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Pérolas da Urgência

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Carta aberta a quem acha que me pagou o curso

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Olá. Soube que és daquelas pessoas que vai para a caixa de comentários do Público criticar os médicos que emigram ou que trabalham no privado porque, segundo as tuas palavras, pagaste o meu curso com os teus impostos.

 

Em primeiro lugar, deixa-me dizer que tenho pena de ti. Tenho pena que te sintas tão amargurado e frustrado com a tua vida que tenhas necessidade de destilar o ódio que sentes pela minha classe profissional nas redes sociais. É que as pessoas que entram pelo Serviço de Urgência e me dizem na cara que pagaram o meu curso sempre têm alguma coragem. Continuam a ser demagógicos à brava mas ao menos têm alguma fibra, porque não é fácil dizer uma barbaridade destas à frente de outra pessoa. Agora tu nem isso consegues ter e isso é só triste.

 

Em segundo lugar, não quero que penses que te odeio. Eu sei que isto pode parecer estranho vindo de uma pessoa que te acabou de chamar demagógico e cobarde, mas acredita que é verdade. E tens de me dar algum desconto também, porque este é daqueles assuntos que me perturba particularmente. É como mexer numa ferida que dói, percebes? Para te provar que não guardo ressentimentos quero que tentemos pôr as nossas diferenças para trás e que nos unamos num exercício de matemática simples em que te vou explicar que não tens razão. Pode ser? Pode? Óptimo, então vamos a isso.

 

Primeiro, vamos tentar perceber quanto custa o curso de Medicina. Sabemos que é caro, talvez o mais caro de todos, mas a verdade é que estamos em Portugal, ou seja, toda a gente fala, toda a gente formula opiniões mas ninguém sabe ao certo quanto custa. Há uns anos atrás, uns estudiosos da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa chegaram a um valor aproximado de 90000 euros por aluno. Parece ser isso que o curso de Medicina custa, mais coisa, menos coisa. Portanto vamos pegar nesse valor. 90000 euros é o que tu achas que eu te estou a dever. A ti e aos restantes contribuintes portugueses, claro está.

 

Então o primeiro exercício que vamos fazer é descontar o valor das propinas, até porque esse fui eu que o paguei. Eu não, a minha mãezinha e o meu paizinho por quem eu tenho tanta estima. O valor médio de propinas ronda os 1000 euros por ano, ou seja, 6000 euros no final dos seis anos de curso. Abatendo esse valor aos 90000, sobram 84000 euros que te estou a dever.

 

Mas espera que ainda só estamos a começar. Agora imagina que eu acabei de fazer o curso e sou interno de formação específica. Isto partindo do pressuposto que o internato de ano comum vai acabar, o que por si só é também uma valente idiotice, mas deixemos isso para outra altura. O contrato que eu celebrei com o Estado contempla 40 horas de trabalho semanal, sendo que na maior parte dos casos essas 40 horas envolvem 12 horas de urgência. Todas as horas de urgência que eu fizer para além dessas 12 horas serão pagas como horas extra. Mas atenção, nos restantes dias se o meu horário de trabalho terminar às cinco da tarde e eu, por motivos vários relacionados com excesso de trabalho e mau funcionamento dos serviços, só sair às sete da tarde, azarucho. Problema meu. Ninguém me paga um tostão. E tu sabes como é, se há trabalho para fazer a malta faz. Apesar de sermos algo semelhante a funcionários públicos não podemos simplesmente fechar a loja dez minutinhos antes do horário de saída e pormo-nos a andar à hora certa. E pior ainda, o facto de sair mais tarde num dia não me dá o direito de entrar mais tarde ou sair mais cedo noutro dia, porque essa história das bolsas de horas no papel é muito bonita, mas é só lá mesmo que funciona.

 

Ou seja, eu acabei o curso a achar que ia trabalhar 40 horas por semana mas tenho de me lembrar de outra coisa: sou interno. Ou seja, tenho que trabalhar mas também tenho que me formar. E tenho que dar o litro, ser carne para canhão e esses clichês todos. Ou seja, posso-te garantir que como interno, em média, trabalho no Hospital 50 a 60 horas por semana. E não estou a contar com as horas extra que tenho de fazer, a essas já lá vamos! Nem estou a contar com o trabalho de casa que invariavelmente se acumula. Sim, porque estudar e fazer currículo é em casa, apesar de a minha profissão exigir que eu estude e que invista no meu currículo para me tornar especialista.

 

Então vamos voltar às contas. Vamos apontar para um valor extremamente conservador de 10 horas por semana que eu dou à casa. Não são horas extra, são simplesmente horas em que eu chego mais cedo ou saio mais tarde do que devia e ninguém me paga. Se considerarmos que o valor que eu recebo por hora é de cerca de 8 euros (e para calcular este valor limitei-me a dividir os 1300 euros da praxe por 160 horas de trabalho mensal), então facilmente concluímos que eu dou 80 euros ao meu Hospital todas as semanas. Ou seja 320 euros por mês. Ou 3520 euros por ano, já a contar com o miserável mês de férias em que me arrasto para a Costa da Caparica porque não dá para ir mais longe. Ao fim de cinco anos de internato, eu dou ao meu Hospital e, consequentemente, ao meu país 17600 euros de trabalho gratuito. Se abatermos esse valor aos 84000 euros que eu te devia, concluímos que afinal só te devo 66400 euros.

 

Mas calma que isto não acaba aqui! Falta falar um pouco das horinhas extra. É que toda a gente sabe que os Serviços de Urgência estão sempre muito desfalcados e vão precisar de mim mais do que as 12 horas semanais celebradas no meu contrato. Ou seja, vou ter de fazer horas extra. E é verdade que ao menos estas são pagas. Mas também é verdade que, se antes fazer horas extra era a galinha dos ovos de ouro para muita gente, desde o tempo do nosso amigo Passos a coisa já não é bem assim. Primeiro, puseram-nos a ganhar 25% do valor original, depois já no tempo da geringonça passou a 50% e agora sinceramente não sei bem que percentagem é que me estão a pagar. Mas sei que descontinhos aqui, descontões ali, recebo 10 euros por hora extra de urgência, quando há uns anos atrás o valor médio de hora extra que um médico auferia rondava os 20 euros. Atenção que continuamos a fazer contas de merceeiro, nada mais.

 

Em média, um interno como eu fará cerca de 24 horas extra por mês. Uns fazem menos, outros mais, por isso este valor parece-me consensual. Se admitirmos que me pagam menos 10 euros por hora extra em relação ao que verdadeiramente me deviam pagar, só em horas mal pagas, eu dou ao meu país 240 euros por mês. Ou seja, 13200 euros no final dos cinco anos de internato. Vamos continuar a abater ao valor que tenho em dívida para contigo. 66400 menos 13200 dá 53200 euros. É este o valor que te devo.

 

Mas espera lá. Eu também pago impostos! E não pago pouco! Claro que não pago o suficiente para poder abrir uma conta nas ilhas Caimão como outros, mas ainda assim é um valor considerável! Então vamos admitir que pago 1000 euros por mês de impostos. Parece-te muito? Olha que não! Não te esqueças daquelas horas extra todas que fiz e que só servem para me fazer subir de escalão e pagar mais! Vai por mim, 1000 euros é um valor razoável.

 

Então se eu pago 1000 euros por mês, ao fim de cinco anos de internato eu paguei 60000 euros de impostos ao meu querido país que tanto contribuiu para a minha formação. Ouviste bem, 60000 eurinhos que entram nos cofres do Estado só à custa do meu trabalho. Ou melhor, eles nunca chegam a sair dos cofres do Estado, mas tu entendeste a ideia.

 

Mas espera lá, se eu te estava a dever 53200 euros mas paguei 60000 euros de impostos, a pergunta que te faço é a seguinte:

 

Quando é que te calas e pagas os 6800 euros que me deves?

 

Atenciosamente,

Um mero interno do SNS.

 

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