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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

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A minha vida dava um filme de Hollywood

A propósito da cerimónia dos Óscares, que terá lugar esta madrugada, lembrei-me de possíveis filmes cujo título ou sinopse se enquadram perfeitamente na vida de algumas classes de profissionais de saúde que agraciam este nosso SNS.

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Médicos - "12 anos escravo"

 

O filme protagonizado por Chiwetel Ejiofor é uma boa metáfora para o percurso formativo de um médico. Seis anos de curso, um ano de internato do ano comum (recuso-me a chamar-lhe internato de formação geral) e mais cinco anos de internato. A conta que Deus fez. Sim, eu sei que para alguns colegas de especialidades cirúrgicas o título mais apropriado seria "13 anos escravo" e para outros "11 anos escravo", mas em vez de nos perdermos em pormenores, que tal lembrarmo-nos todos das chicotadas psicológicas que levámos ao longo destes anos? Do trabalho mal remunerado ou não remunerado de todo? Parece-me que a diferença mais marcante entre a nossa vida e este clássico do cinema é que, ao contrário do protagonista Solomon Northup que ao fim de 12 penosos anos de escravidão consegue atingir a tão esperada liberdade, nós, chicos-espertos que decidiram arruinar a sua vida para salvar a dos outros, continuamos destinados a uma vida de subserviência e abnegação. Ossos do ofício. Talvez um dia façam um filme sobre nós.

 

Enfermeiros - "Feios, porcos e maus"

 

A sério que pensaram que qualquer outro título seria capaz de retratar melhor a vida de um enfermeiro neste país? Depois de apelidados de criminosos, diabolizados em praça pública e negados ao direito de greve que, na teoria, devia assistir a qualquer trabalhador, parece-me que este título é uma súmula mais do que apropriada para o estado a que a classe chegou. E o mais engraçado no meio disto tudo é que o clássico do cinema italiano, que retrata a vida de uma família pobre e numerosa em que os elementos de quatro gerações se amontoam numa barraca em Roma, assemelha-se de forma mais do que irónica ao facto de que um enfermeiro hoje em dia não ganha o suficiente para poder viver sozinho num T1 na cidade de Lisboa ou do Porto. É bem, Portugal!

 

Assistentes operacionais - "Esquecidos por Deus"

 

Desenganem-se aqueles que acham que os assistentes operacionais têm uma vida fácil. Porque não têm. Fazem tantas noites como os restantes colegas, é certo que talvez não desempenhem o cargo intelectualmente mais exigente de todos mas certamente compensam com o esforço físico a que muitas vezes são sujeitos. Mobilizar e transportar doentes têm o que se lhe diga e casos de lesões crónicas contraídas no desempenho da profissão é o que não falta. Infelizmente, muitas vezes acabam por ser esquecidos pela opinião pública e também pelas chefias, daí a escolha deste título.

 

Administradores hospitalares - "Sacanas sem lei"

 

Ok, eu sei que o filme retrata a história de um grupo de judeus que se tenta vingar de nazis e que, no máximo, o final do filme retrata aquilo que qualquer um de nós às vezes gostava de fazer a quem manda em nós... Mas podemos apenas concordar que o título cabe que nem uma luva aos senhores e senhoras lá de cima? Áqueles indivíduos que dizem que não há dinheiro para nos pagar em condições, mas que depois não se importam de pagar milhões a clínicas privadas para fazerem exames complementares de diagnóstico que podiam ser feitos no público? Ou a empresas prestadoras de serviços?

 

("Os deuses devem estar loucos" seria outra alternativa apropriada.)

 

Ministra da Saúde - "Demónio de saias"

Este filme protagonizado por Meryl Streep retrata bem a impressão que cada profissional de saúde tem da senhora que apenas desde há poucos meses herdou o legado de Adalberto Fernandes. E a verdade é que Marta Temido não deixa créditos por mãos alheias. Em menos de um ano de ministério conseguiu colocar a classe médica toda contra ela quando decidiu inventar um valor de 500 euros por hora de trabalho na véspera de Natal,  ao mesmo tempo que apelidou de criminosos os enfermeiros grevistas. Tanta calinada em tão pouco tempo não é para todos. Por isso mesmo é que cada vez que a vemos na televisão, é como se estivéssemos a olhar para um demónio. Daí o título.

 

Doentes - "O silêncio dos inocentes"


O pior de tudo isto é que no fim do dia quem mais sofre são aqueles que estão no fundo da "cadeia alimentar" e que pouca ou nenhuma culpa têm do estado a que o sistema de saúde do nosso país chegou: os doentes. Pensa na quantidade de vezes que chegaste a casa frustrado/a e exausto/a depois de um dia de trabalho em que sentiste que nada funcionou, em que tiveste de lutar contra tudo e contra todos para conseguir fazer o teu trabalho da melhor maneira possível. Sentes que o sistema está contra ti. E talvez até esteja. Mas no fim do dia, tu voltas para casa e há quem não tenha essa sorte. Todos nós, sejamos médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, técnicos ou outros profissionais, somos prejudicados por este sistema viciado que só funciona para alguns. Mas não te iludas, quem sofre mais com tudo isto são, de longe, os doentes.