Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Mais oito tipos de médicos da urgência

No nosso primeiro artigo “Os oito tipos de médicos da urgência” abordámos algumas personagens com as quais nos podemos cruzar quando embarcamos nessa maravilhosa tarefa que é tratar unhas encravadas e tonturas às duas da manhã no serviço de urgência. No entanto sabemos que deixámos muita gente de fora. E como gostamos de ser justos e inclusivos, aqui fica a tão esperada sequela. Para vocês, mais oito tipos de médicos da urgência.

 

mais oito tipos.png

 

O Eça de Queiroz

 

O Eça de Queiroz é um escritor nato. Um poeta. Um artista. Tudo o que escreve é feito com a maior atenção ao detalhe e ao pormenor. Descreve uma insuficiência cardíaca como se se estivesse a referir à fachada principal do Ramalhete. Para o Eça, não basta dizer “Doente de 80 anos, parcialmente autónoma, com história de hipertensão arterial”. Não, meus amigos. O Eça vai mais longe:

 

“Senhora de 80 anos, parcialmente autónoma nas actividades de vida diária, sendo portanto capaz de deambular com apoio de bengala ou andarilho dentro do domicílio mas com necessidade de apoio de terceiros na via pública, autónoma na alimentação mas não na confecção dos alimentos, necessitando também de apoio de cuidadora que se dirige ao seu domicílio três vezes por semana para lhe prestar auxílio na higiene pessoal. História pessoal conhecida de hipertensão arterial, diagnosticada aos 45 anos de idade na sequência de avaliação médica de rotina, inicialmente medicada com candesartan na dose de 16 mg/dia, posteriormente incrementada para 32 mg/dia e mais recentemente também com amlodipina 5 mg/dia, já com várias lesões de órgão-alvo, designadamente nefrangioesclerose hipertensiva e doença cerebral vascular.”

 

…. É escusado dizer que o Eça de Queiroz não consegue ver muitos doentes na urgência.

 

O Telégrafo

 

O telégrafo é o oposto do anterior. Quanto mais curto e grosso, melhor. Este colega não consegue não ser sucinto, mesmo que quisesse.

 

“Doente de 80 anos, hipertensa. Tosse e expectoração há uma semana. Traqueobronquite aguda. Amoxicilina-ácido clavulânico. Alta. Explicados sinais de alarme.”

 

Este é um exemplo de uma boa descrição para o telégrafo. Dá a sensação que fazer Medicina para ele é como mandar uma mensagem por telemóvel em 2003. Quantos mais caracteres, mais se paga. Só não usa siglas porque geralmente ninguém as entende.

 

O Sniper

 

Ninguém vê o Sniper. Ninguém sabe onde anda. Está sempre escondido nas sombras, à espera de atacar o doente mais interessante que apareça na urgência. Ao contrário do Escondidinho (abordado na prequela deste artigo), que pura e simplesmente não quer ver doentes e se esconde pelos cantos mais recônditos da urgência, como o WC, a arrecadação ou, cruzes credo, o gabinete da Psiquiatria, o Sniper até nem se importa de ver doentes. Desde que isso não implique falar com eles ou ver a sua cara.

 

Assume doentes, faz histórias clínicas, pede análises, exames e medica doentes. Tudo à distância. Terá poderes telepáticos? Ninguém sabe bem, porque nunca ninguém o encontrou para lhe perguntar. Será pouco responsável? Muito provavelmente.

  

O Sherlock

 

Este colega é aquele que acha que o mais provável é uma dor de barriga ser uma púrpura de Henoch-Schönlein e não uma gastrenterite ou uma obstipação. Uma dor torácica certamente será uma pericardite em contexto de um lúpus eritematoso sistémico não diagnosticado. Qual ansiedade, qual quê. Se não for para pedir ressonância magnética a todas as cefaleias, o Sherlock nem vai trabalhar.

 

Pelo meio de tanta investigação lá consegue diagnosticar uma ou outra coisa engraçada, mas para lá chegar gasta rios de dinheiro em exames, pega-se com metade do hospital, leva os enfermeiros à loucura e a maior parte dos doentes acaba por sair com o rótulo de criptogénico ou “não esclarecido”.

  

O “pão-pão, queijo-queijo”

 

Para cada Sherlock há sempre um colega destes a contrabalançar. Para ele tudo é o mais simples possível. A dispneia é quase sempre um edema agudo do pulmão. E mesmo que não seja, uma furosemida e uma morfina nunca fizeram mal a ninguém.

 

Qualquer doente a quem seja necessário pedir algo mais do que um raio-X do tórax e umas análises com hemograma, PCR, creatinina e ionograma já o começa fazer torcer o nariz. Vá, de vez em quando lá pede uma ecografia ou uma TAC, mas só em doentes muito selecionados. Vê muitos doentes, tal como o Speedy Gonzalez, mas uma parte significativa deles acaba por voltar passado um dia ou dois.

  

O bon vivant

 

Para este colega o que interessa é socializar. Seja com os colegas, enfermeiras, doentes ou mesmo familiares. É capaz de perder mais tempo a explicar ao doente como fazer um bom coelho à caçador do que como fazer um inalador correctamente. Passeia-se pela Urgência, conversa um pouco com toda a gente, faz dezassete pausas por hora para ir fumar um cigarro e geralmente é quem escolhe a banda sonora da urgência porque está sempre a ouvir aquele último álbum dos Bon Iver que é muito giro. Sim, é esse tipo de pessoa.

 

“Eu conheço-a, não conheço?” para aqui, “Olha a dona Maria!” para ali... É uma alegria trabalhar com ele. Curiosamente a maior parte dos colegas gosta dele e todos os doentes o acham uma jóia.

  

O dealer

 

O dealer é isso mesmo, um dealer. Distribui trabalho por toda a gente. “Tu vais para a sala de emergência, tu ficas no SO, tu vais para os Laranjas e preciso de duas pessoas para os amarelos que têm quatro horas de espera!”. Tal como o dealer a sério que distribui droga por toda a gente mas não a consome, também o nosso dealer distribui o trabalho por todos mas curiosamente na maior parte das vezes acaba por se esquecer de si próprio.

 

Viaja pela urgência sempre com cara de atarefado, como se estivesse assoberbado de trabalho, mas depois vai-se a ver e tem um doente assumido em seu nome. E se calhar é um doente que segue na consulta e que mandou vir ao hospital por algum motivo.

 

Geralmente é ele que distribui as senhas da ceia pelos elementos da equipa. Ele ou o bon vivant.

 

O segura-paredes

 

Por fim, o nosso último exemplo muitas das vezes nem sequer é médico. E vem quase sempre aos magotes. Os segura-paredes são na maior parte dos casos alunos ou IACs. Têm duas funções no Serviço de Urgência. Uma delas é garantir que as paredes não caem. Para isso, juntam-se, enconstam-se todos à parede de forma a completarem essa tarefa heróica que é evitar que algum colega seja esmagado por uma parede desgovernada.

 

A sua outra função, ou melhor, especialização, é atrapalhar o menos possível os colegas. São super eficazes nessa função, demonstrando uma agilidade notável quando é preciso saltar fora do caminho de algum colega que se encontre debruçado numa maca a fazer compressões torácicas enquanto três enfermeiros arrastam a maca a correr para a sala de emergência.

 

 

Agora sim, sinto que foi feita justiça aos colegas que não foram representados no artigo anterior. Apesar do possível tom de escárnio que possam ter sentido nas descrições de alguns colegas, quero deixar bem claro que acho que todos são importantes para o bom funcionamento do serviço de urgência. Toda a gente precisa de um telégrafo ou de um “pão-pão, queijo-queijo” quando há cinquenta doentes à espera, ou de um sniper que de repente começa a assumir doentes que ninguém quer ver e que nem deviam ter vindo à urgência. Da mesma forma, toda a gente precisa de um bon vivant que anime as velhinhas que vão ao hospital porque se sentem sozinhas, de um dealer que mande o pessoal comer qualquer coisa às três da manhã, de um Sherlock que deslinde aqueles casos que mais ninguém consegue resolver, de um Eça de Queiroz que faça notas de entrada bem bonitinhas, ou mesmo de um segura-paredes que vá buscar café aos colegas quando a urgência está um caos.

 

Em suma, todos somos importantes no Serviço de Urgência!

 

P.S: Um agradecimento aos sôtores que me forneceram ideias para elaborar este artigo. Foram deveras importantes. Adoro-vos!

 

  • 2 comentários

    Comentar post