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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

A verdade sobre a Saúde 24

saude 24 3.png

 

Ontem a página de Facebook dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) publicou a seguinte imagem:

 

 

saúde 24.png

 

A questão que se levantou imediatamente na minha cabeça foi:

 

"Será facejacking ou simplesmente uma piada de mau gosto?"

 

Todos gostamos de rir um pouco e eu não acho que a saúde tenha de ser uma área com a qual não se possa brincar ou fazer humor, até porque se assim fosse nem sequer teria criado esta página. Mas toda a gente sabe, certamente os senhores e senhoras do Ministério da Saúde saberão também, que em Portugal se recorre demasiadas vezes à urgência. É um facto.

 

E os motivos para esse abuso da urgência são vários. A falta de médicos de família e de alternativas para resolver problemas de saúde minor fora do horário de expediente são dois deles. No entanto talvez o motivo mais importante e preocupante tem mesmo a ver com a mentalidade da população, que é demasiado dependente do Serviço de Urgência. Por exemplo, não percebo porque é que um jovem com uma amigdalite não complicada e sem grandes sintomas tenha que ir à urgência às cinco da manhã. E a prova de que o que eu estou a dizer é verdade é que basta olhar para o exemplo do Reino Unido, um país com uma rede de cuidados de saúde primários muito mais abrangente que a nossa, em que os emigrantes tugas continuam a ser os campeões das urgências. Isto resolve-se com educação. Que no fundo é um pouco o que eu tento fazer aqui.

 

(Olha para mim a tentar dar legitimidade à minha página!)

 

E a verdade é que esta campanha é exactamente o oposto de educar a população. É incentivá-la a utilizar um serviço que, na teoria, deveria facilitar o acesso a cuidados de saúde da população e com isso reduzir a afluência à urgência, mas que na verdade serve essencialmente para encher os bolsos a certas pessoas, não vivêssemos nós neste belo cantinho à beira-mar plantado.

 

O ex-bastonário da Ordem dos Médicos, Dr. José Manuel Silva, em tempos já denunciou o esquema milionário da Saúde 24, curiosamente na véspera do término do seu mandato (porque será?). Na entrevista que deu ao Diário de Notícias disse que cada chamada para a Saúde 24 em que o doente seja encaminhado ao Serviço de Urgência rende doze euros. Se o problema de saúde do doente ficar resolvido aí o valor passa para dezasseis euros por chamada.

 

Imaginem que a dona Alzira é uma senhora de 65 anos que foi ao médico. O médico prescreveu-lhe um antibiótico e um antipirético. A dona Alzira aviou a receita mas chegou a casa e não se lembrava qual era qual. A farmácia já tinha fechado e portanto ligou para a Saúde 24.

 

"- Estou sim, saúde 24.

- Boa noite, é o seguinte: eu fui agora ao médico, ele disse que eu tinha uma infecção respiratória e receitou-me um antibiótico e um medicamento para a febre. O problema é que eu não sei qual é qual.

- Muito bem, diga-me o nome dos medicamentos.

- Um deles é amoxicilina-ácido clavulânico. O outro é paracetamol.

- O primeiro é o antibiótico. O segundo é o da febre.

- Muito obrigada pela ajuda, boa noite."

 

E agora passa para cá dezasseis euros! Dei um exemplo um pouco extremo, mas que serve para ilustrar o facto de que

 

o Estado acha que uma chamada telefónica de menos de um minuto deve ser remunerada da mesma forma que duas horas de trabalho de um médico na urgência.

 

Os valores apresentados pelo Bastonário foram refutados pelo director-geral de Saúde, na altura o Dr. Francisco George, que referiu que o valor por chamada se situa nos 6.60 euros. Depois acabamos por entrar no diz-que-disse e, mais uma vez como estamos em Portugal, nunca saberemos a verdade. Seja como for, continua a ser um valor que se assemelha ao valor pago por hora a um médico na urgência o que, por muitas voltas que eu dê, continua a não me caber na cabeça. Porque é que em vez de se pagar a uma empresa privada não se investe no Serviço Nacional de Saúde, apetrechando os Serviços de Urgência e Centros de Saúde com condições para atender adequadamente os utentes? Porque é que não utiliza este dinheiro para remunerar adequadamente aos profissionais de saúde que trabalham no Serviço de Urgência, para que estes não fujam de lá como o diabo da cruz, como tem acontecido ultimamente?

 

Mas mais importante que isso, porque raio é que não se investe em educação à população para não abusar dos Serviços de Saúde, particularmente dos Serviços de Urgência? Em vez disso, temos esta campanha publicitária ridícula. Mas pronto, do mal o menos, alguém no Ministério da Saúde concordou comigo e o post foi apagado, o que pelo menos já demonstra alguma noção. Claro que eu, como já suspeitava que isto ia acontecer, decidi guardar a pérola para que todos possamos recordar com saudade este momento.

 

Senhores do Ministério da Saúde, querem um exemplo de uma campanha publicitária com sentido?

 

inem 2.jpg

 

É tudo o que tinha para partilhar convosco. Obrigado e lembre-se:

 

saude 24 2.png

 

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