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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Como tornar a urgência um melhor sítio para trabalhar

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Todos sabemos que fazer urgência custa. Mesmo aqueles que gostam da adrenalina, como eu, reconhecem que há muitas arestas a limar por esses Serviços de Urgência fora, de forma a cativar mais mentes jovens e brilhantes da Medicina.

 

Porque neste momento, e com muita pena minha, a sensação que dá é que qualquer médico que puder sair da urgência irá fazê-lo mais rápido do que eu consigo dizer que 37ºC não é febre. Por isso mesmo, decidi compilar neste artigo cinco formas simples de implementar (OK, algumas não são assim tão simples) para que a Urgência volte a ser um sítio cativante para se trabalhar.

 

Duas notas prévias. A primeira é que não estou com isto a dizer que todas as pessoas que trabalham na urgência o fazem contrariadas. Eu próprio não me incluo nesse grupo. Adoro fazer urgência e vibro com a adrenalina que aquele ambiente. Se assim não fosse não perderia tanto tempo a falar dela. Felizmente continuamos a ter muitos médicos, enfermeiros, auxiliares e outros profissionais de saúde altamente qualificados para o trabalho de emergência e que fazem a diferença nas equipas que integram, tanto para os colegas como para os doentes. A segunda nota é que não vou falar de pagamentos, por estranho que possa parecer. É ponto assente que o trabalho de urgência, por muito estimulante que seja, desgasta tanto a nível físico como psicológico e, como tal, merecia ser muito melhor remunerado do que actualmente é. Provavelmente a génese de todo o problema que se tem criado à volta da urgência é esse: as pessoas que lá trabalham são mal pagas!

 

Mas a política dos nossos governantes dos últimos anos tem sido intransigente e envolve fazer omeletes cada vez com menos ovos. E  admitindo que provavelmente nada irá mudar no entretanto, trago aqui cinco ideias para implementar nos Serviços de Urgência desse Portugal fora, de forma a tornar a existência dos miseráveis que lá trabalham um bocadinho mais tolerável.

 

1 - Wi-fi e TV na sala de espera

 

OK, começo por esta medida porque acho que é a mais importante. É a medida que tem de acontecer, não há volta a dar. Toda a gente sabe que esperar para ser atendido é aborrecido. Seja nas Finanças, nos Correios, no Banco ou no Hospital. Mais aborrecido se torna quando passamos um bom par de horas sentados numa cadeira desconfortável ao lado de alguém que não pára de nos tossir para cima. E ainda mais aborrecido é se formos um daqueles energúmenos que acham que o sôtor ainda não o atendeu porque está a acabar o jogo de Solitário ou a dar em cima das enfermeiras.

 

Ora, ter Wi-Fi e TV na sala de espera iria solucionar todo este problema. Enquanto os mais novos se divertiam a tirar selfies com a pulseira que lhes calhou e a escolher o melhor filtro para postar a foto no Instagram (sem gastar dados móveis), as senhoras de mais idade entretiam-se a ver as manhãs do Goucha ou 'A Herdeira', consoante a hora do dia.

 

Já estou a imaginar o médico a chamar a dona Alzira duas ou três vezes, apenas para ela aparecer ao fim de uns bons dez minutos a dizer: "Oh sôtor, peço desculpa por não ter vindo logo quando chamou mas é que estávamos quase a descobrir quem é que matou o Laurentino no primeiro episódio da novela. Depois quando se estava quase a saber aqueles sacanas foram para intervalo. É sempre assim, deixam aqui as pessoas com o coração nas mãos e depois fazem-nos esta desfeita. E o sôtor, desculpe que lhe diga, mas também escolheu uma rica altura para me chamar!".

 

Claro que teria sempre de haver pelo menos duas televisões sintonizadas em canais diferentes. Estão a imaginar o senhor Artur a querer ver o Benfica e a dona Alzira a querer ver o Preço Certo. O balcão de trauma ia bombar a noite toda, de certeza.

Por fim, outra vantagem deste sistema é que poderia servir de triagem. Qualquer pessoa que fosse apanhada a ver o Love on Top seria logo encaminhada para o balcão da Psiquiatria, porque não pode estar boa da cabeça.


2 - Espelhos nos gabinetes de consulta

Esta medida é crucial. Qualquer especialista em psicologia humana e atendimento ao público sabe que um ser humano sente-se muito mais compelido a portar-se bem quando está a ver o seu próprio reflexo no espelho. Então se colocássemos um espelho gigante em cada gabinete de consulta qualquer marmanjo que entrasse pela urgência dentro a dizer que está há muito tempo à espera, que paga o nosso ordenado (you know, the usual stuff) provavelmente pensava duas vezes antes de fazer figura de urso. Isto é um facto cientificamente comprovado, não estou a brincar.

Claro que esta medida não resolve todos os problemas. A presença de um espelho no gabinete de atendimento, ou seja, de um objecto que se pode partir caso alguém ou algo seja projectado com força suficiente contra ele e ao fazê-lo produzir mais um sem número de objectos corto-perfurantes com os quais se pode, sei lá, seccionar uma carótida, constitui mais um perigo para os profissionais de saúde. Será mais uma arma dentro do manancial de objectos com os quais podemos ser agredidos no nosso local de trabalho, mas enfim... Acho que não há bela sem senão.

3 - "Aeromoça" hospitalar

 

Esta medida é um pouco mais fantabulástica, admito. Mas acredito que com jeitinho e algum investimento poderia ser implementada nos Serviços de Urgência, com resultados que no meu entender seriam bastante positivos.

 

Imaginem-se a chegar a uma urgência. Inscrevem-se, pagam a taxa moderadora... Enfim, provavelmente não a pagam porque a maioria das pessoas que lá vai não paga nada, mas enfim. Sentavam-se na sala de espera e tinham um ecrã gigante à vossa frente, onde surgia uma espécie de hospedeira de bordo virtual (ou hospedeiro, não há cá sexismos) que, com um sorriso na cara, vos dizia:

"Bem-vindo ao Hospital X, o Hospital da sua área de residência. Desde já agradecemos a sua preferência. Antes de ser atendido, vamos apenas clarificar alguns tópicos para tornar a sua experiência nesta Urgência mais agradável:

A) A urgência serve para resolver situações verdadeiramente graves. Alguns exemplos são doenças graves são enfarte agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral ou pneumonia. A urgência não serve para tratar a dor de costas que o anda a moer há seis meses. Muito menos serve fazer check-ups, renovar receituários ou pedir baixa. Se pretende obter esses serviços, terá que recorrer ao Centro de Saúde ou farmácia mais próxima. Insira aqui o seu código postal para saber qual a farmácia de serviço mais próxima da sua casa.

B) Se decidiu ficar, parabéns. É sinal que está mesmo doente. O médico vai perguntar-lhe qual a medicação que toma regularmente. Lembre-se que nenhum ser humano, médico ou não, consegue decorar todos os medicamentos que existem apenas pelo tamanho ou cor dos comprimidos. Por isso, tenha sempre à mão a lista de medicação actualizada.

C) Lembre-se que apesar de estar doente, as pessoas que o vão atender não têm culpa disso e não merecem ser mal tratadas. Seja cordial com os profissionais de saúde. Por exemplo, quando um médico ou enfermeiro não tem nenhum paciente no gabinete, isso não significa que não esteja a trabalhar. Há análises e exames para ver, folhas terapêuticas para fazer e doentes para internar. Evite interromper os profissionais só porque acha que estão a jogar Solitário.

D) E agora que já definimos as regras, resta-me desejar-lhe uma excelente estadia no nosso Hospital e as melhoras. Obrigado por ter escolhido o Hospital X e lembre-se: 37ºC não é febre!"

 

Mindblowing, não é? Só para esclarecer, é natural ficar com pele de galinha depois de lerem isto. Comigo aconteceu o mesmo quando escrevi.


4 - Aerossóis

Não, não estou a falar de salbutamol ou brometo de ipratrópio. Uma forma de limitar a confusão habitual do Serviço de Urgência seria criar uma solução combinada de diazepam, paracetamol e morfina e aerossolizá-la pelo sistema de ventilação. Para além de resolver à vontade dois terços dos motivos de vinda à urgência, seria óptimo para acalmar os ânimos mais exaltados de doentes, profissionais e acompanhantes.


Em alternativa, poderia ser providenciado um charro a cada acompanhante aquando da triagem de Manchester. Uma espécie de sistema de "Uma pulseira verde para a sua mãe, uma ganza para si". Conseguem imaginar o impacto desta medida?

 

"Oh sôtor, doía-me um bocado o rabo há três dias e foi por isso que eu cá vim, mas agora por acaso já não me dói. Eheh, deve ser um milagre ou assim. Eheheheh!". Ou então:

 

"È assim, a sua tia tem uma pneumonia. Eu sei que isto pode parecer grave e até é, apesar do meu sorriso. É um sorriso de preocupação. Mas relaxe que nós 'tamos aqui a tomar conta dela, 'tá? Vá para casa, tome um banho de imersão, aproveite a vida porque a vida é curta! Hoje está aqui, amanhã pode estar como a sua tia, já viu? Eheheheh!"


5 - Sistema de pontos

Por fim, poderia criar-se um sistema de pontos para as pessoas que recorrem à urgência. Por exemplo, no final de cada ano, todas as pessoas que não tivessem ido à urgência ou que fossem apenas por motivos válidos ganhavam pontos. Realço que gases não são um motivo válido para ir à urgência. Da mesma forma, pessoas com comportamento adequado no serviço de urgência e que cumpriram regularmente a medicação também seriam pontuadas. Cada pessoa que atingisse determinado limiar de pontuação receberia benefícios, tipo redução no IRS, isenção de taxas moderadoras ou permissão para estacionar em lugares de deficientes.

 

Mas atenção, esses benefícios durariam apenas durante o ano civil em questão! E se essas pessoas cometessem infracções graves como ir à urgência porque se sentiram mal no supermercado mas já passou, ou porque é 23 de Dezembro, estão com pingo no nariz e depois põe-se o Natal e é chato, perderiam automaticamente todos os benefícios. Mais ainda, seriam legalmente obrigados a andar na rua com um autocolante na roupa ou uma pulseira que conferia o direito aos restantes cidadãos de os achincalharem se se cruzassem com eles na via pública.


E pronto, é isto. Cinco simples medidas que nos iam facilitar imenso as urgências. Não há dinheiro para nos pagar, mas pelo menos há imaginação. E se isto não chegar para eu me tornar ministro da saúde, não sei o que será preciso. Digam de vossa justiça nos comentários! Que propostas sugeriam para implementar nos serviços de urgência?

 

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