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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Feliz Natal, para quem o tem

De vez em quando é bom lembrarmo-nos do verdadeiro significado do Natal.

 

Natal é mais do que queimar o subsídio em presentes, entupir centros comerciais, dar encontrões aos outros enquanto tentamos conquistar o nosso lugar na banca de embrulhos de presentes à porta dos supermercados, tirar a foto da praxe à árvore de Natal com o hashtag #christmasishere ou ouvir em loop contínuo a música “All I Want for Christmas is You” que, por sua vez, está tão batida que até já passou de moda gozar com ela.

 

Para nós, profissionais de saúde, o Natal é isso tudo e muito mais.

 

O Natal é a época de dar ao outro, sem esperar nada em troca. É fazer um esforço extra para preservar o bem-estar da outra pessoa à custa do nosso. É trabalhar um pouco mais para que o doente possa ir para casa, sabendo que esse esforço nunca será recompensado, nem com um simples “bom trabalho” por parte de quem supostamente manda em nós. É aceitar que o dinheiro não é tudo e que há coisas piores do que ganhar oito euros ou menos por hora de urgência. É perceber que nestas alturas os doentes e familiares estão sob grande stress e nem sempre medem aquilo que dizem quando nos ofendem. É perceber que talvez não o façam por mal. É evitar dizer ao doente que não tem alta porque a família não o vem buscar ao Hospital, por saber que isso lhe irá causar sofrimento desnecessário. É assumir que temos costas largas e portanto dizer-lhe que passa o Natal no Hospital para estabilizar a sua situação clínica e fazer mais alguns exames.  É acreditar que o que interessa é que haja saúde, mas também se não houver, paciência. É saber que se adormecermos ao volante porque estivemos a trabalhar 24 horas seguidas, se tivermos um enfarte ou um AVC porque não cuidamos da nossa própria saúde como devíamos, se nos atirarmos da ponte porque não aguentamos o stress do dia-a-dia, ou se morrermos num acidente de helicóptero no cumprimento da nossa função, pelo menos demos a nossa vida pelos outros. É morrer orgulhosamente mesmo sabendo que, com sorte, seremos a manchete do dia num pasquim qualquer que amanhã já nos anda a perseguir novamente, na busca incessante por inimigo público, o sacana do médico que dorme durante o seu turno. É aceitar que o que é esperado de nós é que dêmos tudo o que temos, tempo, saúde, dinheiro, vida, pelos outros sem pedir nada em troca. É saber que grande parte daqueles por quem nos sacrificamos acha que somos uns crápulas que vivem vidas de luxo à sua custa. É admitir que para o português médio não há limites de horas de trabalho para nenhum profissional de saúde, nem direito a greve, que devemos ganhar apenas para sobreviver e nada mais, que “já sabíamos ao que íamos quando escolhemos o curso” e que qualquer um que não se conforme com esta mentalidade é ganancioso e inimigo do povo. É acordar todos os dias sabendo que as condições de trabalho a cada dia se degradam mais e não parece haver perspectivas de melhoria no horizonte. É, ainda assim, levantarmo-nos da cama e irmos à luta, mais que não seja para haja menos uma pessoa a passar o Natal no Hospital. É dizer que lá por nós o termos de passar aqui, não significa que os outros também tenham.

 

No fundo, para nós profissionais de saúde, o Natal é mesmo todos os dias.

 

Feliz Natal, para quem o tem.

 

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