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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

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O pequeno-almoço de um médico (versão TVI vs versão vida real)

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Todos sabemos que as novelas da TVI (e os media no geral) gostam de representar os médicos como autênticos milionários que vivem vidas de luxo. Mansões à beira-mar, carros de luxo, viagens a destinos paradisíacos patrocinados pela indústria farmacêutica, tudo aquilo com que qualquer comum mortal sonha!

 

 

Apesar de todos sabermos que isso tudo é mentira, há um pormenor que me faz particular confusão nestas novelas: os pequenos-almoços! Ele há-de tudo, fruta, sumos frescos, brioches, uma selecção variada de queijos… Um autêntico deboche. Por isso mesmo, hoje vamos desfazer a crença de que os pequenos-almoços dos médicos são melhores que os dos comuns mortais.

 

Pequeno-almoço em casa de um médico

(versão novela da TVI)

 

O protagonista da novela, Dr. Jorge Ferreira de Andrade, levanta-se de manhã depois de uma noite revirogante de sono. Sai da sua suite com vista para o mar e desce para tomar o pequeno-almoço. Sentadas à mesa, na sala de jantar, já se encontram as quatro crianças, de nome Leonor, Carlota, Frederico e Alice, bem como a sua esposa Sofia, que apesar de não trabalhar está sempre impecavelmente vestida, maquilhada e de saltos altos. Todos o cumprimentam com um sorriso rasgado. A empregada, Guiomar, aproxima-se e diz:

 

- Bom dia, sôtor Ferreira de Andrade. Dormiu bem?

 

- Podia ter dormido melhor, Guiomar – responde o médico.

 

- Então porquê, sôtor?

 

Pausa para efeito dramático.

 

- Aquele caso ontem na clínica deixou-me muito transtornado – continua Jorge, a olhar para o infinito com ar cabisbaixo.

 

Sofia intervém:

 

- Amor, fizeste tudo o que podias pelo paciente! Não te podes culpar, não havia nada a fazer.

 

Guiomar regressa à conversa:

 

- O que deseja tomar para pequeno-almoço, sôtor?

 

- Olha Guiomar, hoje estou com pressa porque tenho uma reunião com o Conselho de Administração da Clínica às dez. Prepara-me por favor um banho quente e depois apenas um combinado de frutas frescas. Não gosto de tomar refeições muito pesadas antes de reuniões. Ah, outra coisa, pede ao Alfredo que esteja pronto para me levar à Clínica dentro de trinta minutos.

 

- Com certeza, sôtor.

 

Jorge senta-se no sofá com semblante carregado. Sofia aproxima-se e, enquanto lhe massaja os ombros, diz:

 

- Amor, não fiques assim! Não podes ir para o jantar de inauguração da nova clínica do grupo Ferreira de Andrade assim com essa cara!

 

- Eu sei, mas tu sabes bem como me custa perder um paciente.

 

- Claro que sei, amor. Olha, para te animar, vou pedir ao Alfredo que prepare os nossos cavalos para, quando regressarmos da clínica, darmos uma volta de cavalo pela herdade como fazíamos antigamente. Que te parece?

 

- Parece-me óptimo, amor. O que faria eu sem ti?

 

O casal beija-se apaixonadamente em frente à varanda com vista para o mar. Fim de cena.

 

 

Pequeno-almoço em casa de um médico

(vida real)

 

Sete da manhã. Jorge acorda estremunhado na cama, a sentir que lhe passou um camião por cima. Ainda não conseguiu recuperar da urgência que fez anteontem.

 

- Porra, adormeci! – exclama – Sofia, acorda!

 

- O que é, caraças? Não vês que hoje só entro à tarde no Centro de Saúde?! Deixa-me dormir!

 

- Ah pois é, desculpa!

 

Enquanto Sofia se vira para o outro lado da cama, Jorge levanta-se de mansinho, tentando por tudo não perturbar mais a companheira. Sai do quarto e vai acordando os miúdos, que, por morarem num T3, dormem distribuídos por dois beliches.

 

- João, Miguel, acordem! Vá, estamos a ficar atrasados.

 

Faz o mesmo no quarto das meninas.

 

- Joana, Inês, vamos acordar que já é tarde.

 

Depois de conseguir ter os miúdos todos a pé e vestidos, aproxima-se do frigorífico.

 

- O que querem comer?

 

- Pão com fiambre - responde um dos miúdos.

 

- Eu quero pão com queijo – responde uma das miúdas.

 

- Oh pá, é sempre pão com queijo! Porque é que hoje não pode ser pão com fiambre! É sempre como a Joana quer!

 

- Não é nada!

 

- “Não é nada!” – imita um dos miúdos.

 

- Pai, ele está a puxar-me os cabelos!!!

 

- Vá meninos, sosseguem. Quem quiser fiambre come fiambre, quem quiser queijo come queijo.

 

Depois de Jorge preparar as sandes, Joana diz:

 

- Afinal quero pão com fiambre como o Miguel…

 

- Então mas se querias pão com fiambre porque é que não disseste logo? – pergunta Jorge, já à beira de um ataque de nervos.

 

Depois de trocar o conteúdo da sandes, de engolir um iogurte líquido e dois cafés e perguntar três vezes a si próprio porque raio é que teve quatro filhos, finalmente Jorge consegue acabar de se vestir, sair com os miúdos de casa e pô-los no carro. Ao entrar no carro, leva as mãos à cabeça e exclama:

 

- Porra, esqueci-me de dar comida aos gatos!

 

- O pai disse uma asneira!!! – diz um dos miúdos.

 

- Isto não é bem uma asneira – responde Jorge.

 

- Então se não é uma asneira também posso dizer. Porra, porra, porra!

 

- Não é uma asneira mas tu não podes dizer! Só os adultos é que podem! Agora fiquem aqui sossegadinhos no carro que eu vou só lá acima pôr comida aos gatos e já volto.

 

Jorge sai do carro, sobe as escadas a correr, abre a porta, põe comida aos gatos, sai de casa, fecha a porta, desce as escadas a voar e entra no carro.

 

- Eu não acredito que já passa das oito da manhã... – diz para si, num suspiro.

 

Liga o rádio:

 

“Acessos condicionados devido ao mau tempo nesta manhã de quarta-feira, segunda circular com trânsito lento a partir da recta dos comandos da Amadora, eixo Norte-Sul com lentidão a partir de Pinamanique. O melhor acesso ainda vai sendo o IC-17, no entanto já com abrandamento a partir de Algés.”

 

- Bonito, só chego ao Hospital amanhã.

 

Depois de passar cerca de uma hora no trânsito, já a contar com o desvio para deixar os miúdos na escola, Jorge finalmente chega ao trabalho. Ao chegar, é confrontado logo com o chefe à entrada do Serviço.

 

- O teu horário de entrada é às nove, Jorge…

 

- Eu sei chefe, apanhei muito trânsito, desculpe lá.

 

Veste a bata, liga o computador e enquanto o computador arranca vai à máquina a correr buscar um café. Precisa de energia para enfrentar o dia que aí vem.

 

//

 

Sete da noite. O Jorge ainda está no Hospital, uma vez que por ter chegado atrasado, atrasou o trabalho todo do dia. Toca o telefone, é Sofia. Jorge atende com voz cansada.

 

- Estou?

 

- Posso saber porque é que o Miguel veio para casa com um bilhete da professora a dizer que o pai o tinha ensinado a dizer ‘porra’?!

 

Fim de cena.