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Os exames orais deviam ser proibidos

Olá a todos e a todas. Depois de um parto difícil o canudo de especialista já cá canta. Que é o mesmo que dizer que as responsabilidades duplicam e o ordenado... Nem por isso! Ah, a vida é bela!

Mas deixemo-nos disso. Depois deste exame que me tirou umas duas décadas de vida, decidi partilhar aqui hoje convosco a minha opinião sobre uma praga com a qual temos vindo a lidar desde o início da nossa formação académica: os exames orais.

 

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Quem os defende diz que o exames orais são de grande importância para nos ensinarem a lidar o stress e a treinar as nossas capacidades de comunicação com outros seres humanos. Pois bem, amigos e amigas, eu estou aqui para vos dizer que isso é tudo peta. Para mal dos meus pecados, faço exames orais com alguma regularidade desde há uns doze anos e hoje posso-vos dizer com toda a propriedade que aquilo que ganhei com este tipo de exames foi mais ou menos o mesmo que ganhei em sair mais tarde 90% dos dias de trabalho.


Ou seja, nada.

 

1 - São provavelmente a forma mais injusta de avaliar um candidato

 

Todos conhecemos aquele tipo que pode não fazer ideia do que está a falar, mas por ter uma grande lábia safa-se sempre à grande nas orais. Também conhecemos aquela pobre coitada que se farta de estudar e até sabe as coisas, mas como é tímida e introvertida chega aos exames orais e dá a sensação que não sabe. Todos ouvimos a história daquele professor rebarbado da faculdade que dá notas inversamente proporcionais ao tamanho da saia e directamente proporcionais ao tamanho do decote. E o contrário também é verdade, ou seja, também há aqueles (felizmente cada vez menos frequentes) que ainda acham que determinadas especialidades não são para mulheres e correm as alunas todas a doze. Enfim, há-de tudo. E é inevitável que assim seja. Afinal, o ser humano é um animal intrinsecamente aldrabão, ou seja, colocar o poder de decisão sobre a vida académica de alguém nas mãos de uma pessoa é, no mínimo, injusto.

 

2 - Dão muito menos trabalho

 

Estão a ver aquelas faculdades de Medicina e aqueles internatos que gastam imenso dinheiro aos contribuintes e com quem toda a gente agora se preocupa? Pois bem, uma vez que mais de metade das pessoas responsáveis pela formação de internos e alunos nas universidades e hospitais fazem-no pro bono ou a um preço simbólico, é fácil perceber que dá muito mais jeito "pagar" a alguém para fazer meia dúzia de perguntas de quando em vez a uns quantos candidatos, do que "pagar" a esse mesmo alguém para elaborar um teste escrito e, cruzes credo, ter de o corrigir depois. Já para não falar na quantidade de papel e toners que se gastam no processo. E a canseira de ter de pensar em perguntas novas todos os anos ou semestres. Não pode ser! Por isso é que pelo menos no meu tempo havia umas quantas cadeiras cujo exame era igual todos os anos. Os alunos agradeciam, isso é certo. Agora, qualidade formativa? Nem vê-la.

 

3 - Não se pode avaliar um aluno de Medicina em exames de escolhas múltiplas.

 

Pronto, aqui eu até percebo. Afinal, quem é que se ia lembrar de fazer um único exame de escolhas múltiplas baseado num único livro para decidir o futuro académico ou profissional de centenas de médicos e médicas, não é? Não faz sentido nenhum. OK, ironias à parte, eu sei que não se deve falar dos defuntos, mas o Harrison, com todos os defeitos que tinha (e se é que os tinha), pelo menos tinha uma coisa que os exames orais não têm: era igual para todos. Era injusto? Claro que sim. É ridículo obrigar os alunos a penar seis anos de faculdade para depois a média de faculdade não contar para absolutamente nada? Sem dúvida. Mas uma coisa é certa: podias ir com a saia mais curta do teu guarda-roupa, ou podias ser filho do Dr. Sampaio Miranda, pouco interessava. No fim, eras avaliado como todos os outros. Há cerca de oitocentas e quarenta e três outras formas mais justas que o Harrison para se avaliar a qualidade de um recém-formado em Medicina, sem dúvida. Mas uma coisa é certa, e digo isto as vezes que forem precisas, um exame de escolha múltipla é, sempre foi e sempre será mais justo do que qualquer exame oral. E se há cadeiras ou temas que não é possível avaliar por escolha múltipla, também foi para isso que Deus criou as perguntas de desenvolvimento.

 

4 - "Ah mas um médico precisa de saber gerir o stress e comunicar bem com outras pessoas!"

Amigos e amigas, volto a dizer: eu fiz dezenas de exames orais durante a faculdade e posso dizer que quando me defrontei com o meu primeiro edema agudo do pulmão à séria, no meu ano longínquo de IAC, borrei-me todo na mesma. Nada teria sido diferente, tivesse eu feito zero, um ou mil exames orais durante o meu percurso formativo. O stress faz parte da nossa profissão, porra! Lidamos com pessoas doentes! Umas mais, outras menos, mas todas doentes, nem que seja só da cabeça. Uma decisão mal tomada pode ser sinónimo de consequências sérias para doentes, família e para nós próprios! A única forma de aliviar o stress é lidar com ele de frente! É ver doentes, ver muitos doentes. É assistir a situações horríveis, é errar às vezes, é ter sucesso noutras! É ficarmo-nos a sentir uma valente trampa quando fazemos asneira, ou ficarmos no topo do mundo quando fazemos a diferença na vida de alguém. E com o tempo, aquela angústia de não saber o que fazer com o doente à nossa frente vai-se transformando em confiança, sempre com respeito pela insignificância do nosso conhecimento em relação à vastidão da Medicina.

 

E o mesmo se aplica em relação a saber comunicar com os doentes. Qualquer especialista em comunicação na área da saúde vos dirá aquilo que eu vos vou dizer: ninguém nasce a saber comunicar. Uns têm mais jeito que outros, é verdade, mas a comunicação com doentes, familiares e colegas é uma arte que se aprimora com a prática. É uma técnica que se desenvolve ao longo do tempo. Certamente não é a falar do esternocleidomastoideu que se aprende a comunicar. E de certeza que não se aprende a lidar com o stress quando estamos prestes a ter uma lipotímia naquele momento em que, por azar, nos perguntam justamente aquele tema que não estudámos tão bem e acabámos de nos aperceber que, não só chumbámos ou tirámos uma nota baixa, como vamos ser humilhados e sair do exame com a nossa auto-estima feita em trapos. Lembrem-se, aquele onze que vocês tiraram naquela longínqua cadeira da faculdade que detestaram já lá vai. Está enterrado no meio das milhentas cadeiras das quais gostaram e se saíram bem. Mas se esse onze foi o resultado de uma oral em que o professor vos fez duas ou três perguntas que vocês não sabiam tão bem, depois com os nervos a coisa bloqueou e no fim levaram o onze só porque responderam qualquer coisa ou desataram a chorar no meio do exame, essa humilhação fica. E deixa marcas. Ou se esse mesmo onze foi o resultado do facto de terem tido um filho da mãe de um examinador que não foi com a vossa cara e vos fez a vida num inferno, essa raiva fica também. E deixa marcas.

 

Amigos e amigas, os tempos do Vasquinho da Anatomia e do esternocleidomastoideu já passaram. Nessa altura morria-se de apendicite, agora, regra geral, já não. Se a Medicina evoluiu, porque é que a forma de avaliar o conhecimento em Medicina não evolui também?

 

 

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