas baseado num único livro para decidir o futuro académico ou profissional de centenas de médicos e médicas, não é? Não faz sentido nenhum. OK, ironias à parte, eu sei que não se deve falar dos defuntos, mas o Harrison, com todos os defeitos que tinha (e se é que os tinha), pelo menos tinha uma coisa que os exames orais não têm: era igual para todos. Era injusto? Claro que sim. É ridículo obrigar os alunos a penar seis anos de faculdade para depois a média de faculdade não contar para absolutamente nada? Sem dúvida. Mas uma coisa é certa: podias ir com a saia mais curta do teu guarda-roupa, ou podias ser filho do Dr. Sampaio Miranda, pouco interessava. No fim, eras avaliado como todos os outros. Há cerca de oitocentas e quarenta e três outras formas mais justas que o Harrison para se avaliar a qualidade de um recém-formado em Medicina, sem dúvida. Mas uma coisa é certa, e digo isto as vezes que forem precisas, um exame de escolha múltipla é, sempre foi e sempre será mais justo do que qualquer exame oral. E se há cadeiras ou temas que não é possível avaliar por escolha múltipla, também foi para isso que Deus criou as perguntas de desenvolvimento.

 

4 - "Ah mas um médico precisa de saber gerir o stress e comunicar bem com outras pessoas!"

Amigos e amigas, volto a dizer: eu fiz dezenas de exames orais durante a faculdade e posso dizer que quando me defrontei com o meu primeiro edema agudo do pulmão à séria, no meu ano longínquo de IAC, borrei-me todo na mesma. Nada teria sido diferente, tivesse eu feito zero, um ou mil exames orais durante o meu percurso formativo. O stress faz parte da nossa profissão, porra! Lidamos com pessoas doentes! Umas mais, outras menos, mas todas doentes, nem que seja só da cabeça. Uma decisão mal tomada pode ser sinónimo de consequências sérias para doentes, família e para nós próprios! A única forma de aliviar o stress é lidar com ele de frente! É ver doentes, ver muitos doentes. É assistir a situações horríveis, é errar às vezes, é ter sucesso noutras! É ficarmo-nos a sentir uma valente trampa quando fazemos asneira, ou ficarmos no topo do mundo quando fazemos a diferença na vida de alguém. E com o tempo, aquela angústia de não saber o que fazer com o doente à nossa frente vai-se transformando em confiança, sempre com respeito pela insignificância do nosso conhecimento em relação à vastidão da Medicina.

 

E o mesmo se aplica em relação a saber comunicar com os doentes. Qualquer especialista em comunicação na área da saúde vos dirá aquilo que eu vos vou dizer: ninguém nasce a saber comunicar. Uns têm mais jeito que outros, é verdade, mas a comunicação com doentes, familiares e colegas é uma arte que se aprimora com a prática. É uma técnica que se desenvolve ao longo do tempo. Certamente não é a falar do esternocleidomastoideu que se aprende a comunicar. E de certeza que não se aprende a lidar com o stress quando estamos prestes a ter uma lipotímia naquele momento em que, por azar, nos perguntam justamente aquele tema que não estudámos tão bem e acabámos de nos aperceber que, não só chumbámos ou tirámos uma nota baixa, como vamos ser humilhados e sair do exame com a nossa auto-estima feita em trapos. Lembrem-se, aquele onze que vocês tiraram naquela longínqua cadeira da faculdade que detestaram já lá vai. Está enterrado no meio das milhentas cadeiras das quais gostaram e se saíram bem. Mas se esse onze foi o resultado de uma oral em que o professor vos fez duas ou três perguntas que vocês não sabiam tão bem, depois com os nervos a coisa bloqueou e no fim levaram o onze só porque responderam qualquer coisa ou desataram a chorar no meio do exame, essa humilhação fica. E deixa marcas. Ou se esse mesmo onze foi o resultado do facto de terem tido um filho da mãe de um examinador que não foi com a vossa cara e vos fez a vida num inferno, essa raiva fica também. E deixa marcas.

 

Amigos e amigas, os tempos do Vasquinho da Anatomia e do esternocleidomastoideu já passaram. Nessa altura morria-se de apendicite, agora, regra geral, já não. Se a Medicina evoluiu, porque é que a forma de avaliar o conhecimento em Medicina não evolui também?