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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

O evangelho segundo São Pérolas

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Todos certamente se encontram familiarizados com a cena icónica da Paixão de Cristo, retratada pelos quatro evangelhos do Novo Testamento. No entanto, dados recentes sugerem a existência de um evangelho apócrifo, descoberto recentemente num local de escavações arqueológicas em Jerusalém, que se pensa ser atribuído a São Pérolas, um mártir que dedicou a vida à instrução das massas, sendo responsável por textos históricos como “37ºC não é febre”, “Se vais à urgência às quatro da manhã porque tens gases, és só parvo” e, claro, a Parábola dos Recursos Humanos.

 

Segundo o Evangelho de São Pérolas, ao que parece, a cena da Paixão de Cristo foi também presenciada por médicos de algumas especialidades. Este texto apócrifo centra-se nas reacções dos vários médicos às cenas que se iam desenrolando diante dos seus olhos e começa da seguinte forma:

 

Medicina Interna: Hummm, este homem não está nada bem. Vejo claros sinais de trauma. Está polipneico e fala numa língua estranha, provavelmente aramaico, parecendo também estar a ter alucinações visuais, uma vez que continua incessantemente a chamar pelo pai, no entanto não vejo ninguém à sua volta. É melhor chamar as outras especialidades. Vou começar por pedir apoio da Cirurgia.

 

Cirurgia Geral: Então? O que é que se passa?

 

Medicina Interna: Olhe colega, este senhor que se encontra a ser crucificado apresenta no dorso múltiplas lesões compatíveis com chicotadas que acho que vão precisar de ser suturadas.

 

Cirurgia Geral: E interrompe-me o jantar por causa disso? Suturas é para o IAC! Foste ver dele à sala da pequena cirurgia?

 

Medicina Interna: Efectivamente não, porque se reparar o doente tem também múltiplas abrasões e lacerações no couro cabeludo, por causa daquela coroa de espinhos que lhe colocaram, já para não falar das lesões perfurantes das mãos e dos pés causadas pelos pregos.

 

Cirurgia Geral: Sim, mas se envolve mãos e pés tem de ser a Cirurgia Plástica a suturar! Têm de chamar a Cirurgia Plástica.

 

Medicina Interna: Humm, isso é capaz de demorar. É melhor deixarmos isto para segundo plano e focarmo-nos na polipneia. Vou pedir apoio da Pneumologia.

 

Pneumologia: Então colega, o que é que se passa?

 

Medicina Interna: Boa noite colega. Então é o seguinte: este doente está a ser crucificado mas não consegui deixar de reparar que está a ficar bastante polipneico, por isso pedi a sua colaboração.

 

Pneumologia: E a gasimetria?

 

Medicina Interna: Como calcula, não lhe consegui fazer gasimetria. O homem está crucificado a três metros de altura do chão, não consigo ir lá acima picá-lo.

 

Pneumologia: Acho isto incrível… Chamar a Pneumologia sem sequer ter uma gasimetria?! Se não consegue ir à radial, porque é que não tentou ir à femoral? Só precisava de se colocar às cavalitas de um colega seu e era capaz de lá conseguir chegar…

 

Medicina Interna: Pois, de facto é verdade, mas olhe, isto tem estado muito complicado aqui e não me lembrei dessa possibilidade. Mas mesmo sem gasimetria, o que é que acha que lhe pode estar a causar a polipneia? Será uma embolia pulmonar?

 

Pneumologia: Não! Embolia pulmonar não é, de certeza. O homem tem algum factor de risco para trombose venosa profunda?

 

Medicina Interna: Que eu saiba não. Só não consegui saber se é fumador. Quando lhe perguntei se fumava ele só dizia coisas sem sentido. Não parava de me perguntar porque é que o abandonei…

 

Pneumologia: Cá para mim essa polipneia é só ansiedade. Já experimentou dar-lhe um diazepam?

 

Medicina Interna: Tinha pensado mais em dar-lhe risperidona, atendendo ao quadro de alucinações… Mas se calhar é melhor pedir o apoio da Psiquiatria.

 

Psiquiatria: Chamou?

 

Medicina Interna: Sim. Boa noite, colega. É o seguinte: este doente está aqui com um discurso um bocado incoerente. Já pediu para nos perdoarem porque nós não sabemos o que estamos a fazer, já falou do pai, já perguntou porque é que o abandonaram. Eu acho que está a ter alucinações.

 

Psiquiatria: Sim, mas ele agora está demasiado instável para eu o entrevistar.

 

Medicina Interna: Mas não consegue apurar nada?

 

Psiquiatria: É assim, dá a sensação que tem uma relação um bocado conturbada com o pai, que me parece ser uma figura um pouco ausente. Mas tirando isso, não consigo apurar mais nada. Seja como for, sugiro exclusão de doença orgânica. Como estão as análises?

 

Medicina Interna: Não lhe conseguimos colher análises. Mas pelo aspecto dele, se não é embolia pulmonar nem doença psicológica, se calhar pode estar a hiperventilar por estar em sépsis. Se calhar vou chamar a Infecciologia.

 

Infecciologia: Diga.

 

Medicina Interna: Olá colega. Olhe, este doente está a hiperventilar e parece estar um bocado diaforético. Não conseguimos ver os restantes sinais vitais mas estamos com receio que ele esteja a ficar séptico.

 

Infecciologia: Ui, vocês já viram aqueles pregos ferrugentos espetados nas mãos e nos pés do homem? Ele fez a vacina do tétano?

 

Medicina Interna: Por acaso não lhe perguntei.

 

Infecciologia: E deram-lhe a imunoglobulina?

 

Medicina Interna: Não demos, porque achámos que havia assuntos mais urgentes a tratar, nomeadamente o facto de ele parecer estar a entrar em sépsis…

 

Infecciologia: Pois. E pode mesmo estar. E assim pela clínica não consigo perceber qual é o foco primário. Poderá ser cutâneo, atendendo às várias lesões que apresenta. Já lhe colheram produtos microbiológicos?

 

Medicina Interna: O José de Arimateia já lhe conseguiu colher um bocado de sangue com o Santo Graal… Acha que dá para enviar para hemoculturas?

 

Infecciologia: Não! Foi feito sem assepsia nenhuma, de certeza. Vai vir tudo inquinado. O melhor é começarmos já antibioterapia empírica.

 

Medicina Interna: Se calhar alguma coisa de espectro alargado, não? Piperacilina-tazobactam parece-lhe bem?

 

Infecciologia: Então mas o homem fez antibiótico nos últimos três meses, por acaso?

 

Medicina Interna: Que eu saiba, não.

 

Infecciologia: Vive em lar ou esteve internado recentemente?

 

Medicina Interna: Não.

 

Infecciologia: E qual é a prevalência de MRSA e Pseudomonas aeruginosa multirresistente aqui em Jerusalém, sabe?

 

Medicina Interna: Não faço ideia.

 

Infecciologia: Seja como for, acho que não se justifica começar já com piperacilina-tazobactam. Ainda por cima sem culturas nem sequer vamos poder de-escalar o antibiótico. Depois queixam-se que têm surtos de Clostridium difficile e KPC… Pode dar-lhe 2 milhões de unidades de penicilina G endovenosa. Cobre bem a pele e o pulmão.

 

Medicina Interna: Ok, colega. Mas acho que o homem está a começar a apagar-se. Acho que daqui a um bocado se vai cansar e deixa de respirar. Vou chamar a Anestesiologia, acho que é melhor entubar o doente.

 

Anestesiologia: Sim?

 

Medicina Interna: Olá colega. Olhe, é o seguinte: tenho aqui este doente de 33 anos, politraumatizado e com sinais de sépsis. O doente estava a hiperventilar mas agora está a ficar mais bradipneico, acho que o vamos ter de entubar e ventilar.

 

Anestesiologia: E como é que você está à espera que eu o entube? O homem está a três metros de altura! Ainda por cima nem consigo fazer hiperextensão do pescoço! Isto nem com videolaringoscópio lá vai. Se me arranjarem um escadote talvez lhe consiga pôr uma máscara laríngea…

 

Medicina Interna: E com o que é que o sedamos?

 

Anestesiologia: Damos-lhe um bocadinho de propofol.

 

Medicina Interna: Mas o homem está em choque! Se lhe damos propofol ainda se apaga de vez.

 

Anestesiologia: Pois, é verdade, de facto. Vocês têm etomidato aqui no Monte do Calvário?

 

Medicina Interna: Não faço ideia. E agora a enfermeira está na passagem de turno, não posso ir lá interromper. Seja como for, o homem já está tão apagado que se calhar nem precisa de sedação.

 

Cirurgia Plástica: Chamaram?

 

Medicina Interna: Chamámos sim, mas já há mais de uma hora.

 

Cirurgia Plástica: Estava ali no bloco a terminar uma mamoplastia mas aquilo atrasou-se um pouco mais do que eu estava à espera. Diga lá.

 

Medicina Interna: É assim, este doente tem ali quatro feridas nas mãos e nos pés que vão precisar de ser suturadas.

 

Cirurgia Plástica: Está bem, mas se calhar é melhor chamarem primeiro a Ortopedia. É que os soldados romanos estão a começar a partir as pernas dos outros condenados à morte e se calhar é mais importante tratar disso primeiro.

 

Medicina Interna: OK, então vou chamar a Ortopedia.

 

Ortopedia: Como é que é, pequeninos???

 

Medicina Interna: Oh colega, é o seguinte: este doente tem várias lacerações e lesões cutâneas que a cirurgia plástica não quer suturar, está a entrar em sépsis e já vai começar antibiótico assim que a enfermeira passar o turno, o colega de anestesiologia está a tentar ver se arranja etomidato e um escadote para lhe colocar uma máscara laríngea… E agora os soldados romanos vão lhe partir as pernas.

 

Ortopedia: Só percebi metade dessas palavras que utilizaste, pequenino. Então mas ele tem as pernas partidas ou não?

 

Medicina Interna: Ainda não, mas vai ter.

 

Ortopedia: Epá então se não tem fractura, da nossa parte tem alta.

 

Cirurgia Plástica: Da nossa também.

 

Cirurgia Geral: E da nossa.

 

Pneumologia: Da nossa também tem alta.

 

Medicina Interna: Malta, malta!!! O homem está ali crucificado, com montes de lesões a precisar de suturas, a entrar em choque séptico e na iminência de ser ventilado… E vocês dão-lhe alta assim?

 

Pneumologia: Olha, aquele soldado romano está a espetar-lhe uma lança no hemitórax! Será que era um hemotórax que estava a causar a polipneia?

 

Medicina Interna: Eu… Eu acho que o doente morreu.

 

Anestesiologia: Eu não lhe consigo sentir o pulso pedioso.

 

Pneumologia: E não está a respirar.

 

Ortopedia: Está a começar a chover, pequeninos.

 

Medicina Interna: Pronto, morreu. O que é que pomos como causa de morte no certificado de óbito?

 

Pneumologia: O melhor é pedir autópsia, não?

 

Anatomia Patológica: Não se esqueçam que hoje é sexta-feira. Se quiserem autópsia só a partir de segunda…

 

Medicina Interna: Temos de perguntar à família o que prefere. Está ali a mãe dele. O colega da Psiquiatria quer vir comigo para lhe transmitirmos a notícia?

 

Psiquiatria: Sim, posso ir. E o que dizemos quando ela perguntar qual foi a causa de morte?

 

Medicina Interna: Olhe, como esta gente é toda muito religiosa, podemos dizer que não sabemos, mas que agora ele está nas mãos de Deus.

 

Cardiologia: Chamaram?