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Os oito tipos de médicos da urgência

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Se há sítio onde garantidamente vamos ter a oportunidade de trabalhar com todo o tipo de pessoas, esse sítio é a urgência. Teoricamente destinada a mestres da Medicina com nervos de aço e sangue frio, mas na prática frequentada essencialmente por IAC's, internos e alguns especialistas que, com muito altruísmo e amor à Medicina, vão continuando a aguentar o barco. Este artigo vai-te ajudar a saber quais são os diferentes tipos de médicos com que te podes cruzar na urgência, como profissional ou como utente.

Destaco que, no meu entender, cada um de nós tem pelo menos dois destas oito características dentro de si. E destaco também que este artigo não serve para rebaixar nenhum dos tipos de médicos que aqui são descritos, uma vez que todos são importantes para o bom funcionamento da urgência e blá blá blá. Deixem-se de Nestunzices, por favor.

 

O corta-relvas


     Começamos por aquele colega que só gosta de ver doentes com pulseira verde. Amigdalites às três da manhã? Dores de costas há três meses? Nada temam, o corta-relvas está aqui para resolver a situação. Não lhe peçam para tratar cetoacidoses diabéticas, mas lombalgias ele resolve como ninguém. Pede poucos exames complementares de diagnóstico e por isso geralmente é bastante amado pelas administrações hospitalares.


O ceifeiro aka Cereal killer


     Este colega tem um gosto particular por doentes amarelos. Dores de barriga com vómitos e febre, tosse produtiva com toracalgia... É este o domínio do cereal killer. É no meio dos amarelos que ele se sente realizado. Sabe que no grande saco dos doentes amarelos cabem aqueles verdes que gemeram com um pouco mais de sentimento na triagem, mas também aqueles doentes que se não forem apanhados a tempo passam a ser laranjas. E ninguém os apanha melhor que o ceifeiro.


O Rambo

 

     O Rambo acha sempre que está num cenário de guerra. Os laranjas são dele. Calça as botas da tropa e lá vai ele. Politraumatizados, edemas agudos do pulmão, precordialgias - é ele que domina os doentes que fazem os outros tremer. Curiosamente, a maior fraqueza do Rambo são os doentes com pulseira verde. É que para o Rambo todos os doentes que vão à urgência têm de estar em risco de vida, e tal como o soldado que volta da guerra e não se consegue adaptar à vida normal, também o Rambo não consegue ver nenhum doente sem o carro de reanimação por perto.


O escondidinho


     Este médico é talvez o menos amado de todos. É daqueles colegas que não gosta muito de fazer urgência e está lá só porque é obrigado. Geralmente ninguém sabe bem onde é que ele anda durante a urgência, diz que vai só comer qualquer coisa rápido e fica duas horas sem aparecer, esse tipo de coisas. E quando aparece, faz uma cara de quem está cheio de trabalho, para que os outros não reparem que na verdade ele está a ver o mesmo doente há duas horas. No entanto, temos de ter um pouco de paciência para o escondidinho, porque na verdade todos nós já passámos por essa fase. Quem não se lembra de ser IAC e passar as primeiras urgências a rezar para que ninguém reparasse que nós ali estávamos e nos obrigar a ver doentes? Todos nós já tivemos um escondidinho dentro de nós. Figurativamente, quero eu dizer.


O Dalai Lama


     A personificação da paz de espírito. Independentemente do caos que se gere à sua volta, o Dalai Lama tem sempre um sorriso sereno e impenetrável no rosto. Nada é capaz de o fazer perder a calma. Transmite tranquilidade aos colegas, aos doentes e, mais importante que isso, aos familiares. Não é muito habitual aparecer um Dalai Lama, por isso é que geralmente são bastante estimados pelos restantes colegas. Se tiveres um Dalai Lama na tua equipa, conserva-o bem.


O fósforo


     Este colega é o oposto do anterior. É aquele médico que até pode começar a urgência calmo, mas à medida que a noite vai avançando vai perdendo a paciência. De repente quando se ouve no meio da urgência alguém a gritar "você acha que isso é razão para vir à urgência às três da manhã?", geralmente é o fósforo o responsável. Acaba metade das urgências a chamar o segurança para não ser agredido por uma família de ciganos, ou então com alguém a pedir-lhe o nome e a ameaçar que vai escrever no livro de reclamações. Tal como no caso do escondidinho, também temos de ter paciência com este tipo de colegas. Até porque dependendo da hora ou do nosso estado de espírito, todos temos um fósforo dentro de nós. Neste caso literalmente, porque todos nós temos fósforo dentro de nós. O ião, entenda-se.


O Speedy Gonzalez


     É o mais rápido do pedaço. Vê cinco doentes enquanto os outros vêm um, despacha imensa gente e por isso é muito estimado pelos colegas. Uma anamnese que dure mais de cinco minutos já é uma eternidade para o Speedy Gonzalez. Segue a regra do KISS (keep it simple, stupid) e os registos dele são telegráficos. Não é a mente mais brilhante da equipa e vacila nos casos mais complexos, ainda assim é um elemento importante da equipa.


O paparazzi


     Por fim, o paparazzi é aquele colega que quer sempre ficar com os casos que mais ninguém quer. Quanto mais escabrosos e escandalosos, melhor. O senhor casado de meia idade que foi à casa de meninas e agora tem um corrimento estranho nas partes pudendas? Ou a menina que escorregou e aterrou em cima do comando da televisão? É mesmo desses casos que ele gosta. E os colegas agradecem.

 

     E pronto, são estes os oito tipos de médicos do Serviço de Urgência? Com qual é que te identificas? Achas que falta aqui algum? Comenta e pode ser que um dia eu tenha tempo de vir ler os comentários, talvez quando conseguir dormir mais de seis horas por noite. Ou seja, lá para 2048.

 

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