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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Os cinco mitos mais irritantes em Medicina

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Fazer Medicina não implica apenas tratar pessoas. Por vezes é necessário lidar com as expectativas e crenças do doente ou familiares, bem como desmistificar alguns mitos que perduram desde o tempo da outra senhora.

Por exemplo, eu próprio quando era mais novo e sem ter nenhum médico na família cheguei a acreditar em muitas das coisas que ouvia a minha avó dizer. Um exemplo é o mítico xarope de cenoura. É docinho e sabe bem, lá isso sabe, mas o seu efeito anti-tússico roça o QI dos participantes do "Casados de Fresco".

 

Todas as profissões têm os seus mitos, é certo. Será que os polícias gostam assim tanto de Donuts? Será que o carteiro toca sempre duas vezes? Tudo questões existenciais. Mas na Medicina parece que os mitos ganham vida própria e às vezes damos por nós a ter de convencer cada doente e respectiva família que nos aparece à frente na urgência que aquilo em que eles acreditam não faz sentido. Mas será que não faz? Diz-se que a maioria geralmente está certa. E a maioria das pessoas diz 'espirros' e não 'esternutos'. Então, por essa ordem de ideias, será que eles é que estão certos e nós é que temos andado a dizer mal estes anos todos? Estas são as questões que me mantém acordado à noite.

 

O que vamos falar aqui não tem nada a ver com isso. Vamos falar daqueles mitos que não têm cabimento nenhum e que têm de ser abandonados o mais rapidamente possível. Aquelas ideias nas quais já ninguém devia acreditar. Os cinco mitos mais irritantes em Medicina.

 

"37 para mim já é febre"

 

OK, vamos já endereçar o elefante na sala. 37ºC não é febre. Ponto final parágrafo. Acabou a conversa. E isto não é debatível. Não vale a pena vir dizer que a sua temperatura habitual é 34ºC e portanto 37ºC já é febre para si. Não há uma definição pessoal de febre. A febre não é uma preferência política ou um clube de futebol, em que cada um tem o seu. Febre é definida como uma temperatura corporal acima de 38.3ºC. Vá, nós profissionais de saúde somos mais liberais e consideramos que acima de 38ºC o doente já está febril. Mas isto é só porque somos uns porreiros e sabemos que estar com febre é chato para os doentes, por isso não deixamos que chegue aos 38.3ºC! Mas em boa verdade devíamos! E este assunto já está arrumado desde o tempo de Hipócrates, ou seja há quase 2500 anos atrás. Porque raio é que em 2018 ainda debatemos este assunto como se isto fosse um tema ainda em actualização ou como se existissem equipas de investigação ainda a determinar o que é que é febre ou não? Garanto-vos que em 2058 o conceito de febre vai ser exactamente o mesmo que é hoje. Se eu estiver errado, ou seja, se em 2058 o conceito de febre for alguma coisa ridícula como "Febre é um conceito subjectivo, depende de doente para doente, blá blá blá", eu prometo que pago uma rodada a toda a gente. E note-se que eu só estou a prometer isto porque tenho a certeza que a fazer urgências a este ritmo em 2058 já estou morto e enterrado.

 

Apenas mais dois conceitos em relação à febre:

1) Febre interior não existe.

2) Pôr a mão na cabeça não é um método fidedigno para determinar a temperatura de ninguém. A temperatura mede-se com um termómetro na axila, no ouvido (e atenção que aqui o limite para se chamar febre sobre 0.5ºC!) ou no rabiosque. É à escolha do freguês.

 

Antibióticos para as "viroses"

 

Outro conceito nefasto para a saúde em Portugal. A ideia de que um resfriado se trata com antibiótico. A noção de que uma faringite viral tem obrigatoriamente de merecer uma injecção de penicilina no rabo. Portugal é dos países da União Europeia com maior taxa de resistência a antimicrobianos e em que o uso de antibióticos de largo espectro é mais indiscriminado. E mesmo sabendo que o motivo para isso não se cinge apenas a este facto, a verdade é que o problema começa logo aqui. No papá e na mamã que quase obrigam o pediatra a passar o xarope de Clamoxyl ao menino com uma faringite que começou há doze horas. Ou à senhora que está há dois dias com uma tosse e mialgias e decide tomar o resto da embalagem de levofloxacina que o marido deixou há um mês quando teve uma pneumonia.

 

Mas entenda-se: longe de mim dizer que a culpa da resistência aos antimicrobianos é dos doentes. A culpa é nossa, profissionais de saúde, que perpetuamos este mito e que muitas vezes cedemos à pressão ou ao bullying que é feito sobre nós no Serviço de Urgência para prescrever antibióticos. Às vezes é preciso perder tempo a ensinar as pessoas, explicar-lhes porque é que não faz sentido receitar um antibiótico naquele momento mas que estamos dispostos a reavaliar a situação dentro de 48 horas se o quadro não melhorar. Outras vezes fazemos tudo bem, explicamos à pessoa, ela parece entender, depois chega à Farmácia e diz "O sacana do médico não me passou o antibiótico que eu queria! Eu tive exactamente a mesma coisa há um mês, fiz antibiótico e fiquei bem! Porque é que ele agora não mo receitou?". E o sôtor da Farmácia, que até conhece tão bem o doente e a família, faz o jeitinho e lá vai o doente com o seu 'biótico' para casa, feliz da vida. Isto acontece em Portugal. É triste, é chocante, mas é real.

 

Os antibióticos são perigosos, senhoras e senhores. Foram um marco importantíssimo na história da Medicina, permitiram-nos salvar incontáveis vidas e estamos-lhes muito gratos. Mas em breve irão tornar-se o nosso pior inimigo se não os usarmos com moderação.

 

A alergia à penicilina

 

Já o disse antes e volto a dizer: se eu ganhasse um euro por cada pessoa que me diz que é alérgica à penicilina só porque em mil nove e oitenta e sete foi à urgência, fez uma injecção que acha que era penicilina e sentiu-se muito mal a seguir, eu juro que ia ganhar tanto dinheiro que nunca mais metia os pés na urgência. Talvez até entrasse na lista da Forbes dos mais ricos de Portugal.

 

E o problema é que depois nós ficamos numa situação complicada porque não sabemos se efectivamente o doente é alérgico ou não à pobre da penicilina e temos que estar a ir à pressa ao Uptodate para saber com o que é que o podemos medicar. É chato. Regra geral: se você tomou uma injecção intramuscular de penicilina e, minutos a horas depois, desenvolveu um rash cutâneo com muito prurido, ficou com a cara, lábios e língua muito inchadas, com dificuldade em respirar, se vomitou copiosamente depois de lhe ser administrado o fármaco... Provavelmente você será alérgico ou intolerante à penicilina. Por outro lado, se levou a injecção e ficou-lhe a doer muito na zona do rabo onde foi picado, se estava ansioso e a respirar a 40 ciclos por minuto e com isso teve um piripaque e desmaiou no exacto momento em que lhe estavam a dar a injecção... O mais provável é você NÃO ser alérgico à penicilina.

 

Pobre penicilina. Salvou tanta gente nos anos 40 e 50 e agora toda a gente é alérgica. Faz lembrar a situação do glúten, só que muito menos irritante.

 

As congestões

 

OK, eu admito que este talvez não seja dos mitos mais difundidos na população. Ainda assim, vou incluí-lo nesta lista porque só Deus sabe o que sofri com isto quando era miúdo. No fundo, é aquela ideia de que depois de comer há uma série de coisas que não se podem fazer, sob o risco de poder provocar uma das situações mais letais e perigosas que pode ocorrer a um ser humano: a paragem de digestão, também conhecida de... Congestão! (inserir música assustadora aqui)

 

Uma das crenças mais vincadas no imaginário da população é a ideia de que depois de comer não se pode tomar banho, comer coisas frias, cortar o cabelo, fazer a barba ou até cortar as unhas. Porquê? Porque qualquer um destes actos vai interferir com o normal processo da digestão, interrompendo-a e, ao fazê-lo, provocar uma plétora de eventos prejudiciais à saúde que podem ir desde a má disposição até à morte súbita. A sério, eu sofri mesmo com isto quando era miúdo. Ainda me lembro da minha avó me contar a história do menino que comeu uma ameixa, a seguir foi nadar para a piscina e já não saiu de lá. E o terror que essa história me causava! Por isso mesmo eu era o primeiro a respeitar o limite de segurança para entrar na água depois de comer, o número mágico: as três horas. Como se a digestão não fosse um processo que demora à vontade umas 24 horas.

 

Atenção, não me interpretem mal! Se comerem três pratos de cozido à portuguesa, com uma garrafinha de vinho tinto a acompanhar e a seguir forem nadar para o Guincho é provável que a coisa corra mal. Agora daí a "Oops, acabei de comer um iogurte, agora só posso cortar as unhas amanhã" vai uma longa distância. Ninguém gosta de estar a fazer uma gasimetria e constatar que o doente tem uma unha do mindinho à Zé Manel Taxista. É horrível e nojento. Por favor cortem as unhas, antes ou depois de comer, não importa. Mas cortem-nas.

 

As paragens cardio-respiratórias

 

Por último, mas não menos importante, importa falar aqui de toda aquela dinâmica de roçar as pás do desfibrilhador uma na outra antes de administrar o choque. Mas o que raio é isto? De onde é que isto vem? Será que isto tem algum fundamento físico ou eléctrico por trás que me esteja a escapar? Eu admito que não sei como funcionavam os desfibrilhadores antigamente, por isso se alguém da velha guarda me souber responder a esta pergunta, agradeço do fundo do coração.

 

O meu palpite é que este acto de esfregar as pás foi uma importação de Hollywood. Imaginem-se num filme em que um doente está na sala de emergência em paragem cardio-respiratória. Para aumentar o dramatismo da cena, o médico roçava as pás uma na outra antes de dizer, alto e bom som e de forma dramática, "Clear!" e administrar o choque a um doente com assistolia (o que por si só merecia toda uma dissertação). De seguida ninguém reiniciava compressões torácicas, olhavam todos para o monitor durante longos e dilacerantes segundos antes de concluir que, de forma não surpreendente atendendo a que a assistolia é um ritmo não desfibrilhável, o doente não tinha recuperado pulso. "Hora do óbito, 8h25", dizia o médico perante o olhar cabisbaixo dos restantes elementos da equipa, concluindo assim esta montanha-russa emocional que só Hollywood nos consegue proporcionar.

 

Mas agora a sério, a equipa do Pérolas da Urgência acredita que deveria fazer parte das competências básicas de qualquer cidadão saber administrar suporte básico de vida de qualidade com desfibrilhador automático externo. Por isto e por acreditarmos que a ignorância é o maior inimigo do ser humano, vamos fazer aqui um breve momento didático: não esfreguem as pás do desfibrilhador uma na outra. Só vão estar a perder tempo (e acreditem que nas situações de paragem cardio-respiratória cada segundo conta) e arriscam-se a colar uma pá na outra (uma vez que muitas das pás utilizadas hoje em dia são auto-adesivas) e com isso fazer uma valente bodega. É simples, colar as pás no tórax do doente, esperar que a máquina leia o ritmo e administrar o choque se for indicado. It's not rocket science, people.

 

E pronto, estes são os mitos que mais me irritam em Medicina. Haverá outros, muitos mais certamente, mas tinha que me cingir a cinco senão nem daqui a um ano acabo o relatório que tenho para fazer. Quais são os mitos que mais vos irritam? Digam de vossa justiça na caixa de comentários. Cumprimentos a todos e lembrem-se:

 

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