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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

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O mito da gripe

Olá. O meu nome é Influenza e sou um vírus. Provavelmente não me conhecerás pelo meu nome verdadeiro, mas se eu te disser que sou o vírus da gripe talvez saibas quem eu sou.

 

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Calma, não fujas! Não estou aqui para te fazer mal. Eu sei que estás sempre a ouvir falar mal de mim na TV, na rádio e nas redes sociais, mas não te quero causar nenhuma doença. Só quero que saibas o meu lado da história e estou aqui para te contar, se o quiseres ouvir.


Certamente já perdeste a conta ao número de vezes que ouviste alguém falar de mim como se eu fosse a encarnação da peste negra, versão século XXI. As entrevistas na CMTV sobre a epidemia da gripe, os artigos online sobre como os hospitais ficam apinhados todos os anos por minha culpa, as estatísticas da TVI sobre o número de pessoas que eu mato anualmente... Soa familiar, certo?

Não te vou dizer que sou totalmente inocente de todos esses "crimes" dos quais sou acusado, porque isso seria mentir. De facto, anualmente, sou responsável pela morte de algumas pessoas. É um facto do qual não posso fugir. Mas para que saibas, normalmente as pessoas que eu levo para o outro lado são pessoas mais debilitadas e com o sistema imunitário mais em baixo, por isso à partida não tens nada com que te preocupar. Daí a importância das vacinas, que são reservadas para os indivíduos de alto risco, aqueles em quem eu posso causar estragos à séria e para os profissionais de saúde, que pela profissão que desempenham têm maior risco de me contrair. Não me agrada muito a ideia de existir uma vacina contra mim, ainda assim percebo que eu e ela temos uma relação simbótica que tem de existir. Eu propago-me o suficiente para que a minha espécie possa subsistir, ela protege os indivíduos mais fracos dos estragos que eu lhes posso fazer.

 

Curiosamente, os portugueses parecem gostar menos da vacina do que gostam de mim, mesmo sabendo os estragos que eu posso causar. É estranho, mas já desisti de os entender.

 

Bem, agora que já retirámos o elefante da sala, vamos falar dos verdadeiros vilões desta história: os políticos e dirigentes hospitalares. Podem achar isto estranho, mas a verdade é que, ano após ano, eu, vírus Influenza, sou usado como bode expiatório de tudo o que de mal acontece nos Hospitais e Centros de Saúde portugueses.

 

As urgências estão cheias e os doentes ficam horas e horas à espera de ser atendidos? Culpa da gripe, independentemente de a realidade ser a mesma fora da minha época.

 

Ainda nem vamos a meio do Inverno e os serviços de urgência já parecem hospitais de campanha, com macas amontoadas por tudo o que é sítio, desde corredores a salas de arrumações? Culpa da gripe, apesar de eu apenas aumentar a afluência ao serviço de urgência em menos de 20% e apenas durante dois a três meses por ano.

 

As escalas de urgência cada vez são mais difíceis de preencher e as equipas estão cada vez mais desfalcadas e indiferenciadas? Culpa da gripe, apesar de não ser eu que determino quanto é que se paga no Serviço Nacional de Saúde.

 

Os casos sociais acumulam-se de ano para ano porque as respostas sociais são cada vez mais escassas ou inexistentes? Culpa da gripe, provavelmente devo ter sido eu a infectar todas as assistentes sociais deste país ao mesmo tempo e a bloquear a construção de lares de idosos por Portugal fora.

 

Os transportes estão cada vez mais ineficazes e os doentes permanecem cada vez mais horas nos Hospitais à espera de serem transportados para outras unidades hospitalares ou para o domicílio? Culpa da gripe, porque provavelmente para além das assistentes sociais devo ter infectado também as corporações de Bombeiros todas do país.

 

O médico de família tem consultas de dez em dez minutos e perde a maior parte do tempo da consulta a tentar que os programas informáticos colaborem com ele? Culpa da gripe, por motivos que me ultrapassam.

 

O aparelho de TAC do Hospital avariou há dois meses e ainda ninguém o veio reparar? Culpa da gripe e para esta nem sequer consigo arranjar um comentário irónico, porque é só demasiado ridículo.

 

Todos os anos ouves falar das mortes que eu provoco e dos danos que eu causo à sociedade. Mas curiosamente nunca ouves falar da degradação sistemática e progressiva das condições de trabalho que se tem verificado nos hospitais e centros de saúde nos últimos anos. Não achas isso estranho? Não achas estranho que ministros, políticos e dirigentes hospitalares façam de mim o bode expiatório para a sua incompetência? Lembras-te da onda de calor do Verão do ano passado? Queres que eu te conte quantas pessoas morreram nos Hospitais à custa de golpes de calor, apesar de os políticos nos terem garantido que havia mecanismos de contingência prontos a entrar em actividade e que não existiram? Quantas notícias ouviste tu a falar sobre esse assunto? Com sorte, um décimo ou um vigésimo daquilo que ouves todos os anos sobre mim.


Eu percebo que mato gente e isso está errado. Mas podes ter a certeza que eu, gripe, mais do que um assassino implacável, sou uma desculpa extremamente confortável para justificar a incompetência sucessiva que caracteriza a classe política e de dirigentes hospitalares deste país. Eles vendem-vos a notícia de que o problema sou eu, com a conivência dos media, está claro, e vocês acreditam. Eu não vos culpo por acreditarem naquilo que eles vos dizem, porque na teoria eles não vos deviam mentir nem omitir a verdade. Com este texto só vos quero chamar a atenção que nem tudo o que ouvem sobre mim é verdade e agora já sabem o meu lado da história.

 

Ouçam, eu existo há muitos anos, muitos mais do que vocês possam imaginar. Matei muitas pessoas, uns anos mais, outros anos menos. Há cem anos atrás um primo meu dizimou 5% da população mundial. Por tudo isso percebo que me vejas com desconfiança e te queiras proteger de mim. Se o médico te recomendar a vacinação, vacina-te. Não vamos deixar de ser amigos por isso.

 

Mas quando fores ao Hospital e vires três médicos a atender 150 doentes, ou quando deres com o teu pai abandonado numa maca no meio de um corredor com dezenas de macas e apenas um enfermeiro a tomar conta de todos eles, lembra-te:

 

Eu, gripe, não tenho nada a ver com isso.

 

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