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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

O eterno problema das urgências

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Eu gosto de fazer urgência. Melhor dizendo, eu adoro fazer urgência. Talvez seja pelo contacto frequente que me permite ter com o doente crítico. E entenda-se que quando utilizo o termo “doente crítico” não me refiro ao doente que refila por tudo, desde a quantidade de sal na sopa até à rigidez do colchão da maca onde está deitado. Doente crítico é o doente que está, efectivamente e por assim dizer, doente. É o pobre infeliz que padece de doenças potencialmente ameaçadoras de vida, grupo nas quais a bela da unhaca encravada ou a dor de costas de Domingo à noite não se incluem. Este tipo de doentes, os críticos, sempre me agradou desde os meus mais tenros anos de médico indiferenciado. Talvez por isso tenha escolhido uma especialidade que me permite manter o contacto com os mesmos e a frequência assídua do serviço de urgência, em vez de me fechar e cristalizar no consultório a ver fibromiálgicas. E sim, esta facada foi direccionada aos reumatologistas que se encontram neste preciso momento a ler este texto e para os quais endereço um daqueles beijinhos molhados que nos deixa com vontade de aplicar um kleenex o quanto antes na nossa proeminência malar.

 

Outra coisa que me fascina em fazer urgência é a capacidade que temos de ajudar o doente no momento. Fazer a diferença no imediato. Sempre me frustrou a ideia de ter de esperar semanas a meses para que determinada atitude terapêutica exerça o seu efeito. É, como se diz em jargão médico, uma bela de uma seca. Talvez por isso me tenha querido afastar tanto das fibromiálgicas que enchem os gabinetes de consulta dos hospitais deste nosso belo SNS a fora. Entenda-se que de forma alguma pretendo diminuir a importância e o impacto na saúde da população de especialidades como a Medicina Geral e Familiar. O backbone de um bom sistema de saúde começa nos cuidados de saúde primários e em relação a isso não tenho a mais pequena dúvida. Apenas digo que me aborrece. E ainda bem que não somos todos iguais. Senão, para que serviria o ananás?

 

Dito isto, é com alguma tristeza que constato que os serviços de urgência são, actualmente, os parentes pobres do SNS. O pináculo da degradação a que esta nossa bela experiência chamada Serviço Nacional de Saúde tem sido sujeita. De tal forma que até me vejo eu próprio, Dr. Pérolas da Urgência, a ansear pelo momento em que vejo os meus colegas do turno seguinte irromper pelo balcão de atendimento a dentro de forma a me render e, assim, acabar com o meu sofrimento.

 

Entendam, por favor, que não são os doentes que me causam mossa. Sim, os nossos doentinhos estão muito estragadinhos. Sim, em todas as urgências assisto a cenas de degradação humana que fazem os protagonistas da “Lista de Schindler” corar de vergonha. Sim, há acompanhantes e doentes muito chatos e inapropriados. Mas isso são, como costumo dizer, ossos do ofício. As pessoas que vão à urgência sentem-se, na maior parte dos casos, doentes. Atenção, não vos estou a dizer que estão efectivamente doente mas sim que se sentem doentes. E portanto é de esperar que tenham um bocadinho menos de paciência para esperar pela sua vez. E que tenham um bocadinho menos de tolerância para alguma coisa que corra menos bem, como por exemplo um bug informático ou um bug verdadeiro a rastejar pelo chão. Isso não lhes dá o direito de se comportarem como animais e esquecerem as regras básicas de civismo e convivência em sociedade que os seus paizinhos e mãezinhas, que Deus os tenha, lhes ensinaram. Mas ainda assim, em mais de noventa por cento dos casos, as picardias e boquinhas a que os profissionais de saúde que trabalham na urgência estão sujeitos conseguem ser ultrapassadas com um belo de um sorriso amarelo ou um simples virar de costas.


Não, amigos e amigas, o que me desgasta não são os doentes. Aliás, eu digo várias vezes a quem me conhece que o que me custa menos quando vou trabalhar é ver doentes. Isso não me custa. Arrelia-me e ás vezes chega até a angustiar-me não saber o que é que eles têm ou não ter um plano bem definido para conseguir orientar as situações que me surgem à frente. Mas com isso posso eu bem.

 

Agora, aquilo que me desgasta à séria é a depauperação a que os serviços de urgência foram sujeitos nos últimos anos. Nomeadamente em termos de recursos humanos.  Não é por acaso que há vinte anos atrás as equipas de urgência eram constituídas por um internista, um infecciologista, um hematologista, um cardiologista, um pneumologista, um gastroenterologista e dois ou três internos de formação específica. Isto sim eram equipas verdadeiramente diferenciadas e multidisciplinares. Agora, a maior parte das equipas são constituídas por um, quanto muito dois, internistas e o resto são tudo internos, muitos deles acabados de sair da faculdade e, logicamente, com pouca ou nenhuma experiência em Medicina de Urgência.

 

Sim, sim, bem sei que fazer urgência custa, que dormir fora é chato, que todos temos famílias com filhos pequenos. E também sei que especialidades como a gastroenterologia e a Deusologia, perdão, cardiologia, são muitas vezes obrigadas a completar escalas de urgência das respectivas especialidades. Mas o problema é que, com o tempo, criou-se na cabeça de todos aquela ideia de que a urgência é aquele para o qual ninguém quer ir trabalhar. O sítio para onde só vai quem é obrigado ou não tem qualidade suficiente para estar noutro sítio. Todos reconhecem a importância da urgência para o bom funcionamento do Hospital e todos dão muito valor a quem dá o corpo às balas. Mas toda a gente de lá foge como um ortopedista de um ECG.

 

Ora, meus caros e minhas caras, se há sítio do Hospital onde a diferenciação técnica e a vocação são da maior importância, é a Urgência! E reparem como escrevi urgência com U maiúsculo para realçar a minha ideia. A Urgência é, na grande maioria das vezes, o local onde o primeiro contacto entre o doente e o Hospital é feito. E se há doentes com problemas de saúde autolimitados que provavelmente até resolveriam espontaneamente, há outros em que cada minuto conta. Há doentes que precisam de ser “agarrados” desde o primeiro momento em que põem o pé no Hospital. Mas para isso, para que haja gente motivada, com experiência e vocação na abordagem do doente agudo, é preciso que lhe seja dado algo em troca. Algo mais do que uma sandes de chourição e um sumo de marca branca às duas da manhã.

 

Sim, senhores administradores e senhoras administradoras, eu sei que os SIGICs é que dão guito ao hospital. Eu sei que é das listas de espera de cirurgias e consultas que se fala no telejornal da TVI ou da CMTV, se é que se pode considerar este último um telejornal. E também sei que nenhum de vocês é médico, profissional de saúde sequer. Que aquilo que estão habituados a ver são números e que a meta máxima que a vossa vista consegue alcançar é o final do mandato do partido que vos colocou no poleiro. Mas às vezes é preciso pensar um pouco mais além, sabem? Às vezes é preciso pensar que aquela velhinha que entra no SU com uma pielonefrite aguda, diagnosticada e tratada atempadamente num prazo de, vá, duas horas, se calhar gasta indirectamente muito menos dinheiro ao Estado do que a mesma velhinha, com a mesma pielonefrite, que tem o azar de ser levada à urgência de um hospital cujo nome não vou revelar mas que começa por “F” e acaba em “ernando da Fonseca”, que só é vista oito horas depois, talvez por alguém que não tem capacidades técnicas ou linguísticas para detectar precocemente essa tal pielonefrite e que é apanhada em choque séptico e acaba nos Cuidados Intensivos ventilada e sob técnica dialítica (ou para os mais eruditos, técnica de elítica).

 

O motivo pelo qual temos tanta gente desmotivada e desvocacionada nos Serviços de Urgência deste país deve-se, em parte, ao facto de a urgência ser vista não como um local estimulante onde se pode aprender e praticar aquilo que se gosta de fazer, mas como um castigo pelo qual a maior parte de nós tem de passar. Deve-se às condições de trabalho austeras e adversas que nos proporcionam para desempenhar a nossa actividade profissional. Deve-se à quantidade de gente que nos interrompe a perguntar quanto tempo falta para serem atendidos, ou para terem os resultados das análises, enquanto tentamos elaborar um raciocínio dos mais elementares. Deve-se ao facto de termos de ser nós, médicos, a explicar às pessoas que a TAC está avariada e que não vai ser possível fazê-la nas próximas seis horas. Ou explicar às famílias que não há mais macas na urgência e a dona Aurora de 93 anos vai ter de passar a noite sentada no cadeirão. Ou enfiada num corredor com uma porta automática a abrir e fechar a vinte centímetros da sua maca a cada cinco minutos. Ou explicar às famílias que não há vagas para internar os doentes. Ou que o sistema informático encravou outra vez. Ou que já temos quase vinte doentes assumidos em nosso nome e não podemos chamar mais ninguém para já. Isto enquanto discutimos casos clínicos e esclarecemos dúvidas com os desgraçados dos internos que formam fila à beira do nosso gabinete, enquanto tentam gerir o pânico que eles próprios estão a sentir, de forma a que nenhum doente lhes morra nas mãos ou recebam uma reclamação de uma família.

 

Há quem diga que para ser médico é preciso sofrer. Para se poder dominar esta arte que é tratar da saúde das pessoas é preciso visitar as trincheiras, saber o que é bom para a tosse, penar e arrancar cabelos em desespero. Porque antigamente era assim. E portanto porque é que agora não há-de continuar a ser assim? Eu pessoalmente não concordo em nada com essa posição. É que antigamente morria-se de lepra, faziam-se sangrias e os meninos comiam sopas de cavalo cansado ao pequeno-almoço. É suposto trazer essas práticas para os dias de hoje?


E se efectivamente eu estiver errado e nós, médicos da actualidade, estivermos todos muito mal habituados… Se de facto fizer sentido que tenhamos de trabalhar nas mesmas condições em que se trabalhava há trinta anos… Então pelo menos que sejamos intelectualmente honestos. Imitemos o antigamente para o mal e para o bem. Seja, continuaremos a fazer urgência em condições deploráveis. Mas pelo menos não será a receber oito euros à hora.

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