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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

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Carta de um pai para um filho

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Olá filho,

 

Sei que provavelmente te encontras neste momento com a tua família, na tua casa, a preparar o Natal. Mas deixa-me tirar-te um pouco do teu tempo para te perguntar se te lembras de mim. Eu lembro-me de ti muitas vezes. E lembro-me de muitas outras coisas.

 

Lembro-me de seres pequeno e de o Natal para ti ser sinónimo de receber presentes. A tua cara de felicidade quando recebeste a bicicleta que tanto tinhas pedido é uma memória que ainda hoje me aquece o coração.

 

Lembro-me também de como tinhas medo de cair quando andaste com ela pela primeira vez. Sabes quem é estava lá para te segurar e evitar que caísses?

 

Lembro-me que não fui um pai perfeito. Longe disso. Cometi erros, como todos os pais cometem. Não estive tão presente como devia ter estado, não por não gostar de ti, mas porque no meio de dois trabalhos é difícil dar a atenção devida à família. Podia não ter trabalhado tanto, verdade. Mas se assim fosse não te tinha conseguido dar a oportunidade de teres uma vida melhor que a minha e não seria capaz de me perdoar por isso.

 

Lembro-me quando saíste de casa pela primeira vez. Ela era a tal, dizias tu. Acreditavas nisso e nós também. Despedimo-nos de lágrimas nos olhos, não de tristeza, mas de alegria. Afinal de contas, não há maior conforto para um pai do que ver o filho feliz.

 

Lembro-me de pouco tempo depois teres voltado a casa. Novamente de lágrimas nos olhos e desta vez eram de tristeza. Não funcionou. Pediste para não fazermos perguntas e nós respeitámos o teu pedido. Recebemos-te de braços abertos e nesse ano passámos o Natal todos juntos. Creio que foi aí que percebeste que o Natal significa família e não presentes.

 

Lembro-me de mais tarde teres voltado a sair. Desta vez parecias decidido. Eras mais velho e mais maduro. Saíste e não voltaste. Tudo se tornou prioritário. O emprego, as reuniões, a mulher, os filhos, as viagens. E nós percebemos isso. Estavas a traçar o teu caminho e nós estávamos felizes por ti.

 

Lembro-me de apareceres cada vez menos. E nós a pouco e pouco fomo-nos tornando a última das tuas prioridades. Quando vinhas era sempre com pressa, sempre a correr. Interessavas-te mais por partilhas e heranças do que em nos perguntar como estávamos.

 

Lembro-me de teres ficado um pouco mais tempo quando a tua mãe me deixou. A tua presença foi importante para, em parte, colmatar o vazio que a ausência dela provocou. Mas rapidamente te foste embora outra vez e depois disso poucas vezes mais te vi.

 

Lembro-me de eu próprio ter ficado doente e de te pedir ajuda. Apareceste, contrariado. Percebeste que já não conseguia viver sozinho. Não me quiseste em tua casa e eu percebi. Afinal, quem é que quer viver com um velho frágil e inútil que para mais não serve do que contar histórias sem interesse nenhum?

 

Lembro-me de ter chegado ao Lar. Não era exactamente o sítio onde me imaginava a passar os meus últimos dias, mas percebi que a reforma não dava para mais. Afinal de contas, as minhas poupanças quase desapareceram quando te ajudei cada vez que precisaste. E percebi também que não estavas disposto a investir minimamente em mim. Afinal, um velho é um investimento sem retorno.

 

Lembro-me de um dia me vires buscar ao Lar. Disseste que me ias levar para tua casa. Não percebi logo porquê. Afinal, a idade já pesa e o raciocínio já não é tão rápido como foi em tempos. Achei genuinamente que querias que passasse o meu último Natal contigo e com a tua família. Enganei-me. Pelos vistos era da minha reforma que precisavas.

 

Lembro-me de pouco depois de me teres em tua casa, me teres levado ao Hospital. Pediste-me para me fingir de doente. Que me ias buscar assim que pudesses, que era rápido e que eu nem ia dar pelo tempo a passar. Desta vez já não acreditei, mas também não tentei sequer argumentar. Quem é que quer saber das angústias de um velho?

 

Lembro-me da noite de Natal desse ano. Chorei. Nunca imaginei que me deixasses passar o meu último Natal num sítio daqueles. A minha prenda de Natal foi uma fatia de bolo-rei que uma enfermeira me trouxe à socapa dos médicos, enquanto me desejava feliz Natal.

 

Lembro-me de um dia sentir que o fim estava a chegar. Não tive medo. Reconfortava-me saber que ia ver a tua mãe outra vez. Gostava de te ter visto uma última vez, mas percebi pelo que ouvi nos corredores do Hospital que estavas fora e era um incómodo vires ver-me uma última vez.

 

E agora já me fui. Deixei finalmente de ser um fardo e tornei-me apenas uma leve e distante memória para ti, que com o tempo se irá desvanecer invariavelmente. Mas se me permites, antes de me ir embora queria dar-te um último aviso:

 

Filho és, pai serás. Assim como fizeres, assim acharás.

 

Tem um feliz Natal.

 

O teu pai.

 

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