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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

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37ºC não é febre

Escherichia coli: a história de uma guerreira

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“Quem me dera ter tido a mesma sorte que os meus irmãos-irmãs”, pensava Escherichia coli, enquanto se preparava para enfrentar a fúria do seu pai-mãe.

 

E. coli, como era carinhosamente chamada pelos irmãos-irmãs, nasceu e cresceu num cantinho de bexiga próximo do meato uretral que, segundo as histórias contadas pelo seu progenitor, já havia sido conquistado e colonizado pelos seus antepassados há várias horas atrás, o que equivale a séculos para uma bactéria. Com emoção, ouvira várias vezes esses contos heroicos de um grupo de enterobacteriáceas, seus tetra-tetra-tetra-avôs-avós, que valorosamente haviam conseguido transitar do tracto gastro-intestinal para o tracto génito-urinário de uma hospedeira saudável, feito do qual poucas estirpes de bactérias se podem gabar. Lembrava-se da luta que foi conseguir sair do recto, atravessar o períneo, penetrar o meato urinário e marchar corajosamente uretra acima, travando batalhas épicas contra vários jactos de urina, cujo objectivo principal era arrastá-las dali para fora, batalhas essas nas quais se perderam milhões, senão biliões, de outras bactérias. Mas não o seu tetra-tetra-tetra-avô-avó. Esse conseguiu ultrapassar todas essas adversidades, tendo vindo a falecer já dentro da bexiga, não sem antes se multiplicar e dar início a uma geração de bactérias guerreiras.

 

“Pelo menos conseguiu chegar à terra prometida”, dizia-lhe o seu pai-mãe, de lágrimas nos olhos. Quer dizer, lágrimas metafóricas, uma vez que as bactérias não têm capacidade de chorar. Nem sequer têm olhos ou glândulas lacrimais. Mas a emoção era palpável nas suas palavras. Palavras, essas, metafóricas também, claro está.

 

Seguiam-se depois as histórias dos descendentes dessa bactéria peregrina, que lutaram durante várias gerações para conseguir manter aquele pequeno oásis na sua posse, travando batalhas épicas contra as malvadas células epiteliais da bexiga, que correspondem à primeira linha de defesa da imunidade inata que, por sua vez e para quem não sabe, é o mais antigo dos mecanismos de defesa dos organismos vertebrados. Durante horas, os seus antepassados combateram a pletora de interleucinas produzidas por estes seres vis mas, no fim, conseguiram prevalecer.

 

“Por isso orgulha-te dos teus flagelos e dos teus pilli, pois é por eles que estamos aqui hoje!”, brandia o seu pai-mãe, enquanto o preparava para a batalha decisiva que se avizinhava.

 

Desde cedo, Escherichia coli fez do seu principal objectivo de vida agradar ao seu pai-mãe. Nunca teve grande espírito guerreiro, é facto, mas como resistir a este chamamento glorioso que o conduzia para a batalha? E que desfeita faria ao seu pai-mãe se se acobardasse. E. coli sabia o desgosto que o seu progenitor sentia por nunca ter sido chamado para a guerra. Uma mutação num gene que codifica os seus flagelos tornou-o incapaz de combater, facto que muito o envergonhava e fazia sofrer. Talvez por isso tenha projectado tantos dos seus desejos de grandeza para o seu filho-filha que, por obra do destino, havia nascido sem essa mesma mutação e, portanto, estava apto a batalhar. E foram talvez esses mesmos desejos de grandeza que, chegada a hora, os levou a cometer o maior erro que podiam ter cometido: tentar provocar uma infecção renal, leia-se pielonefrite, em vez de causar apenas uma infecção da bexiga, também conhecida por cistite.

 

Nessa fatídica hora, Escherichia coli e os seus irmãos-irmãs marcharam rumo ao meato ureteral, o local onde a bexiga se liga aos ureteros, que são os canais de ligação entre o sistema pielo-calicial e a bexiga e, portanto, a forma mais rápida de atingir o rim. Os ânimos estavam em alta. Parecia que todas as bactérias presentes naquela expedição partilhavam dos delírios de grandeza do pai-mãe de E. coli. Entoavam-se cânticos heroicos, metafóricos, claro, ao mesmo tempo que se sonhava com as glórias que os esperavam quando atingissem o rim e causassem uma pielonefrite.

 

“Será que a Xana vai ter febre?”, perguntavam uns. “Será que vai dar entrada no Serviço de Urgência em sépsis?”, questionavam outros.

 

“Amigos-amigas”, disse o líder do grupo, “se todos-todas vocês fizerem bem o vosso trabalho, vamos conseguir mandar a Xana para os Cuidados Intensivos!”. As bactérias aplaudiram e brandiram os seus flagelos, mais determinadas que nunca.

 

Mas afinal, quem era a Xana? A Xana era a hospedeira destas bactérias. Mulher jovem, sexualmente activa, de 28 anos que, volta e meia, lá apanhava uma ou outra infecção urinária. Fã acérrima de produtos e tratamentos naturais, mal começou a sentir um certo desconforto urinário, que é aquilo a que os médicos chamam disúria, recorreu à ervanária e comprou um extracto de arando que, segundo a senhora que lho vendeu, era melhor que um antibiótico para tratar este tipo de infecções.

 

“Esses antibióticos só fazem é mal! Vai ver que vai ficar mais que boa!”, dizia-lhe a senhora da ervanária, esfregando as mãos e arregalando os olhos enquanto a Xana introduzia o código pessoal no terminal de multibanco para pagar o produto. Escusado será dizer que o extracto de arando foi água para o tetra-tetra-tetra-avô-avó de E. coli. Ao perceber que a hospedeira tinha optado por um tratamento natural em detrimento de um antibiótico, soube que a primeira batalha estava ganha. Foi um dos seus últimos consolos antes de morrer, uma espécie de prémio-carreira para um dos guerreiros-guerreiras mais valorosos que aquele microbioma alguma vez tinha visto.

 

Infelizmente, aquilo que parecia ser uma batalha ganha rapidamente se revelou um pesadelo. À chegada ao uretero, as bactérias rapidamente perceberam que o caminho até ao rim era muito mais difícil do que se pensava. Para além de íngreme, com o efeito da gravidade a jogar contra eles e a dificultar a sua já árdua batalha contra o fluxo de urina, o epitélio do uretero, que é a camada de células que reveste este canal, era muito mais difícil de penetrar do que o da bexiga.

 

A pouco e pouco, milhares de bactérias iam perecendo, sendo novamente arrastadas para a bexiga pela urina. As poucas que sobreviviam lá progrediam lentamente, quase como um grupo de exploradores a escalar o monte Evereste. Por momentos, chegaram a ver o sistema pielo-calicial lá bem ao longe. Uma espécie de porta do paraíso para estes guerreiros que, já exaustos, apenas queriam chegar ao rim, causar infecção, descansar, reproduzir-se e colher os louros de tão valorosa batalha.

 

Claro que nessa altura a Xana já estava a começar a ficar com náuseas e dor lombar e, por esse motivo, acabou por ir à urgência. Azar dos azares, como até já estava com uma frequência cardíaca um bocadinho mais acelerada, acabou por ser triada com pulseira amarela e não verde. E esse, meus amigos, esse foi o ponto de viragem da batalha. É que um azar nunca vem só e para além de receber pulseira amarela, a Xana foi à urgência às quatro da manhã, sabendo que ia ser atendida mais rapidamente porque certamente iria haver menos gente à espera. Quase que dá vontade de torcer pelas bactérias, não é?

 

E assim foi. A Xana foi atendida em pouco mais de dez minutos, fez uma análise à urina e rapidamente foi medicada. E desta vez foi medicada com um antibiótico e não com um desses produtos de ervanária que serve para nos deixar mais leves no bolso lateral das calças (ou, em algumas pessoas, no bolso traseiro).

 

Não durou muito até que o antibiótico entrasse em circulação. E daí, em poucos minutos estava no rim. E foi aí que começou a desgraça. Os nossos guerreiros valorosos, já cansados, não foram sequer adversários para o poder do antibiótico. Morreram aos milhares, senão milhões. Uma autêntica chacina. Os poucos que sobreviveram, mais não puderam fazer senão fugir e esconder-se. Foi o caso do nosso protagonista, Escherichia coli. Apavorado por ver os seus camaradas serem brutalmente assassinados por estes bárbaros da família dos beta-lactâmicos, engoliu o orgulho e fugiu. Fugiu sem olhar para trás. De lágrimas nos olhos metafóricos e com os flagelos a dar, a dar, correu como nunca havia corrido. Lá atrás ouvia os gritos dos que iam morrendo às mãos do antibiótico. Por momentos pensou que não ia sobreviver. Mas felizmente conseguiu esconder-se num divertículo da bexiga onde os antibióticos tiveram mais dificuldade em penetrar, rezou aos deuses das bactérias que o poupassem e, milagre ou não, foi poupado.

 

Depois de deixar passar o tempo de semi-vida do antibiótico, decidiu esgueirar-se para fora do divertículo onde se tinha escondido e o panorama que encontrou deixou-o de rastos. Milhares de milhões de bactérias mortas, a ser arrastadas por aquele rio de urina hemática. Restos de paredes celulares, fímbrias e flagelos espalhados por aquele tracto génito-urinário… Enfim, não foi bonito de se ver.

 

Mas apesar do terror que o preenchia, sabia que a pior batalha ainda estava para vir. Mais do que a culpa de sobrevivente. Mais do que ter assistido à morte dos seus irmãos-irmãs e primos-primas. Mais do que o desalento por saber que nunca mais iria conseguir cumprir o seu destino. Pior que isso tudo. A desilusão que ia causar ao seu pai-mãe.

 

Vagarosamente, dirigiu-se para o seu local de nascimento, aquele cantinho de bexiga que em tempos lhe transmitiu sensações tão boas e que era agora o palco do momento mais negro da sua vida.

 

O seu progenitor assomou-se à entrada, aguardando ansiosamente notícias sobre a batalha. O ar de antecipação e alegria rapidamente se transformou em apreensão e choque quando percebeu que a sua prole vinha sozinha, exibindo vários golpes que denunciavam um desfecho desfavorável do confronto.

 

- Então, filho-filha? Como correu? – perguntou, roendo as suas unhas metafóricas.

 

- Fomos dizimados, pai-mãe. – respondeu E. coli, esforçando-se de forma hercúlea para conter as lágrimas às quais não vou chamar metafóricas para não correr o risco de ser repetitivo, mas que não existiam.

 

- Dizimados?! Como assim? O que se passou?

 

- Foi um antibiótico. Um beta-lactâmico. Atacou-nos à traição quase às portas do bacinete. Não tivemos qualquer hipótese.

 

O progenitor lançou um suspiro de incredulidade e choque.

 

- Quantos… Quantos morreram?

 

- Mais de 105 unidades formadoras de colónias.

 

- Meu Deus… Que barbaridade, que massacre! Não posso crer! O que é que lhe deu para ir à urgência?! Eu julgava que ela era daquelas parvas que só se gosta de tratar com produtos naturais!

 

- Também nós, pai-mãe.

 

- E quem foi o bárbaro que lhe prescreveu o antibiótico?

 

- Provavelmente algum interno de formação específica do primeiro ou do segundo ano.

 

- Esses mentecaptos! Têm a mania que são deuses! Assassinos, é o que são!

 

Notava-se pelo tom de voz do progenitor que o sentimento de choque rapidamente se transformava em raiva. Continuou:

 

- Achas que alguns de vocês conseguiram chegar ao rim?

 

- Eu não estava na linha da frente do batalhão, por isso sobrevivi. Mas creio que sim. Não mais de mil, certamente.

 

- Então ainda há esperança!

 

- Pai-mãe, pai-mãe… O médico que a viu nem sequer lhe pediu análises ao sangue. Só à urina.

 

- Como assim? Então mas ela não tinha dor lombar?

 

- Tinha, sim.

 

- E não tinha náuseas e vómitos?

 

- Também.

 

- E não teve febre?

 

- Teve.

 

- Quanto foi a temperatura máxima dela?

 

- 37ºC.

 

- Meu idiota! 37ºC não é febre!

 

- Mas pai-mãe, a Xana sempre teve temperaturas muito baixas! A temperatura basal dela é de 35ºC. Ela com 37ºC já se sente muito prostrada! Não será febre interior?

 

Nessa altura, o progenitor parou. Ficou a olhar incrédulo para o infinito. Não conseguiu deixar de se sentir estúpido e inútil. Disse:

 

- Eu não acredito que estou a ouvir isto da tua boca, filho-filha. Tanto tempo perdido a transmitir-te os conhecimentos mais básicos sobre infecção… Conhecimentos esses que me foram transmitidos pelo meu pai-mãe e que lhe foram transmitidos a ele pelo seu pai-mãe… E assim sucessivamente até ao teu tetra-tetra-tetra-avô-avó, paz à sua alma. Tanto empenho, tantos minutos perdidos… E para quê? Para tu me vires falar de febres interiores? Para vires questionar o mais elementar dos conhecimentos sobre saúde humana? Achas-te melhor que Hipócrates?! Que Galeno?!

 

- Não, pai-mãe.

 

- Qual é o primeiro mandamento do juramento das bactérias?

- 37ºC não é febre.

 

- Qual é o segundo mandamento do juramento das bactérias?

 

- Só se considera febre quando a temperatura corporal é superior a 38.3ºC. Assim como Hipócrates escreveu, assim se cumpra.

 

- E o terceiro mandamento?

 

- Não existe febre interior. Isso é só parvo.

 

- Então porque é que me vens falar em febres interiores?! E se a temperatura máxima dela foi 37ºC, porque raio é que dizes que lhe provocaste febre?!

 

- Oh pai-mãe, ela até disse ao médico que tinha a boca toda rebentada por causa da febre…

 

E foi aí que se fez luz na sua cabeça. O seu filho-filha era um caso perdido. Nada havia a fazer para o ajudar. Sentou-se na poltrona, lançou um longo suspiro e sem o olhar nos olhos, apenas exclamou:

 

- Devias ter morrido lá com os teus irmãos-irmãs.

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