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Aumentar as vagas nas faculdades de Medicina é mau para toda a gente

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Muito se fala na comunicação social e opinião pública sobre os numerus clausus das faculdades de Medicina.

 

Uns acham que devem aumentar porque há falta de médicos, outros vão mais longe e acham que há uma espécie de lobby da Ordem dos Médicos que actua de forma deliberada para limitar as entradas nas faculdades de Medicina, de forma a garantir que meia dúzia de sôtores continuem a enriquecer à custa das doenças do Zé Povinho. Tipo uma espécie de Illuminati da Medicina. 

 

Bom, em primeiro lugar vamos aos factos. É ou não verdade que o número de vagas para ingresso no curso de Medicina em Portugal tem aumentado nos últimos anos? É. Segundo um artigo do Expresso de 2017, baseado em dados oficiais da Ordem dos Médicos, o número de vagas para entrada nas faculdades de Medicina aumentou 396% em vinte anos. Ou seja, se em 1995 entraram, por exemplo, 100 alunos para o curso de Medicina, em 2014 entraram 396. Isto em números redondos, claro. Agora que esclarecemos este facto, vamos por partes perceber porque a medida de aumentar os numerus clausus em Medicina é péssima para toda a gente.

 

É mau para os alunos

 

Começamos pelo mais óbvio. É notório que desde que estas medidas populistas entraram em vigor, a qualidade de formação no curso de Medicina tem diminuído a olhos vistos. Temos faculdades a rebentar pelas costuras, com alunos sentados no chão durante as aulas teóricas porque não há cadeiras para todos, falta de espaços de estudo com o mínimo de condições, etc. E nos anos clínicos a coisa não melhora muito. Se antes cada tutor era acompanhado por um a dois alunos, permitindo um ensino muito mais próximo e eficaz, agora são aos quatro, cinco ou seis de cada vez. É ver os alunos a empoleirarem-se no Bloco Operatório para tentar ver alguma coisa da cirurgia que está a decorrer, ou a colherem histórias clínicas aos dez de cada vez, com o pobre do doente no meio a tentar responder às questões de toda a gente.

 

Mas se quisermos virar um pouco o bico ao prego, imagine-se agora a ser examinado por um médico. Quem frequenta Hospitais públicos sabe que, pontualmente, lá terá que lidar com alunos. É assim que as coisas funcionam. Mas uma coisa é ser consultado por um médico e dois alunos, outra coisa é ser consultado por um médico e cinco alunos num gabinete. É péssimo. Não há a intimidade nem a privacidade que é necessária para o bom funcionamento de uma consulta. Ou de qualquer outra interacção médico-doente, por sinal.

 

E se não concorda, imagine que o médico lhe tinha de fazer um toque rectal.

 

Preferia ter um médico e um aluno a fazerem-lhe um toque rectal ou um médico e cinco alunos a fazerem-no? Claro que qualquer médico com bom senso não permite que todos os alunos façam uma manobra tão invasiva e desconfortável a um paciente. Mas isso significa que houve pelo menos dois ou três alunos que perderam uma oportunidade de treinar uma manobra. E isto compromete a formação, meus caros. Na Medicina há muita coisa que não se aprende a ler livros. É preciso treinar, pôr as mãos na massa. E se não permitimos aos alunos que o treinem, também não lhes podemos exigir que estejam preparados para fazer quando já forem médicos.

 

É mau para os médicos

 

Muito sinceramente, não consigo imaginar uma medida tão deletéria para os médicos como esta abertura desmesurada de vagas nas faculdades. Imagine que acabou o curso de Medicina. Seis anos ali a queimar pestanas. Faz a prova nacional de seriação. Quando sai a grelha final de classificação descobre que não tem vaga para o internato de formação específica, ou seja, que não consegue completar a sua formação. Você e mais duzentos ou trezentos. Fica então condenado a uma espécie de vazio académico. Uma situação em que, por um lado é médico porque acabou o curso, por outro lado não é porque não o pode exercer em lado nenhum. E você agora diz:

 

"Mas as outras profissões têm desemprego, porque é que os médicos não podem ter também?"

 

Em primeiro lugar, o que acabou de dizer é estúpido, porque se há desemprego nas outras profissões isso não significa que tenha de haver na nossa. Se há problemas a resolver na arquitectura ou na filosofia, que se resolvam os problemas lá. Não faz sentido ingressar nessa política do "se eu estou mal tu também tens que ficar". Isso é só mesquinho. Em segundo lugar, aquilo que se passa na Medicina é pior do que na arquitectura, na filosofia ou noutro curso qualquer. Porque qualquer pessoa que termina um desses cursos está apta a exercer a profissão. Claro que precisa de experiência e tudo mais, mas com um médico é mais do que isso. Depois de acabar o curso, o médico tem (ou deveria ter) de fazer o internato. Só a partir desse ponto é que se pode determinar que está apto a exercer em pleno as suas funções. Portanto não faz sentido nenhum deixar o aluno entrar na faculdade, para ao fim de seis anos lhe dizer que não vai sequer poder exercer. É como dizer "tenho aqui uma prenda para ti", depois uma pessoa abre o embrulho e é uma caixa de After Eight. Não se faz.

 

Mas o prejuízo para os médicos não fica por aqui. É que se antigamente eu como médico podia dizer que me recusava a trabalhar por menos do que X, agora não posso. Porque a minha entidade empregadora vai-me dizer:

 

"Ai não queres fazer urgência a cinco euros à hora? Tudo bem, estão ali vinte marmanjos iguais a ti que não se importam de trabalhar por esse valor!"

 

Mas o problema é que esses marmanjos não são iguais a mim, são piores que eu. E isto não é arrogância, até porque não estou a falar especificamente de mim. Na Medicina, e certamente em muitas outras áreas do saber,  não se fazem omeletes sem ovos. E para se fazer bem a arte da Medicina tem que haver dinheiro. Ponto final parágrafo. Tem que haver boas infra-estruturas, material de qualidade e sim, tem que se pagar em condições aos profissionais.

 

Eu não posso despedir o Zé porque ele se recusou a trabalhar por cinco euros à hora e contratar o David que não se importa de trabalhar por esse valor, esperando que façam os dois o mesmo trabalho com a mesma qualidade.

 

Ao início pode parecer que isto da qualidade é uma treta, até porque o que interessa para a maior parte das equipas que gerem os hospitais são os números. Se calhar o David até é capaz de ver na urgência os mesmos doentes que o Zé, a questão é se os vai ver tão bem. Eu creio que não, mas o tempo o dirá.

 

Esta mercantilização da Medicina é uma forma de o Estado poupar dinheiro no que interessa para o esturrar no que não interessa, ao mesmo tempo que engana o povo dizendo que está do lado deles na luta contra esse bicho-papão que é o médico.

 

É mau para os doentes (e para os portugueses em geral)

 

Terminamos com o tópico mais abrangente de todos. É que para além de ser mau para alunos e médicos, é especialmente mau para os doentes e para o português comum que trabalha e paga impostos. Pensem comigo: se o ensino é mau e se o Estado faz questão de seleccionar os que trabalham por menos (ou seja, os piores), como é que o português pode ficar surpreendido por receber maus cuidados de saúde? Como se diz em inglês: if it looks like a duck, swims like a duck, and quacks like a duck, then it probably is a duck.

 

Mas o problema não fica por aqui. É que esta selecção negativa imposta pelo Estado faz com que aqueles de nós que são verdadeiramente bons e que não se prostituem pelo valor simbólico que nos querem pagar, tenham que ir trabalhar para algum lado. E é aí que os privados ganham. Conseguiram orquestrar juntamente com o Estado uma forma simples de conseguir os melhores médicos sem investirem um tostão na sua formação. Quem paga? O contribuinte português, claro está.

 

(E sim, aqui estou a utilizar o exemplo ridículo que eu próprio já refutei de que é o contribuinte português que nos paga o curso, mas enfim, se servir para fazer as pessoas pensar já fico satisfeito.)

 

Mais ainda, quem também se ri para além dos privados, são os restantes países da União Europeia para onde os médicos e restantes profissionais de qualidade emigram. Se têm aqui em Portugal uma fonte ininterrupta de profissionais de alta qualidade cuja formação lhes custou zero, porque raio é que hão-de gastar dinheiro a formar os seus?

 

O curso de Medicina sai caro ao Estado, isso é óbvio. E por isso mesmo será que faz algum sentido investir na formação de centenas de pessoas que em seis anos vão ser obrigadas a emigrar porque não conseguem completar a formação no seu próprio país? No meu entender é atirar dinheiro à rua, mas talvez haja alguma coisa que me possa estar a escapar. Mas vocês agora refutam:

 

"Há falta de médicos! Senão porque é que continuamos a contratar cubanos para ir trabalhar para o Alentejo?"

 

Não, meus amigos, não há falta de médicos. Os dados da PORDATA demonstram-nos que somos o quarto país da União Europeia com maior ratio de médicos por habitante. Só para terem uma noção, em Portugal existem 480 médicos por 100 mil habitantes. No Reino Unido são 276. Em França são 334. Na Alemanha são 418.

 

O problema não é a falta de médicos! O problema é: 1) o facto de a maior parte dos médicos passarem a maior parte do seu dia de trabalho a resolver problemas burocráticos que não fazem parte da sua função; 2) os médicos estão mal distribuídos! Temos um interior cada vez mais desertificado e uma elevadíssima concentração populacional nos grandes centros urbanos. Compete ao Estado e às autarquias criar condições que atraiam os profissionais, médicos e outros, para as cidades do interior. A solução não é encher as faculdades e rezar para que algum pacóvio decida ir trabalhar para o interior. Porque daquilo que tenho visto, os meus colegas a quem a prova nacional de seriação corre mal escolhem mais rapidamente ir completar a sua formação para a Suíça ou para a Alemanha do que para Beja. 

 

É imperativo que as pessoas entendam que nós, médicos, estamos do vosso lado. Queremos prestar-vos o melhor serviço que as nossas capacidades permitam. Não queremos enriquecer à vossa custa. Queremos, isso sim, ter uma formação de qualidade, condições para que possamos exercer a nossa profissão com qualidade e ser respeitados se o fizermos.

 

Assim, vou dizer e repetir até que a voz me doa:



É emergente reduzir os numerus clausus das faculdades de Medicina!