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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

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Resoluções de ano novo (que nenhum de nós vai cumprir)

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O ano de 2018 está a chegar ao fim e, portanto, não podia aqui faltar o artigo da praxe sobre as nossas resoluções para o ano que se aproxima. Aquelas promessas que fazemos a nós próprios e que acreditamos mesmo que vamos cumprir, mas das quais desistimos ainda antes de as doze passas atingirem o nosso ângulo de Treitz.

 

Por isso mesmo cabe-me a mim elaborar a lista das resoluções de ano novo que todo e qualquer médico ou médica faz a si mesmo quando se aproximam as doze badaladas, mas com um grande spoiler que desde já partilho convosco: provavelmente não as vamos cumprir.

 

Menos noites fora de casa

 

“Eh pá, este ano passei metade das noites fora de casa. Entre urgências, prevenções, residências e o ocasional banco no privado perdi os primeiros passos do Miguel e não fui ao recital de ballet da Rita”!


No fim do ano pensamos todos isto, com uma lágrima solitária que escorre pelo nosso rosto cansado. Lágrima essa de tristeza, no entanto com um misto de alegria porque ninguém tem pachorra para recitais de ballet. Prometemos a nós mesmos que isto tem que mudar, que já não temos idade para isto, ou que somos demasiado novos para gastar os nossos bons anos a trabalhar, mas a verdade é que todos os anos a cantiga é a mesma. Ou é porque somos solteiros e queremos mimar-nos com uma singela viagem a um destino tropical que nos faça esquecer a nossa existência miserável, mas que nos deixe ao fim de oito dias de barriga para o ar a ansiar por tratar uma cólica renal ou abrir um abdómen. Ou é porque temos filhos e entre rendas de casa e mensalidades de colégios, sobra-nos pouco mais do que uns trocos que nem chegam para mandar a Maria Leal cantar o “Dialetos de ternura”.

 

Se o mundo fosse justo nenhum de nós devia precisar de trabalhar em mais do que um sítio para sobreviver. Infelizmente não é. E duvido que algo mude de forma significativa em 2019, portanto vamos simplesmente aceitar que teremos de continuar a passar uma proporção significativa de noites fora do conforto do nosso lar. Tentemos apenas que essa proporção não ultrapasse os 33%. Parece-me uma meta possível de alcançar, não?

 

Menos cortes

 

E com cortes não me refiro a incisões. Calma, internos de cirurgia, que bem sei que alguns de vocês estão à rasca para cumprir os vossos objectivos curriculares! (Não se ralem, daqui a uns anos quando os defensores do aumento dos numerus clausus derem de caras com um cirurgião que lhes diz “Boa noite, o meu nome é Nuno Meireles e sou o seu cirurgião. Você tem uma apendicite e vai ter de ser operado. Mas não se preocupe, durante o meu internato fiz este procedimento três vezes e correu quase sempre bem! As chances estão do seu lado!”, nessa altura pode ser que mudem de opinião.)


Não, de facto estou a referir-me a cortes do tipo “hoje não dá para ir sair, estou muito cansada” ou “vão vocês ao cinema sem mim, estou de saída de banco”! Quantas vezes é que cada um de nós este ano se cortou a múltiplos eventos por nos encontrarmos demasiado extenuados das lides médicas nocturnas? Muitas, diria eu. E não estou a falar do aniversário da tia-avó Elisabete, ao qual nos iríamos cortar estivéssemos ou não de saída, estou a falar de coisas verdadeiramente interessantes. Um cinema? Um jantar de amigos? Uma ida ao NOS Alive? OK, esqueçam este último exemplo, até porque qualquer pessoa com um QI superior ao de uma alface prefere aturar velhinhas do que aturar duas horas de Bon Iver ou Vampire Weekend.

 

(Brincadeirinha, não tenho nada contra nenhuma destas bandas. Inclusivamente tive de ir ver ao site o cartaz do ano passado e concluí que conhecia menos de 5% de todos os grupos que lá actuaram, o que diz muito sobre a minha cultura musical.)

 

Eu sei que não é fácil estar presente em todos os momentos importantes, sobretudo se a resolução anterior de “menos noites fora de casa” não se concretizar. Mas vamos fazer um esforço conjunto, pode ser? Vamos tentar cortar-nos menos aos eventos, para não nos tornarmos nuns velhos e velhas amargos/as que dizem “no meu tempo é que era, não é como agora que estes médicos mais novos não querem trabalhar”, enquanto um enfermeiro do Lar nos leva pela mão para o nosso quarto e nos prepara a quetiapina da noite. Pode ser?

 

Menos jornalixo

 

Quando digo “menos jornalixo” não me refiro necessariamente à quantidade de jornalismo medíocre tipo “500 euros à hora” que se produz neste país. Até porque isso está fora do nosso controlo, com muita pena minha. Refiro-me à quantidade de atenção que damos a esse mesmo jornalixo.

 

Portugal é no global um país mal resolvido com a classe médica. O porquê eu não sei, penso que se poderá dever a excessos do passado, ou ao facto de todo e qualquer um de nós conhecer alguém que tinha um filho ou sobrinho que queria entrar em Medicina e não conseguiu.

 

(E se repararem, este tipo de gente nunca diz “Ai eu queria tanto entrar em Medicina e não consegui!”. É sempre “Ai o meu sobrinho Ruben queria tanto entrar em Medicina mas acabou o secundário com média de 16”. Nunca querem ser eles os médicos, querem sempre é que os filhos, netos ou sobrinhos o sejam. São espertos e sabem que trabalhar faz calos. Portanto porque não gozar do estatuto social de “familiar de sôtor” sem as noites mal dormidas ou os insultos na urgência? Podem dizer o que quiserem, mas o tuga é um bicho esperto.)

 

Independentemente dos motivos, a verdade é que ainda se nota muito rancor e ódio por parte do tuga médio à classe médica (felizmente cada vez menos). E os media aproveitam isso como ninguém. Toda a gente sabe que a manchete “Médico apanhado a dormir durante o seu turno” vende muito mais do que “Morreram quatro pessoas em Borba e não se apuraram responsabilidades”. E se formos ler os comentários dessas mesmas manchetes nas redes sociais, aí é que a esperança na raça humana cai para próximo de zero.

 

Por isso rogo-vos, não percam tempo com quem não interessa! Vozes de burro não chegam ao céu e nós temos mais do que fazer do que aturar comentários bacocos de quem nunca trabalhou uma única noite, feriado ou fim-de-semana na vida. Vai sempre existir gente que nos odeia e que acha que somos uma corja, os media vão aproveitar sempre qualquer oportunidade para manchar a nossa imagem na comunicação pública. Não podemos controlar isso. Aquilo que podemos controlar é a forma como deixamos que isso nos afecte. Vamos tentar todos fazer ouvidos de mercador a esse tipo de vozinhas e fazer o melhor que podemos e sabemos pelos nossos doentes. Se o fizermos eles vão reconhecer o nosso valor e isso é o que importa.

 

Mais exercício

 

OK, aqui é que a porca torce o rabo, não é? Isto de trabalhar menos e sair mais de casa é tudo muito bonito, mas este tópico é aquele que nos toca mais fundo. E com alguma razão. Quem de nós não está inscrito em nenhum ginásio? E quantos de nós é que lá pusemos os pés mais de dez vezes no último ano? Se se sentem culpados, têm razão para isso. Mas quero que saibam que não estão sozinhos. A quantidade de profissionais de saúde que gastam o seu precioso dinheirinho em mensalidades em ginásios e nunca lá aparecem é abismal.


A regra é simples: na véspera de urgência não podemos ir ao ginásio senão no dia a seguir ficamos muito cansados e com dores e isso pode comprometer o nosso desempenho enquanto tratamos as velhinhas com tonturas no SU. No dia da urgência muito menos, até porque muitos de nós trabalham 24 horas de seguida. E no dia a seguir à urgência estamos demasiado cansados e temos é que ficar em casa a recuperar. Ora, como a nossa vida é um ciclo infindável de vésperas de urgência, dias de urgência e saídas de urgência que se repetem em loop ininterrupto, está explicado porque é que só vamos ao ginásio uma vez por mês.

 

A propósito, é engraçado que este loop que descrevi também se aplica às dietas que tentamos de forma infrutífera começar. No primeiro dia estamos todos muito motivados, é só saladinha de alface para aqui e frutos secos para aculá. Mas no dia a seguir é véspera de urgência e isso deixa-nos deprimidos. Até que vemos aquele geladinho da Häagen-Dazs no congelador e não resistimos à tentação. “Foi só uma vez sem exemplo”, dizemos nós enquanto limpamos os nossos lábios cheios de restos de Stracciatella ao guardanapo. No dia a seguir, dia de urgência, a nossa depressão atinge o pico. E para lidar com o terror de ir passar doze horas seguidas fechados numa urgência a aturar dores de cabelo e enfartamentos, um Big Mac antes do banco sabe sempre bem. Claro que com o Big Mac vêm sempre as batatas, até porque nos irritam aquelas pessoas que comem salada e cola zero com o hambúrguer só para disfarçar o erro alimentar que estão a cometer. Nós não. Nós assumimos esse erro e se é para errar, ao menos que erremos com toda a pujança! Venham de lá essas batatinhas maravilhosas e essa Coca-cola! E depois há a saída de banco, que é todo um erro alimentar do início ao fim. Estamos cansados e sentimos que merecemos aquela pizza carbonara maravilhosa da Telepizza ou aquele sushi all you can eat que nos deixa a salivar. E a nossa vida é isto. Por isso é que ao fim de dois ou três anos a fazer bancos encostamo-nos confortáveis ao nosso IMC de 30 e nem queremos saber de mais nada.

 

Vamos tentar controlar isso, pode ser? Fazer algum exercício aeróbico antes da urgência nunca fez mal a ninguém! E vamos escolher um dia da semana para cometer essas extravagâncias que nos fazem mais felizes, desde que nos comportemos nos restantes dias! Pode ser?

 

Se não pareci convincente é porque eu próprio não estou minimamente convencido, mas pronto, pelo menos tentei e a intenção é que conta. Agora tenho de ir, que o senhor da Telepizza já me está a tocar à campainha. Um excelente ano de 2019 para todos!

 

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