Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Omeprazol e homeoprazol: a história de dois irmãos

omeprazol e homeoprazol.png

 

 

Ranitidina e Sucralfato eram um casal feliz. Tinham os dois empregos muito parecidos, com a diferença de que ele trabalhava apenas durante 6 a 8 horas, e portanto tinha de ir trabalhar mais vezes, enquanto ela fazia turnos mais longos, geralmente de 12 horas, podendo, por isso, ficar mais dias em casa. A fase inicial do seu relacionamento foi algo conturbada, sobretudo devido à presença constante do ex-namorado de ranitidina, chamado Bismuto, um tipo com mau feitio que também trabalhava na área da secreção ácida do estômago. Bismuto era claramente menos eficaz na sua função do que Ranitidina, o que era fonte de muitos conflitos entre os dois enquanto mantiveram o seu conturbado relacionamento e que acabou por ser o principal motivo da sua separação. Quando Bismuto se arrependeu, Sucralfato já tinha "roubado", por assim dizer, a sua princesa encantada e estavam prestes a casar.

 

Pouco depois de se casarem, Ranitidina e Sucralfato tiveram o seu primeiro filho, um jovem chamado Omeprazol. Viria a tornar-se um jovem forte, atlético, determinado, tendo tido muito mais sucesso no ramo da inibição da secreção ácida do que os seus pais, facto que os orgulhava muito. Capaz de fazer turnos de 24 horas, Omeprazol era sistematicamente escolhido para as tarefas mais difíceis, como tratar gastrites ou esofagites erosivas ou mesmo ser co-adjuvante no tratamento de hemorragias digestivas altas. Tornou-se muito conhecido e famoso na área da protecção gástrica e por ser tão respeitado pelos restantes fármacos, acabou por ser o fundador de uma empresa denominada Inibidores da Bomba de Protões, LDA, à qual se juntaram os seus quatro primos, lansoprazol, pantoprazol, esomeprazol e rabeprazol.

 

Omeprazol não era o único filho do casal Ranitidina e Sucralfato. Pouco depois do nascimento do primeiro rebento, o casal Sucraltidina, como era conhecido entre os amigos, teve mais um filho, ao qual chamaram Homeoprazol. Infelizmente, desde logo pareceu que desta vez os deuses da farmacologia não tinham sido muito benevolentes para o casal, pois todas as características valorosas e admiráveis com que o primogénito Omeprazol havia sido brindado não tinham sido transmitidas de forma alguma a Homeoprazol. Era mais do que óbvio que o segundo filho do casal tinha um grave problema não só de desenvolvimento psico-motor mas também de temperamento. Nunca lhe tinha sido identificado qualquer tipo de propriedade farmacológica, estava constantemente a tentar denegrir o irmão e a dizer que ele é que fazia bem às pessoas e era globalmente gozado pelos restantes medicamentos, que lhe chamavam nomes maldosos como Placebo ou Água com Açúcar.

 

Talvez por esse motivo tenham Ranitidina e Sucralfato decidido proteger o pequeno Homeoprazol dos olhares jocosos e maledicências dos outros fármacos. Inclusivamente Omeprazol, por quem o irmão sentia uma inveja que faria Caim corar de vergonha, o tentava proteger. Chegou a entrar várias vezes em conflitos com os medicamentos que gozavam com o seu irmão à sua frente, tendo certamente o pior conflito sido com Clopidogrel, um fármaco anti-agregante com quem Omeprazol um dia se pegou, tendo criado uma inimizade que durou para sempre. Talvez por essa inimizade é que qualquer médico que saiba o que está a fazer sabe que nunca deve prescrever os dois fármacos em conjunto. Eles simplesmente não combinam.

 

Sim, rivalidades fraternas à parte, Omeprazol gostava de Homeoprazol. Sabia que ele era um autêntico inútil, verdade, mas gostava dele na mesma. E sabia também que cada vez que o irmão mais novo lhe chamava veneno e lhe dizia que ele era o poster boy do lobby farmacêutico, era certamente a inveja que falava mais alto. Acabava, cedo ou tarde, por perdoá-lo, até porque tinha coisas mais importantes para fazer. Dizia frequentemente que enquanto houvesse metaplasias intestinais de Barrett por tratar e Helicobacter pylori por erradicar, tudo isso era mais importante do que as bocas do irmão. Por vezes até o chegava a convidar para algum tratamento mais simples. E o irmão lá ia, coitado. Pouco fazia sem ser ver o seu irmão em acção, mas pronto, sentia-se útil também e isso era o mais importante.

 

Ao contrário do seu irmão mais velho, que precocemente abandonou o lar para ocupar a estante de uma qualquer farmácia do grupo Holon, demorou bastante tempo para que Homeoprazol saísse de casa dos pais. Apenas muito tempo depois do irmão sair, numa altura em que o QI global da população desceu inexplicavelmente vinte pontos e toda a gente começou a comprar produtos homeopáticos e naturopáticos, é que Homeoprazol conseguiu ir ocupar uma estante de uma daquelas clínicas manhosas de Medicina Holística, uma espécie de colégio para crianças com necessidades especiais onde se tentava dar alguma utilidade a este tipo de produtos problemáticos e inúteis. Foi naquela clínica que Homeoprazol conheceu alguns dos seus amigos mais próximos, como o Oscilococcinum, um rapaz filho de emigrantes ilegais que dizia curar gripes quase tão bem como um antibiótico, o Calcitrin, que dizia fortalecer os ossos dos velhinhos ao mesmo tempo que lhes esvaziava as carteiras e, não menos importante, o Cogumelo do Tempo, que andava por ali a pavonear-se gabando-se de aparecer com frequência na televisão, mas cuja função ninguém sabia bem qual era.

 

Um certo dia, Ranitidina e Sucralfato, já velhotes, decidiram reunir os dois filhos num almoço de família. Omeprazol foi o primeiro a chegar.

 

- Pai, mãe, há quanto tempo não vos via!

 

- Filho! Que saudades! - exclamou Ranitidina, enquanto corria para os braços de Omeprazol.

 

- Então, rapaz, que tens feito? - perguntou Sucralfato ao filho.

 

- Nada de diferente do costume, pai. Tratar gastrites, refluxos, ocasionalmente ajudar a matar um ou outro Helicobacter - respondeu Omeprazol.

 

- Ai filho, que orgulho que temos em ti! - disse a mãe, com uma lágrima no canto do olho.

 

- Ultimamente têm surgido uns estudos que dizem que eu ando a ser prescrito em demasia e que tenho mais efeitos adversos do que se imaginava, mas nada com a qual não consigamos lidar - referiu Omeprazol, com uma cara mais séria. Notava-se que aquele assunto o preocupava.

 

- Como assim? - perguntou o pai.

 

- Oh, sabes como é, os médicos prescrevem-me por tudo e por nada e, pior que isso, mantém os doentes indefinidamente a tomar-me sem motivo nenhum. É natural que mais cedo ou mais tarde alguém fosse notar os meus efeitos adversos. Mas nada com que se tenham de preocupar. Eu e os meus colaboradores na IBP, LDA estamos a lidar com o assunto da melhor forma.

 

Nisto, chegou Homeoprazol.

 

- Olááááááá - disse, enquanto se babava.

 

- Olá filho... - respondeu Ranitidina, sem grande entusiasmo.

 

- Então puto, estás a gostar de viver lá na Clínica da Banha da Cobra? - perguntou ironicamente Omeprazol.

 

- Não é Clínica da Banha da Cobra! É Clínica de Medicina Holística! Muito melhor que a Medicina Convencional e praticada há milénios pelos povos do Oriente! Inclui Homeopatia, Naturopatia, Medicina Tradicional Chinesa e Terapia de Biomagnetismo! E brevemente vamos abrir um departamento de Urinoterapia, onde as pessoas se vão curar fazendo xixi para cima umas das outras!

 

- Uau, que importante! Quanto tempo demoraste a decorar isso tudo? - questionou novamente Omeprazol.

 

- Vá, não sejas assim para o teu irmão. Conta-nos o que tens feito, filho - rematou Sucralfato.

 

- Olha pai, tenho feito muitas coisas importantes! Já curei gastrites, depressões, cancros e até a SIDA, só que ninguém quer saber!

 

- A sério? E onde estão os estudos que comprovam isso tudo que estás a dizer, filho?

 

- Ainda bem que perguntas, pai. Aqui os tenho - respondeu Homeoprazol, enquanto atirava uma série de papéis para cima do pai.

 

- Oh filho... Isto são só rabiscos desenhados em guardanapos de papel - disse Sucralfato, após olhar para os papéis.

 

- Ai é? Ai é? Pelo menos não são estudos comprados pelas empresas farmacêuticas, como os estudos que o Omeprazol vos traz para casa! - retorquiu Homeoprazol.

 

- Pronto, logo vi que isto tinha de cair para cima de mim - suspirou o irmão mais velho.

 

- Vá, vá, não comecem já a discutir. Vamos mas é comer, fiz rolo de carne e já está a ficar frio - disse Ranitidina.

 

- Ena pá! Rolo de carne! O meu preferido! Lá na Clínica só nos deixam comer comida paleo sem glúten, sem lactose e beber água alcalina - gritou Homeoprazol, desatando depois a correr de forma desengonçada para a cozinha.

 

- Ele... Ele tem os atacadores dos sapatos desapertados. Daqui a um bocado ainda cai e bate com a cabeça - disse Omeprazol.

 

Sucralfato chegou-se ao ouvido do filho mais velho e sussurou:

 

- Deixa. Ele nunca chegou a aprender a atar os atacadores. 

 

Pai e filho olharam um para o outro e soltaram em conjunto um suspiro de consternação. Ia ser um almoço longo.

  • Comentar:

    Mais

    Comentar via SAPO Blogs

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.