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Pérolas da Urgência

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As 5 coisas que mais detesto na Medicina

Bom dia, amigos e amigas! Decidi começar a semana com mais uma sessão de catarse informática, desta feita sob a forma de um artigo em que partilho convosco as coisas que mais me irritam na profissão de médico. Não que queira começar a semana numa nota negativa, mas se é para mandar vir com a vida nada melhor do que fazê-lo a uma segunda-feira. Parece-me óbvio.

 

Em primeiro lugar, um disclaimer. Eu adoro ser médico. Talvez isso não transpareça no tom com que escrevo muitos dos meus textos mas é a mais pura da verdade. Quando o escolhi ser fi-lo de forma consciente e informada, sabendo perfeitamente que ser um bom médico envolve dar muito de nós aos outros sem esperar a devida recompensação, monetária ou outra. Não me imagino a fazer mais nada da minha vida, apesar das múltiplas vezes em que ao longo dos últimos anos me questionei se não seria mais feliz a trabalhar na caixa do Pingo Doce ou a servir à mesa. Dúvidas todos temos e isso é normal. O que interessa é que, no fim do dia, saibamos que o rumo que estamos a dar à nossa vida é o mais correcto.

 

Atentem, no entanto, que qualquer pessoa que diga que continuaria a exercer Medicina se ganhasse o Euromilhões está a aldrabar-vos. Eu sou o primeiro a admitir: a única dúvida que teria se me calhasse o Euromilhões seria que música escolher para fazer a minha saída triunfal do Hospital, depois de rescindir o contrato, rasgá-lo de forma dramática em frente ao Conselho de Administração e desfilar pela saída do Hospital com o dedo do meio bem erguido no ar para que todos pudessem ver. Ah, claro, e que animal escolheria para montar enquanto o faço. Um lama? Um dragão de komodo? Tudo questões válidas.

 

Mas mesmo sabendo que esta foi a vida que um sôtor escolheu, há certas e determinadas coisas na profissão de Medicina das quais desgosto particularmente. É nessas que me vou centrar, por ordem crescente de asco ou desespero que me provocam.

 

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5 - Discutir doentes com colegas de outras especialidades

 

OK, começo logo por aquela que considero potencialmente mais controversa. Eu detesto ter de discutir doentes com colegas de outras especialidades. E bem sei que na Medicina ninguém trabalha sozinho, todos dependemos uns dos outros e devemos colocar os egos de lado para promover o melhor interesse dos doentes. Ainda assim, não vale a pena tentar negar que, apesar de parecermos muito corporativistas para quem vê de fora, a verdade é que muitos de nós são uns autênticos, perdoem-me o francês, cabrõezinhos para os colegas. Particularmente para os colegas mais novos. Eu, pessoalmente, já perdi a conta ao número de vezes em que me irritei com colegas que, do conforto do seu lar, acham inadmissível que eu não saiba ver que a lesão isquémica que aparece na TC crâneo-encefálica do doente é antiga e não recente. Ou que, como é óbvio, uma dilatação de 12 mm do bacinete não é motivo para se ligar à Urologia às três da manhã. E atenção, isto serve para os dois lados. Também não me parece admissível que refilemos com um psiquiatra ou com um ortopedista por confundir um flutter auricular com uma fibrilhação auricular. Gozar com eles na Internet? Claro. Ser incorrecto com eles em pessoa? Não.

 

Tratem os colegas com respeito, gente! Independentemente da idade ou grau de diferenciação! Aquilo que para vocês parece óbvio porque o veêm todos os dias, para outro colega pode não ser! Mais: se estás em casa de prevenção e recebes uma chamada de um colega de presença física na urgência, tenta ser paciente. Eu sei que é chato ser acordado a meio da noite com uma dúvida que para ti é óbvia. Mas pensa: tu estás no conforto do teu lar e não há nada melhor que isso! Quer dizer, se estivesses num hotel de cinco estrelas na Polinésia Francesa talvez isso fosse melhor, mas tu entendeste o que quis dizer! Fazer urgência em presença fixa, com doentes à espera, acompanhantes mal-criados e sem dormir há vinte horas é e será sempre pior do que estar em casa de prevenção! Não sejas arrogante e tenta ajudar os colegas. Se achas que o doente não tem indicação cirúrgica ou não se justifica a realização de um determinado exame que o colega está a propôr, justifica-o de forma fundamentada e ajuda-o a melhorar. Não sejas um idiota que projecta as suas frustrações pessoais e profissionais em cima dos colegas mais novos. Isso não te vai fazer sentir mais feliz, a sério.

 

4 - Convencer as famílias a levar o doente para casa

 

Mais uma vez, novo disclaimer: bem sei que há gente que vive mal e não tem condições para ter os familiares, geralmente idosos e dependentes, em casa. Bem sei também que muita gente, por muito que goste do familiar, não lhe consegue prestar o apoio que precisa. Ainda assim, lamento informar-vos, mas a maioria dos casos de abandono hospital que presencio são perpetrados por gente que não vive assim tão mal e que, com algum esforço, até conseguia ter o paizinho ou a mãezinha em casa. Abandonar um familiar no hospital devia ser uma solução de último recurso, reservada para aqueles casos dramáticos em que, pura e simplesmente, não é possível prestar em ambulatório os cuidados ao doente que ele precisa. O hospital não deve ser o depósito de idosos. O hospital não deve ser usado como o local onde se vai deixar o doente porque não dá jeito tê-lo em casa. Ou porque nos apetece ir passar o fim-de-semana fora e não podemos levar o velho atrelado.

 

E mesmo nas situações dramáticas em que o internamento social é a única opção, a primeiríssima coisa que os familiares deviam fazer era ir tentar resolver a sua vidinha de forma a conseguir tirar o doente do hospital o mais rápido possível! Infelizmente não é isso que vejo. Não é infrequente ser no dia da alta que a família se lembra que não consegue ter o familiar em casa, apesar de já previamente informada, por várias vezes, que o dia da alta se está a avizinhar. Isto frustra-me de uma forma que eu não consigo exprimir por palavras. 

 

É que explicar a um familiar o porquê de o doente estar melhor em casa parece-me uma discussão fútil e uma perda de tempo. Mesmo que a família não tenha noção das complicações inerentes ao internamento, vulgo infecções nosocomiais, perda de autonomia, delirium, iatrogenias, etc., parece-me intuitivo que, sempre que possível, o doente fica melhor em casa do que no hospital! Isto na minha cabeça é óbvio. E sempre foi, mesmo antes sequer de ter entrado para Medicina.

 

Sim, é verdade que os recursos sociais extra-hospitalares deste país estão longe de ser perfeitos. E o elevado número de casos de abandono hospitalar deste país não têm a ver apenas com egoísmo ou má-fé dos familiares. Em defesa da verdade e por uma questão de justiça, é importante dizer que há muita coisa a melhorar, particularmente no que diz respeito à existência de lares com mensalidades que não sejam absolutamente incomportáveis de pagar ou vagas em cuidados continuados ou paliativos. Ainda assim, o mais importante a mudar é a mentalidade do povo. Enquanto isso não mudar, todos os investimentos irão cair em saco roto.

 

3 - Desempenhar funções que não me competem

 

Vá, vá, não se enervem, eu tenho perfeita noção que não existe trabalho nenhum em que pontualmente não tenhamos de fazer alguma tarefa para a qual não nos pagam ou que deveria ser feita por outra pessoa qualquer. Nâo há trabalhos perfeitos e isso também se aplica à Medicina. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a levantar-se de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para ir à procura do doente na sala de espera porque já o chamámos três vezes pelo intercomunicador e ele não apareceu. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a telefonar às famílias de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para informar que o doente tem alta. É assim em todo o lado e não é exclusivo da profissão médica, já sei.

 

Dito isto, a quantidade de tempo do nosso dia de trabalho que perdemos a resolver questões informáticas ou burocráticas que não nos dizem respeito é abismal. É absolutamente abismal. Ou é a impressora que não funciona e é preciso mudar o toner que ninguém sabe onde está. Ou é preciso telefonar trinta vezes para o secretariado da Imagiologia a pedir por amor de Deus para não nos marcarem a TAC que estamos a pedir para daqui a três semanas. Ou é preciso preencher um formulário qualquer que alguém se lembrou de criar para prescrever um determinado fármaco mas ninguém sabe muito bem onde está. Ou é preciso enviar dez e-mails para a Informática para nos virem arranjar o PC que não funciona há três dias. Ou é preciso esperar quase cinco minutos para que a PEM nos permita passar receitas na urgência...

 

Enfim, o Serviço Nacional de Saúde é um pesadelo burocrático. Não há outra forma de o dizer. De tal forma que me arrisco a dizer que o problema em Portugal não é a falta de médicos, mas sim a forma como somos criminalmente mal aproveitados. E basta ver que qualquer país da União Europeia mais evoluído que Portugal tem um rácio médico/habitante inferior ao nosso. Amigos, habituem-se à ideia: não é preciso abrir mais vagas nas faculdades de Medicina para resolver os problemas do SNS.

 

2 - Ver o meu recibo de vencimento

 

Esta também não é exclusiva da Medicina, bem sei. Provavelmente toda a gente que se encontra a ler este texto neste preciso momento partilha desta opinião. A não ser que o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou o Joe Berardo se encontrem a ler isto. Nesse caso, a próxima mensagem é para vocês: paguem o que devem, seus caloteiros! Não vou perder mais tempo neste tópico. Oito euros à hora.

 

1 - Transmitir más notícias às famílias

 

Num tom mais sério, termino com aquilo que, de longe, me custa mais em ser médico. E que, curiosamente, é a única coisa que sei que nunca vai mudar e que será sempre da minha responsabilidade, por muito que as coisas melhorem. Eu detesto, odeio mesmo, ter de comunicar más notícias às famílias. É horrível. E não me interpretem mal, eu tenho perfeita noção que, isto sim, tenho de ser eu a fazer. A responsabilidade de comunicar más notícias, trate-se de falecimentos ou agravamento da situação clínica, é e sempre deverá ser do médico. Mais ninguém. Mas custa. Se custa.

 

Até me considero uma pessoa relativamente impermeável, apesar de empática, à quantidade de coisas macabras que vejo no dia-a-dia, mas se houve situações que me ficaram marcadas na memória e que me hão-de perseguir para o resto da vida, certamente serão aqueles momentos em que tenho de comunicar a uma senhora que o seu marido acabou de falecer. Não é fácil explicar a alguém que a vida continua, mesmo depois de ter perdido a sua companhia dos últimos 50 anos. E cada reacção é diferente. Algumas pessoas choram, outras ficam incrédulas, outras revoltadas. A nossa função é saber lidar com todos os sentimentos que aquela notícia provocou na família. É mostrar-lhes que fizemos o nosso melhor para evitar aquele desfecho. Ou então, e talvez até mais importante que isso, é explicar-lhes que tentámos tudo para que a transição do seu ente querido para o outro lado fosse o mais pacífica possível. É transmitir-lhes alguma calma e serenidade num dos piores momentos da sua vida.

 

Esta, amigos e amigas, esta sim, é a tarefa que mais me custa fazer enquanto médico. Curiosamente, ou não, é a única que não dispensaria fazer mesmo que pudesse. Ossos do ofício.

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