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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Olá. O meu nome é Sarampo.

Olá. O meu nome é Sarampo e sou um vírus.

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Já ando por cá há algum tempo e tenho causado muitas infecções em seres humanos desde que existo. Antigamente quem me costumava contrair eram as crianças, nas quais eu provocava alguns sintomas chatos mas que geralmente eram auto-limitados e não deixavam grandes sequelas.

 

Apesar de ser raro, por vezes lá infectava algum adulto e aí a coisa piava mais fino. É que por alguma razão o sistema imunitário do adulto gosta menos de mim do que o da criança, logo, o estrago costumava ser maior e uma parte significativa dos adultos que me contraía podia passar mal, ficar com sequelas graves ou mesmo ir desta para melhor. É o que se costuma dizer, ninguém é perfeito, certo?

 

Mas entretanto os seres humanos fartaram-se de mim e quiseram erradicar-me do planeta. Para isso recorreram a uma arma que faz com que a esmagadora maioria das crianças e adultos que contacta comigo nem sequer tenha infecção: as vacinas. E durante algum tempo conseguiram diminuir o número de infecções causadas por mim, por momentos achei que ia ter o mesmo destino da Varíola ou da Poliomielite. Fiquei deveras preocupado.
 
Até que algum acéfalo se lembrou de espalhar pelo mundo que as vacinas faziam mal e ninguém as devia tomar. E não é que a ideia pegou?! Desta nem eu estava à espera. Ainda dizem que o ser humano não é o seu próprio pior inimigo. Rapidamente os pais começaram e deixar de vacinar as suas criancinhas e... Voilá! Estou de volta outra vez e ainda com mais força.
 
Mas agora vocês perguntam "Então mas oh Sarampo, se só consegues infectar quem não se vacinou rapidamente o teu surto vai acabar e esses acéfalos todos vão acabar por ir desta para melhor. Selecção natural, certo?"
 
Errado, meus caros amigos. Porque alguns seres humanos, mesmo tendo feito a vacina como mandam as normas, por algum motivo não conseguem desenvolver imunidade eficaz. Esses humanos são os que mais beneficiam daquilo a que se chama imunidade de grupo, ou seja, vacinar toda a gente de forma a que os mais vulneráveis não me contraiam.
 
Já viram a crueldade da ironia? Já viram o que é morrer ou ficar gravemente debilitado só porque alguns indivíduos que juntos acumulam um QI semelhante ao de uma lata de atum decidiram achar que as vacinas fazem mais mal do que bem?
 
A isto chama-se empreendedorismo. Vi uma oportunidade e aproveitei-a. Agora já ando a ser convidado pela tosse convulsa e pela rubéola para dar umas palestras, mas por agora quero matar mais uns quantos humanos que o mundo anda a ficar sobrepopulado. Depois logo se vê. 
 
Quero, por fim, agradecer a todos aqueles que possibilitaram o meu regresso em força.
 
Um bem-haja para vocês, acéfalos.
 
Um abraço,
 
Sarampo.
 
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