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Pérolas da Urgência

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Celeste, uma boa mulher

Celeste era uma boa mulher. Católica devota, mãe de cinco filhos, dedicou toda a sua vida aos outros. Desde cedo soube como a vida custava quando foi obrigada a ficar em casa a tomar conta dos irmãos, em vez de ir à escola como sempre sonhou. Quando os irmãos ficaram crescidos, rapidamente foi trabalhar para a terra com os pais, gente humilde e sem grandes posses. Mais tarde, já casada, acabou por aprender a ler e concluiu a quarta classe, completando assim um dos seus sonhos de infância.

 

Celeste casou cedo. O seu marido era Jerónimo, homem de poucas palavras e afectos, trabalhador do campo e no fundo, bem lá no fundo, um bom homem. Certo, uma ou outra vez foi mais violento com ela, sobretudo depois de algumas noites de copos. Mas Celeste, como católica praticante que era, sempre deu a outra face. Mesmo quando Jerónimo achava que uma bofetada não era suficiente. Mas vá, no outro dia de manhã pedia sempre desculpa pelo que tinha feito, jurava que não voltava a repetir e, a pouco e pouco, Celeste acabava por perdoá-lo. Afinal, se Jesus perdoou quem o crucificou, porque não havia ela de perdoar o homem a quem prometeu não abandonar? Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, certo?

 

Mas com o tempo, Jerónimo acabou por amolecer. Sobretudo após o nascimento dos netos, foram raras as vezes que lhe voltou a bater. E nunca com a força com que o havia feito no passado. Certo, Celeste passou um mau bocado quando o Senhor resolveu chamá-lo para junto Dele. Afinal, uma mulher passa a vida a dedicar a sua vida a outro ser, a transformá-lo de um ser abrutalhado num companheiro fiel com quem ainda esperava viver muitas aventuras... E o homem fina-se assim? Bom, pelo menos servia-lhe de consolo saber que Jerónimo estava com o Criador. Ou melhor, assim pensava ela. Sabemos nós que homem que bate em mulheres tem um cantinho bem especial e quentinho reservado para ele lá em baixo.

 

Mas não façamos essa desfeita à Celeste. Deixemo-la viver na ilusão de que um dia irá reencontrar o seu mais-que-tudo, pai dos seus filhos. Filhos esses que, valha-nos o Senhor, não herdaram nenhuma das características menos atractivas do pai. Carinhosos e atenciosos, sempre trataram Celeste como a princesa lá de casa, pensamento que fizeram questão de incutir aos filhos, quando os tiveram. E portanto, com o apoio da família, Celeste foi a pouco e pouco ultrapassando o trauma da viuvez.

 

Claro, se devota era quando casada, mais se tornou depois de viúva. Não havia volta a dar, os Domingos eram o dia de ir visitar o Senhor. Desde cedo tentou incutir os seus rebentos a seguirem as suas pisadas e a prostrarem-se semanalmente defronte de umas estátuas enquanto ouviam o senhor padre recitar os feitiços mágicos que pareciam hipnotizar toda a aldeia, mas infelizmente nenhum deles se tornou católico tão praticante como ela. Sinais dos tempos, dizia para si enquanto tentava convencer-se que o importante era que praticassem o bem, mesmo que se recusassem a conversar com o Criador com a mesma frequência que ela fazia.

 

Verdade seja dita, Celeste criou cinco filhos exemplares. Conseguiu ser mãe, avó, esposa, trabalhadora, conselheira, amiga... Tudo numa só pessoa. Nunca foi de chamar muito a atenção, mas quem a conhecia reconhecia-lhe o valor e o espírito guerreiro, ainda que bondoso. E, na verdade, não era preciso muito para reparar nos calos dos dedos resultantes de anos e anos a segurar enxadas e ancinhos, ou os nós dos dedos deformados de mais uns quantos anos a fazer uns biscates a costurar vestidos para gente de bem, de forma a poder complementar assim o orçamento familiar e garantir que nenhum dos filhos era privado de cumprir o sonho de estudar, se assim o quisesse.

 

E talvez todo esse esforço tenha compensado quando os anos começaram a somar-se sob os ossos cansados desta nossa avozinha querida. À medida que as costas iam encurvando, as rugas da face se tornavam mais expressivas e pronunciadas e os cabelos iam prateando, também o amor e o carinho que recebia dos filhos e netos ia aumentando. E dos bisnetos também, não fossem eles demasiado novos para sequer compreender o conceito de "mãe da avó".

 

E eis que, finalmente, depois de uma vida dedicada aos outros, o seu dia chegou. Na verdade, Celeste não se recorda bem do que se passou nesse dia. Lembra-se de acordar num sítio estranho, diferente, com uma grande quantidade de pessoas vestidas de branco à sua volta, pessoas essas que não conhecia, mas que lhe transmitiam um conforto estranho quando olhavam para ela de forma enternecida e lhe seguravam a mão. Celeste lembra-se de terem falado com ela e também de ter respondido, mas se lhe perguntarem agora do que falaram, certamente não será capaz de se lembrar. Conversas vãs, talvez.

 

A verdade é que, à medida que o tempo passava, o olhar ternurento dessas meninas e alguns meninos vestidos de branco que a rodeavam começou a transformar-se num esgar de preocupação. As bocas e olhos que antes sorriam para ela rapidamente se converteram em gritos, expressões de pânico. Aquela dança que quase os fazia flutuar em torno dela convertia-se rapidamente numa série de movimentos bruscos, toscos, em que muitos deles se atropelavam uns aos outros. A pouco e pouco mais e mais gente foi chegando. Primeiro novos, depois cada vez mais velhos, olhavam para ela com ar preocupado, coçavam a cabeça e afagavam a barba, como se algo lhes estivesse a escapar.

 

A verdade é que, de facto, Celeste não se sentia bem. Algo nela crescia, uma sensação de desconforto que insistia em não passar, mal definida, ora no peito, ora nas costas. A cabeça ficava mais e mais leve e Celeste sentia cada vez mais dificuldade em concentrar-se nas caras que a rodeavam e nos olhares transtornados que lhe lançavam. Os seus contornos esbatiam-se rapidamente e aquilo que antes eram pessoas rapidamente se transformou em vultos. Subitamente, tudo escureceu. Lá ao fundo, bem lá ao fundo, a romper o silêncio, Celeste ouviu a voz de uma mulher dizer, de forma seca:

 

"Sôtor, acho que ela vai parar".

 

Quando voltou a clarear, todos os vultos e sombras haviam desaparecido. O desconforto e mal estar que se vinha a acumular nos últimos minutos transformava-se agora numa sensação de leveza que nunca antes havia sentido, uma felicidade imensa, indescritível por palavras, que a fazia ascender em direcção às estrelas. A pouco e pouco, outros vultos iam surgindo. Vultos esses que rapidamente se convertiam em faces, incrivelmente bem esculpidas, de traços angelicais, que a fulminavam com ternura no olhar e a enchiam de alegria. Era quase como se tivesse nascido novamente. À medida que ascendia, cada vez mais Celeste tinha a certeza que tinha morrido e estava a ir para o Céu. E as faces que a olhavam só podiam ser anjos.

 

Celeste estava feliz. Finalmente, depois de uma vida dedicada aos outros, o momento dela havia chegado. Ela era a protagonista. Que especial se sentia por ser a convidada de honra daquele sítio tão especial que era o Paraíso. Será que ia reencontrar a sua mãe? A sua irmã Jacinta, de quem tanto gostava? O amor da sua vida, Jerónimo? Tantas questões, tanta antecipação! Mal se conseguia controlar. Um coro composto pelas mais belas vozes que alguma vez tinha ouvido entoava cânticos de celebração, como que a anunciar a chegada de mais uma alma à terra prometida. As lágrimas que caíam da face de Celeste eram de alegria, pura alegria, que transbordavam sob a forma se água com cloreto de sódio que os seus sacos lacrimais não mais conseguiam conter.

 

O momento havia chegado. Celeste continuava a ascender e outro vulto, este maior, de corpo inteiro, se ia assomando no seu campo visual. Uma figura masculina, de barbas brancas e longas, vestida de branco, que a fitava com um sorriso discreto, quase como se lhe estivesse a dar as boas-vindas à sua nova casa. Na sua mão direita Celeste pôde ver uma grande chave dourada, que de certeza que servia para a abrir o gigante portão, também dourado, que ia surgindo lá ao fundo, entre as nuvens.

 

"Bem-vinda, minha filha", disse o homem, com um tom de voz grave e profundo, mas terno.

 

Antes que Celeste pudesse sequer responder, sentiu como que uma corda a apertar-se com força à volta do seu pescoço. A luz desvaneceu-se rapidamente e todas os seres que sorriam e cantavam para ela foram obliterados por um relâmpago que iluminou todo o céu e apagou todo aquele cenário idílico que se desenhava à frente dos seus olhos. Depois do relâmpago, Celeste sentiu uma forte pressão a ser aplicada bem no meio do seu peito. Uma não, na verdade várias, que comprimiam a sua caixa torácica com uma força indescritível, que lhe tirava o ar e que a empurrava a pouco e pouco novamente para baixo.

 

Desesperada, Celeste tentou lutar. Sempre foi uma lutadora em vida, ainda que nunca o tenha feito de forma violenta, mas agora sentia que era imperativo debater-se. Aquele era o seu momento, ninguém tinha o direito de lho tirar. Mas nada podia fazer contra a força sobrenatural que lhe perfurava o esterno de forma ritmada e a trazia de volta à realidade. O desconforto e mal estar que antes havia sentido voltava a desenhar-se nas entranhas do seu ser, desta vez mais forte, como se as mãos invisíveis que lhe comprimiam o peito os estivessem na verdade, a fazer entrar pelo seu peito a dentro.

 

De repente, as compressões cessaram. Após poucos segundos, um novo relâmpago iluminou os céus. Este mais forte ainda que o primeiro, quase a cegava tal era a violência do impacto. Novamente, as mesmas pessoas que inicialmente a acompanharam neste sonho bizarro, aqueles miúdos e miúdas rodeadas por alguns seres mais velhos, todos vestidos de branco, iam começando novamente a surgir. Desta vez, sorriam de forma maldosa, como se tivessem satisfeitos por interromper de forma tão brusca aquele seu momento tão bonito. Lá ao longe, Celeste reconheceu algumas caras. Eram dois dos seus filhos, com as respectivas mulheres ao lado, com os olhos esbugalhados repletos de lágrimas, mãos ao peito, em pose de antecipação, como se algo de muito grave tivesse acontecido mesmo à sua frente.

 

Depois do segundo relâmpago, aquela pressão que lhe esmagava o peito voltou, mais forte que nunca. As sombras que a rodeavam iam desaparecendo a pouco e pouco e, mais uma vez, os vultos em seu redor tornaram-se cada vez mais nítidos. Celeste voltou a ouvir vozes, falando entre si de forma assertiva, sem no entanto conseguir compreender o que diziam. À medida que o seu peito ia sendo ciclicamente comprimido, o olhar de apreensão na cara dos seus filhos ia dando lugar a um esgar esperançoso, um segurar de mão apertado, um abraço vigoroso entre irmãos, quase como se festejassem uma grande vitória. As vozes dos que a rodeavam ficavam cada vez mais claras, quase a pontos de achar que lhe gritavam todas aquelas ordens e indicações ao ouvido. A certa altura, as compressões cessaram novamente. Desta vez todas as pessoas que corriam à sua volta pararam, olhando para ela com antecipação. Um dos homens mais velhos que assistia ao episódio chegou-se à frente, junto a Celeste e disse:

 

"Tem pulso. Liguem para os Cuidados Intensivos".

 

Profissionais de saúde. A atrasar encontros com São Pedro desde 1767.

 

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