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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Escherichia coli: a história de uma guerreira

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“Quem me dera ter tido a mesma sorte que os meus irmãos-irmãs”, pensava Escherichia coli, enquanto se preparava para enfrentar a fúria do seu pai-mãe.

 

E. coli, como era carinhosamente chamada pelos irmãos-irmãs, nasceu e cresceu num cantinho de bexiga próximo do meato uretral que, segundo as histórias contadas pelo seu progenitor, já havia sido conquistado e colonizado pelos seus antepassados há várias horas atrás, o que equivale a séculos para uma bactéria. Com emoção, ouvira várias vezes esses contos heroicos de um grupo de enterobacteriáceas, seus tetra-tetra-tetra-avôs-avós, que valorosamente haviam conseguido transitar do tracto gastro-intestinal para o tracto génito-urinário de uma hospedeira saudável, feito do qual poucas estirpes de bactérias se podem gabar. Lembrava-se da luta que foi conseguir sair do recto, atravessar o períneo, penetrar o meato urinário e marchar corajosamente uretra acima, travando batalhas épicas contra vários jactos de urina, cujo objectivo principal era arrastá-las dali para fora, batalhas essas nas quais se perderam milhões, senão biliões, de outras bactérias. Mas não o seu tetra-tetra-tetra-avô-avó. Esse conseguiu ultrapassar todas essas adversidades, tendo vindo a falecer já dentro da bexiga, não sem antes se multiplicar e dar início a uma geração de bactérias guerreiras.

 

“Pelo menos conseguiu chegar à terra prometida”, dizia-lhe o seu pai-mãe, de lágrimas nos olhos. Quer dizer, lágrimas metafóricas, uma vez que as bactérias não têm capacidade de chorar. Nem sequer têm olhos ou glândulas lacrimais. Mas a emoção era palpável nas suas palavras. Palavras, essas, metafóricas também, claro está.

 

Seguiam-se depois as histórias dos descendentes dessa bactéria peregrina, que lutaram durante várias gerações para conseguir manter aquele pequeno oásis na sua posse, travando batalhas épicas contra as malvadas células epiteliais da bexiga, que correspondem à primeira linha de defesa da imunidade inata que, por sua vez e para quem não sabe, é o mais antigo dos mecanismos de defesa dos organismos vertebrados. Durante horas, os seus antepassados combateram a pletora de interleucinas produzidas por estes seres vis mas, no fim, conseguiram prevalecer.

 

“Por isso orgulha-te dos teus flagelos e dos teus pilli, pois é por eles que estamos aqui hoje!”, brandia o seu pai-mãe, enquanto o preparava para a batalha decisiva que se avizinhava.

 

Desde cedo, Escherichia coli fez do seu principal objectivo de vida agradar ao seu pai-mãe. Nunca teve grande espírito guerreiro, é facto, mas como resistir a este chamamento glorioso que o conduzia para a batalha? E que desfeita faria ao seu pai-mãe se se acobardasse. E. coli sabia o desgosto que o seu progenitor sentia por nunca ter sido chamado para a guerra. Uma mutação num gene que codifica os seus flagelos tornou-o incapaz de combater, facto que muito o envergonhava e fazia sofrer. Talvez por isso tenha projectado tantos dos seus desejos de grandeza para o seu filho-filha que, por obra do destino, havia nascido sem essa mesma mutação e, portanto, estava apto a batalhar. E foram talvez esses mesmos desejos de grandeza que, chegada a hora, os levou a cometer o maior erro que podiam ter cometido: tentar provocar uma infecção renal, leia-se pielonefrite, em vez de causar apenas uma infecção da bexiga, também conhecida por cistite.

 

Nessa fatídica hora, Escherichia coli e os seus irmãos-irmãs marcharam rumo ao meato ureteral, o local onde a bexiga se liga aos ureteros, que são os canais de ligação entre o sistema pielo-calicial e a bexiga e, portanto, a forma mais rápida de atingir o rim. Os ânimos estavam em alta. Parecia que todas as bactérias presentes naquela expedição partilhavam dos delírios de grandeza do pai-mãe de E. coli. Entoavam-se cânticos heroicos, metafóricos, claro, ao mesmo tempo que se sonhava com as glórias que os esperavam quando atingissem o rim e causassem uma pielonefrite.

 

“Será que a Xana vai ter febre?”, perguntavam uns. “Será que vai dar entrada no Serviço de Urgência em sépsis?”, questionavam outros.

 

“Amigos-amigas”, disse o líder do grupo, “se todos-todas vocês fizerem bem o vosso trabalho, vamos conseguir mandar a Xana para os Cuidados Intensivos!”. As bactérias aplaudiram e brandiram os seus flagelos, mais determinadas que nunca.

 

Mas afinal, quem era a Xana? A Xana era a hospedeira destas bactérias. Mulher jovem, sexualmente activa, de 28 anos que, volta e meia, lá apanhava uma ou outra infecção urinária. Fã acérrima de produtos e tratamentos naturais, mal começou a sentir um certo desconforto urinário, que é aquilo a que os médicos chamam disúria, recorreu à ervanária e comprou um extracto de arando que, segundo a senhora que lho vendeu, era melhor que um antibiótico para tratar este tipo de infecções.

 

“Esses antibióticos só fazem é mal! Vai ver que vai ficar mais que boa!”, dizia-lhe a senhora da ervanária, esfregando as mãos e arregalando os olhos enquanto a Xana introduzia o código pessoal no terminal de multibanco para pagar o produto. Escusado será dizer que o extracto de arando foi água para o tetra-tetra-tetra-avô-avó de E. coli. Ao perceber que a hospedeira tinha optado por um tratamento natural em detrimento de um antibiótico, soube que a primeira batalha estava ganha. Foi um dos seus últimos consolos antes de morrer, uma espécie de prémio-carreira para um dos guerreiros-guerreiras mais valorosos que aquele microbioma alguma vez tinha visto.

 

Infelizmente, aquilo que parecia ser uma batalha ganha rapidamente se revelou um pesadelo. À chegada ao uretero, as bactérias rapidamente perceberam que o caminho até ao rim era muito mais difícil do que se pensava. Para além de íngreme, com o efeito da gravidade a jogar contra eles e a dificultar a sua já árdua batalha contra o fluxo de urina, o epitélio do uretero, que é a camada de células que reveste este canal, era muito mais difícil de penetrar do que o da bexiga.

 

A pouco e pouco, milhares de bactérias iam perecendo, sendo novamente arrastadas para a bexiga pela urina. As poucas que sobreviviam lá progrediam lentamente, quase como um grupo de exploradores a escalar o monte Evereste. Por momentos, chegaram a ver o sistema pielo-calicial lá bem ao longe. Uma espécie de porta do paraíso para estes guerreiros que, já exaustos, apenas queriam chegar ao rim, causar infecção, descansar, reproduzir-se e colher os louros de tão valorosa batalha.

 

Claro que nessa altura a Xana já estava a começar a ficar com náuseas e dor lombar e, por esse motivo, acabou por ir à urgência. Azar dos azares, como até já estava com uma frequência cardíaca um bocadinho mais acelerada, acabou por ser triada com pulseira amarela e não verde. E esse, meus amigos, esse foi o ponto de viragem da batalha. É que um azar nunca vem só e para além de receber pulseira amarela, a Xana foi à urgência às quatro da manhã, sabendo que ia ser atendida mais rapidamente porque certamente iria haver menos gente à espera. Quase que dá vontade de torcer pelas bactérias, não é?

 

E assim foi. A Xana foi atendida em pouco mais de dez minutos, fez uma análise à urina e rapidamente foi medicada. E desta vez foi medicada com um antibiótico e não com um desses produtos de ervanária que serve para nos deixar mais leves no bolso lateral das calças (ou, em algumas pessoas, no bolso traseiro).

 

Não durou muito até que o antibiótico entrasse em circulação. E daí, em poucos minutos estava no rim. E foi aí que começou a desgraça. Os nossos guerreiros valorosos, já cansados, não foram sequer adversários para o poder do antibiótico. Morreram aos milhares, senão milhões. Uma autêntica chacina. Os poucos que sobreviveram, mais não puderam fazer senão fugir e esconder-se. Foi o caso do nosso protagonista, Escherichia coli. Apavorado por ver os seus camaradas serem brutalmente assassinados por estes bárbaros da família dos beta-lactâmicos, engoliu o orgulho e fugiu. Fugiu sem olhar para trás. De lágrimas nos olhos metafóricos e com os flagelos a dar, a dar, correu como nunca havia corrido. Lá atrás ouvia os gritos dos que iam morrendo às mãos do antibiótico. Por momentos pensou que não ia sobreviver. Mas felizmente conseguiu esconder-se num divertículo da bexiga onde os antibióticos tiveram mais dificuldade em penetrar, rezou aos deuses das bactérias que o poupassem e, milagre ou não, foi poupado.

 

Depois de deixar passar o tempo de semi-vida do antibiótico, decidiu esgueirar-se para fora do divertículo onde se tinha escondido e o panorama que encontrou deixou-o de rastos. Milhares de milhões de bactérias mortas, a ser arrastadas por aquele rio de urina hemática. Restos de paredes celulares, fímbrias e flagelos espalhados por aquele tracto génito-urinário… Enfim, não foi bonito de se ver.

 

Mas apesar do terror que o preenchia, sabia que a pior batalha ainda estava para vir. Mais do que a culpa de sobrevivente. Mais do que ter assistido à morte dos seus irmãos-irmãs e primos-primas. Mais do que o desalento por saber que nunca mais iria conseguir cumprir o seu destino. Pior que isso tudo. A desilusão que ia causar ao seu pai-mãe.

 

Vagarosamente, dirigiu-se para o seu local de nascimento, aquele cantinho de bexiga que em tempos lhe transmitiu sensações tão boas e que era agora o palco do momento mais negro da sua vida.

 

O seu progenitor assomou-se à entrada, aguardando ansiosamente notícias sobre a batalha. O ar de antecipação e alegria rapidamente se transformou em apreensão e choque quando percebeu que a sua prole vinha sozinha, exibindo vários golpes que denunciavam um desfecho desfavorável do confronto.

 

- Então, filho-filha? Como correu? – perguntou, roendo as suas unhas metafóricas.

 

- Fomos dizimados, pai-mãe. – respondeu E. coli, esforçando-se de forma hercúlea para conter as lágrimas às quais não vou chamar metafóricas para não correr o risco de ser repetitivo, mas que não existiam.

 

- Dizimados?! Como assim? O que se passou?

 

- Foi um antibiótico. Um beta-lactâmico. Atacou-nos à traição quase às portas do bacinete. Não tivemos qualquer hipótese.

 

O progenitor lançou um suspiro de incredulidade e choque.

 

- Quantos… Quantos morreram?

 

- Mais de 105 unidades formadoras de colónias.

 

- Meu Deus… Que barbaridade, que massacre! Não posso crer! O que é que lhe deu para ir à urgência?! Eu julgava que ela era daquelas parvas que só se gosta de tratar com produtos naturais!

 

- Também nós, pai-mãe.

 

- E quem foi o bárbaro que lhe prescreveu o antibiótico?

 

- Provavelmente algum interno de formação específica do primeiro ou do segundo ano.

 

- Esses mentecaptos! Têm a mania que são deuses! Assassinos, é o que são!

 

Notava-se pelo tom de voz do progenitor que o sentimento de choque rapidamente se transformava em raiva. Continuou:

 

- Achas que alguns de vocês conseguiram chegar ao rim?

 

- Eu não estava na linha da frente do batalhão, por isso sobrevivi. Mas creio que sim. Não mais de mil, certamente.

 

- Então ainda há esperança!

 

- Pai-mãe, pai-mãe… O médico que a viu nem sequer lhe pediu análises ao sangue. Só à urina.

 

- Como assim? Então mas ela não tinha dor lombar?

 

- Tinha, sim.

 

- E não tinha náuseas e vómitos?

 

- Também.

 

- E não teve febre?

 

- Teve.

 

- Quanto foi a temperatura máxima dela?

 

- 37ºC.

 

- Meu idiota! 37ºC não é febre!

 

- Mas pai-mãe, a Xana sempre teve temperaturas muito baixas! A temperatura basal dela é de 35ºC. Ela com 37ºC já se sente muito prostrada! Não será febre interior?

 

Nessa altura, o progenitor parou. Ficou a olhar incrédulo para o infinito. Não conseguiu deixar de se sentir estúpido e inútil. Disse:

 

- Eu não acredito que estou a ouvir isto da tua boca, filho-filha. Tanto tempo perdido a transmitir-te os conhecimentos mais básicos sobre infecção… Conhecimentos esses que me foram transmitidos pelo meu pai-mãe e que lhe foram transmitidos a ele pelo seu pai-mãe… E assim sucessivamente até ao teu tetra-tetra-tetra-avô-avó, paz à sua alma. Tanto empenho, tantos minutos perdidos… E para quê? Para tu me vires falar de febres interiores? Para vires questionar o mais elementar dos conhecimentos sobre saúde humana? Achas-te melhor que Hipócrates?! Que Galeno?!

 

- Não, pai-mãe.

 

- Qual é o primeiro mandamento do juramento das bactérias?

- 37ºC não é febre.

 

- Qual é o segundo mandamento do juramento das bactérias?

 

- Só se considera febre quando a temperatura corporal é superior a 38.3ºC. Assim como Hipócrates escreveu, assim se cumpra.

 

- E o terceiro mandamento?

 

- Não existe febre interior. Isso é só parvo.

 

- Então porque é que me vens falar em febres interiores?! E se a temperatura máxima dela foi 37ºC, porque raio é que dizes que lhe provocaste febre?!

 

- Oh pai-mãe, ela até disse ao médico que tinha a boca toda rebentada por causa da febre…

 

E foi aí que se fez luz na sua cabeça. O seu filho-filha era um caso perdido. Nada havia a fazer para o ajudar. Sentou-se na poltrona, lançou um longo suspiro e sem o olhar nos olhos, apenas exclamou:

 

- Devias ter morrido lá com os teus irmãos-irmãs.

Se os médicos fossem Vingadores

Depois de ter ido ver o filme "Avengers: Endgame" no meu home cinema privado, que fica no piso -1 da minha mansão com vista para o mar, acompanhado por duas modelos da Playboy que conheci há tempos numa dessas festas do jet set que frequento enquanto ponho o dedo no registo biométrico do Hospital e, supostamente, estou a trabalhar (wink, wink), não pude deixar de reparar que muitas das personagens do filme partilham semelhanças mais do que evidentes com muitos dos nossos colegas. Por isso mesmo, decidi dar asas à imaginação e utilizar o tempo em que devia estar a ver doentes na urgência para escrever este artigo, no qual estabeleço uma comparação entre os vários heróis da saga da Marvel e os médicos das várias especialidades que embelezam os Hospitais do SNS por esse Portugal fora. Espero que gostem.

 

AVISO: Este artigo contém spoilers. Se já viste o filme, prossegue. Se ainda não viste o filme porque estiveste de urgência e subsequentemente demasiado cansado/a para sequer pensar em ir ao cinema, percebo a tua dor. Vai ver o filme quando puderes e depois volta aqui (ou seja, lá para 2021, espero que o blog ainda exista nessa altura). Se não viste o filme porque não segues a saga e não te interessas muito por este tipo de filmes pouco intelectuais, o que raio é que se passa de errado contigo?! Como foi viver debaixo de uma rocha durante os últimos dez anos? Passaram muitos desses filmes pseudo-intelectuais da treta de que tu tanto gostas lá nesse buraco de onde vieste? Anyways, spoiler alert. Considerem-se avisados.

 

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Hulk - Ortopedia

 

Começamos com o mais óbvio. Se algum dos pequeninos presentes na sala achou que a Ortopedia poderia ser representada por alguém mais do que o Incrível Hulk (ou, em alternativa, o Drax), deve ter levado com um dumbbell na cabeça, só pode. Conhecido por ser o músculo do grupo, conhecemos neste último filme uma faceta mais intelectual e profunda do gigante verde que todos adoramos. Quase que fez lembrar quando o Ortopedista se lembra de pedir um raio-X do tórax a um doente ou consegue olhar para um ECG e perceber que está perante uma fibrilhação auricular. Mas tal como este herói, também o Ortopedista por muito que se esforce do ponto de vista intelectual, está lá para esmagar (salvo seja) e martelar ossos, cavilhas e próteses. Não se exige grande raciocínio da sua parte, mas tal como os Vingadores agradeceram a sua presença quando foi preciso manejar as Pedras do Infinito, também nós agradecemos a presença dos ortopedistas no SU quando cometemos o erro de pedir um raio-X a um doente com dor lombar e depois não o conseguimos interpretar.

 

Thor - Cirurgia Geral

 

Esta também é um bocado óbvia. A vida de Thor estabelece um paralelismo quase perfeito com o percurso de um interno de Cirurgia Geral. Começam por ser os galãs do pedaço (num caso, o galã de Asgard, no outro o galã do Bloco Operatório). Enquanto que Thor era sempre o primeiro a saltar para a frente de batalha, também o interno de Cirurgia Geral já nos seus tempos de aluno era o primeiro a saltar para a beira do campo operatório, enquanto os seus nove colegas se acotovelam atrás dele na tentativa desesperada de ver alguma coisa do que se está a passar na cirurgia. Nos seus tempos glórios, ambos demonstravam ser portadores de uma coragem notável em situações de perigo, seja a enfrentar vilões sádicos e perigosos como Loki ou, talvez pior que isso, suturar indivíduos alcoolizados à sexta-feira à noite na urgência de São José. Mas, infelizmente e como se pôde constatar neste último filme, tanto Thor como o interno, ou até já especialista, de Cirurgia Geral com o tempo vão acabando por perder o fôlego, ao mesmo tempo que a barriga vai inchando. E aquilo que em tempos foi um guerreiro valoroso, acaba por se tornar num gorducho mole que manda sempre os outros fazer o trabalho dele. Pena.

 

Homem-aranha - Gastroenterologia

 

Se há característica que podemos atribuir ao nosso vizinho amigável aracnídeo, essa característica é a agilidade. Haverá alguém melhor do que o alter ego de Peter Parker para sobrevoar os céus da cidade, percorrer túneis e caminhos apertados enquanto persegue os vilões e esgueirar-se por oríficios onde outros nunca entrariam? Claro que há! São os nossos amigos da especialidade do cócó! Com uma fluidez de movimento que faz corar o herói mais jovem desta saga, os gastroenterologistas também possuem a capacidade de explorar qualquer orifício, percorrer qualquer túnel ou canal, atravessar criptas, esfíncteres, pólipos e outros obstáculos, tudo com o intuito de descobrir por que raio é que o doente está a sangrar! E já os viram laquear varizes esofágicas? Se aquilo não vos faz lembrar o Homem-Aranha a prender os seus inimigos numa teia, provavelmente o vosso Glasgow está abaixo de 15.

 

 

Hawkeye - Anatomia Patológica

 

Eu sei que pode parecer estranha esta comparação. Mas desde cedo que este herói foi ridicularizado pelos parcos poderes que apresentava e pelo papel aparentemente secundário que desempenhou em todos os filmes da saga. Até que "Avengers: Endgame" chegou. Pudemos, finalmente, perceber que o homem que lança setas afinal é um membro válido da equipa, daqueles que mesmo não dando muito nas vistas, é crucial para o desenrolar da acção. Ora, as semelhanças entre Hawkeye e os vampiros da Medicina são mais que muitas. Vivem nas sombras, chamam pouco a atenção, gostam de conservar distância dos restantes colegas e alvos (que neste caso são os doentes) mas sem eles o mais provável era qualquer tipo de missão dar para o torto. E já nem falo na semelhança, mais que óbvia, entre o lançamento de setas e a marcação de lesões da mama com arpão. A propósito, acabei de descobrir que se escreve 'arpão' e não 'harpão'. Quem diria?

 

Capitã Marvel - Pediatria

 

A capitã Marvel foi uma adição relativamente recente à equipa. Sendo uma das personagens mais poderosas da saga, tem super-poderes que rivalizam com os de Thor ou de Hulk. No fundo, toda a gente a admira mas ninguém quer trocar de lugar com ela, porque sabem que no fim do dia se há alguém que tem de ir enfrentar o vilão sozinha, o mais provável é ter de ser ela. Com os pediatras é igual. Toda a gente admira o seu ar jovial e disposição, regra geral, bem disposta, mas ninguém está minimamente disposto a trocar de lugar com eles/elas. Porquê? Ainda perguntam? Experimentem apanhar um miúdo cigano de 5 anos a ter uma convulsão febril com a família toda à porta da sala de emergência pronta a sacar das naifas e começar a fazer desaparecer carteiras. Ao pé destes tipos, o Thanos é um menino. É nestas alturas que pensamos: ainda bem que há quem goste disto! Eles gostam. Valha-nos isso. Amém.

 

Doutor Estranho - Psiquiatria

 

Ninguém se quer meter com o poder da mente. E todos os restantes Vingadores olham para o Doctor Strange da mesma forma que, médicos, olhamos para os nossos colegas psiquiatras. Não sabemos o que andam por ali a fazer, sabemos que estão no mundo deles, não pescamos nada do que eles dizem e honestamente vivemos bem com isso. Limitamo-nos a tratar dos problemas mundanos e deixamos para eles os trâmites do subjectivo, da psicanálise, dos humores e das perturbações de personalidade. Quando eles chegam esboçamos um sorriso, como se a sua presença não nos causasse um ligeiro desconforto com o qual tentamos lidar, gostamos muito deles mas de preferência com uma distância de segurança.

 

Capitão América - Medicina Interna

 

O líder da equipa. Aquele que dá tudo por todos, com vista a fazer sempre o bem. Toda a gente o toma como garantido, mas quando a coisa aperta todos olham para ele com aquele olhar de cãozinho abandonado a aguardar orientações. Como um bom capitão, o internista é aquele que dá o corpo ao manifesto, sem pensar duas vezes e sem segundas intenções. Sabe que para que uns possam enfrentar aqueles vilões charmosos e bem vestidos que frequentam o privado e com isso ganhar 29 euros à hora, outros têm de ficar a enfrentar os soldados rasos e mal cheirosos nas trincheiras da urgência pública, ainda para mais a oito euros à hora. O Capitão América não está nisto por dinheiro, fama ou poder, mas sim porque gosta de fazer o mais acertado. O internista também. No fim, é ele que se voluntaria para as tarefas que ninguém quer fazer, como, sei lá, ir devolver as Pedras do Infinito à sua respectiva linha temporal ou ir transportar para outro hospital um doente cirúrgico que parou na enfermaria, foi ventilado pela Anestesia que agora diz que não o pode ir levar, esse tipo de coisas. Claro que depois acaba por pagar a conta. Enquanto os outros vão mantendo a sua aparência jovial, o internista chega ao fim ele próprio com um aspecto semelhante aos doentes que trata. Pelo menos assim tem a oportunidade de aplicar em si mesmo todos os conhecimentos de Geriatria que adquiriu durante a sua formação.

 

Homem de Ferro - Medicina Geral e Familiar

 

Infelizmente, no nosso mundo ainda há um ser mais infeliz que o internista. Refiro-me, logicamente, ao pobre do médico de família. Tal como Tony Stark, também ele é visto pelos colegas como um boémio que não gosta muito de trabalhar. Um calão que gosta é de boa vida e poucos calos nas mãos. Mas o que é certo é que no fim do dia é ele que se sacrifica para que o vilão possa ser destruído ou, adaptando isto para a nossa realidade, é para ele que mandamos as velhinhas que vão pela vigésima sétima vez nos últimos dois meses à urgência com dor torácica em contexto de ansiedade. É que para os internistas a batalha é dura mas, em princípio, termina quando o doente tem alta. Para o MGF não há altas. Já imaginaram o que isso é? Uma batalha eterna contra baixas fraudulentas, renovações de receituário, queixas inespecíficas e pessoas com necessidade de atenção? Se isso não é dar a vida pela Medicina, não sei o que será.

 

Menção horrorosa:

Thanos - Ministra da Saúde

 

Obviamente que tinha de fazer esta menção, até porque não há heróis se não existirem vilões à altura que os ponham à prova. Infelizmente por motivos legais aconselharam-me a não me referir a ninguém pelo seu nome verdadeiro, portanto vamos apenas dizer que este vilão é bastante TEMIDO por toda a gente. Wink, wink. Mas a sério, o plano de Thanos era dizimar metade das criaturas vivas do Universo, com a desculpa de que a Humanidade se tornou muito corrupta e dispendiosa para o planeta. Ao aniquilar metade dos seres vivos, Thanos pretendia que a metade remanescente prosperasse e mostrasse ao mundo aquilo de que realmente era capaz. Faz um bocado lembrar as políticas destes nossos tão queridos governantes. Reduzir pessoal, reduzir custos, pôr hospitais e centros de saúde a funcionar com metade dos recursos humanos com que deveriam funcionar e esperar que a metade que resta se sinta honrada pela oportunidade que lhe foi tão benevolamente concedida e com isso prospere e passe a produzir o dobro ou o triplo. Pelo mesmo valor, entenda-se. Claro que a coisa não podia correr bem. Se com Thanos, a metade dos heróis poupados se revoltou e acabou por levar a melhor, infelizmente parece-me que por muito que estalemos os dedos, esta vilã não vai desaparecer assim tão facilmente. Pelo menos até Outubro.

Um dia na vida de um influencer médico

 

07:00h – Olá pessoal! Prontos para mais um dia espectacular? Não? Estão cansados porque estiveram de urgência anteontem e não conseguiram descansar nada por causa dos vossos vizinhos, que fazem barulho o dia todo e dizem que estão em casa deles e podem fazer o barulho que quiserem quando vocês tentam explicar-lhes que trabalharam de noite e precisam de descansar durante o dia? Se sim, então utilizem já o código PÉROLAS para obter 20% de desconto na compra de um pack de 50 cápsulas de café de marca branca. Compatíveis com qualquer máquina, desde Delta Q até Nespresso e disponíveis em vários sabores, estas cápsulas são a forma ideal de vocês começaram o vosso dia com um sorriso na cara!

 

08:00h – Atrasaste-te a tomar banho porque ficaste a chorar mais tempo do que é costume debaixo do chuveiro e, por isso, agora não vais ter tempo de tomar o pequeno-almoço? Não há problema, porque se usares o código PÉROLAS obténs 10% de desconto na compra de iogurtes líquidos de marca branca, que poderás disfrutar durante o pára-arranca do trânsito! Mas espera, se utilizares esse código, terás ainda direito a desconto de 20% na compra de tira-nódoas instantâneo, de marca branca, para limpares a roupa quando, invariavelmente, te sujares todo/a com o iogurte numa travagem brusca!

 

08:15h – Então?! Ias sair de casa sem tomar o teu anti-depressivo? Não pode ser! E se aproveitares a oportunidade que te vou oferecer e digitares o código PÉROLAS na compra de duas caixas de fluoxetina genérica, receberás mais uma caixa totalmente gratuita! Nada melhor para transformar as lágrimas de desespero num sorriso brando de aceitação cega de que a vida é horrível.

 

10:00h – Estás a trabalhar há pouco mais de uma hora e já perdeste a conta ao número de vezes que tiveste de fazer piscinas no hospital para ir levar tubos de sangue ao laboratório, ou correr atrás de colegas de outras especialidades para os convencer a irem observar os doentes? Então aproveita esta oportunidade única para receberes um par de ténis com rodinhas que te vão permitir poupar tempo e aumentar a esperança média de vida das tuas articulações. Se introduzires o código PÉROLAS terás direito a dois pares de ténis pelo preço de um! Aproveita já!

 

11:00h – A manhã ainda só vai a meio e já te sentes exausto/a, mesmo depois de teres bebido três cafés de seguida? Então eu tenho a oportunidade ideal para ti. Utiliza o código PÉROLAS na compra de um pack de 6 latas de bebida energética de marca branca e recebe outro pack totalmente gratuito. (Atenção: promoção não inclui bebidas de marca como Red Bull ou Monster.)

 

14:00h – Acabaste agora de ver os doentes da enfermaria mas tens de ir a correr para a consulta e não tens tempo de almoçar? Não te preocupes, porque se digitares o código PÉROLAS terás direito a 20% de desconto na compra de barrinhas energéticas de marca branca, que te vão aguentar mais umas horas sem precisares de comer. Mas se fores daqueles que ainda não consegue passar sem almoçar, ao digitares este mesmo código poderás ter 40% de desconto na compra de omeprazol, que irás certamente precisar depois de engolires o teu almoço à velocidade de um TGV. Perder tempo a cortar e mastigar comida não é para ti!

 

16:00h – O computador bloqueou dez vezes e ficaste sem tinteiro na impressora e agora, por causa disso, tens uma multidão de gente à porta do teu gabinete a ameaçar-te? Ou recusaste-te a passar uma baixa de três semanas a uma utente tua com um resfriado e agora tens o marido dela a dizer que te vai bater? É nestas alturas que não me arrependo de ter tirado o curso de defesa pessoal do Mestre Kobayashi, que me permite defender-me de agressões de familiares e doentes em fúria, imobilizando-os e fugindo o mais rapidamente possível! Queres aprender a defenderes-te com o curso de defesa pessoal do Mestre Kobayashi? Então digita PÉROLAS para teres direito a 20% de desconto no curso. E se trouxeres um amigo ou amiga contigo, ambos irão ter direito a um desconto de 30%!

 

17:00h – Terminaste a consulta e só agora é que pudeste vir dar alta aos doentes da enfermaria? Enquanto estavas a imprimir as notas de alta o tinteiro ficou outra vez sem tinta? Foste tentar abanar o tinteiro e agora ficaste cheio de nódoas de tinta? Aplicaste o anti-nódoas que te falei há pouco e mesmo assim as nódoas não saíram? Uma chatice, não é? Não te preocupes, porque te vou apresentar estes tinteiros de marca branca, extra-resistentes contra abanões, para que nunca mais te voltes a sujar com tinta. Se introduzires o código PÉROLAS, terás direito a um tinteiro de cor preta por cada pack de tinteiros de cores que comprares! E não te esqueças de avisar a dona Helena que já pode imprimir o horóscopo a cores nas impressoras do hospital!

 

18:00h – Finalmente estás a sair do trabalho, mas estás totalmente de rastos e ainda vais ter de ir para casa acabar o relatório que tens em atraso ou o trabalho que vais apresentar amanhã? Então para ti, e só mesmo para ti, apresento-te aqui a minha mais recente promoção! Se utilizares o código PÉROLAS poderás, neste preciso momento, obter 30% de desconto na compra de estimulantes como o modafinil ou o metilfenidato! Mas não nos ficamos por aqui! Uma vez que é possível que desenvolvas palpitações depois da quantidade absurda de estimulantes que tomaste para aguentar o dia, vou oferecer-te também um desconto extra de 20% na compra de propranolol! É só vantagens!

 

22:00h – Ups, são dez da noite e esqueceste-te completamente que tens de jantar. Deixa lá, acontece aos melhores! Agora vais ter de encomendar pizza ou hamburguer, mas se utilizares o código PÉROLAS na compra do teu jantar, terás direito ao transporte totalmente gratuito até ao teu domicílio! Só tens de te preocupar em abrir a porta, pagar, engolir a comida e voltar ao trabalho! Não há louça para lavar, nem cozinha para arrumar! Um espectáculo!

 

01:00h – Finalmente acabaste tudo o que tinhas para fazer, foste-te deitar mas os teus vizinhos de baixo, que vivem do RSI, decidiram fazer uma festinha em casa com kizomba aos berros e estão a ignorar os teus pedidos para fazer menos barulho? Não te preocupes, o tio Pérolas está aqui para te ajudar! Introduz o código PÉROLAS e recebe um vale de 10 euros na compra de tampões para os ouvidos, de marca branca, claro está! Disfruta de uma fantástica meia-noite de sono sem seres importunado pelos teus vizinhos com estes magníficos tampões de ouvidos!

 

02:00h – Ainda acordado/a? Mesmo com os tampões nos ouvidos, não consegues adormecer porque estás constantemente a pensar que estás a arruinar a tua vida e te devias era dedicar à pesca? Eu percebo, todos já passámos por isso. Mas se digitares agora PÉROLAS, terás direito a 25% de desconto na compra de qualquer benzodiazepina. Dorme tranquilamente até seres acordado pelo teu despertador daqui a 4 horas e acordares revigorado/a para começar um novo dia!

 

Do que estás à espera para aproveitar todas estas oportunidades? Para quê sofrer? A vida é para ser vivida com um sorriso forçado e sob o efeito de estimulantes, para quando faleceres aos 55 anos, a família que negligenciaste durante toda a tua vida possa usufruir não das tuas poupanças (porque não vais ter nenhuma), mas do teu seguro de vida!

 

Pérolas da Urgência. Lixar a tua vida para salvar a dos outros nunca foi tão fixe.

A minha vida dava um filme de Hollywood

A propósito da cerimónia dos Óscares, que terá lugar esta madrugada, lembrei-me de possíveis filmes cujo título ou sinopse se enquadram perfeitamente na vida de algumas classes de profissionais de saúde que agraciam este nosso SNS.

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Médicos - "12 anos escravo"

 

O filme protagonizado por Chiwetel Ejiofor é uma boa metáfora para o percurso formativo de um médico. Seis anos de curso, um ano de internato do ano comum (recuso-me a chamar-lhe internato de formação geral) e mais cinco anos de internato. A conta que Deus fez. Sim, eu sei que para alguns colegas de especialidades cirúrgicas o título mais apropriado seria "13 anos escravo" e para outros "11 anos escravo", mas em vez de nos perdermos em pormenores, que tal lembrarmo-nos todos das chicotadas psicológicas que levámos ao longo destes anos? Do trabalho mal remunerado ou não remunerado de todo? Parece-me que a diferença mais marcante entre a nossa vida e este clássico do cinema é que, ao contrário do protagonista Solomon Northup que ao fim de 12 penosos anos de escravidão consegue atingir a tão esperada liberdade, nós, chicos-espertos que decidiram arruinar a sua vida para salvar a dos outros, continuamos destinados a uma vida de subserviência e abnegação. Ossos do ofício. Talvez um dia façam um filme sobre nós.

 

Enfermeiros - "Feios, porcos e maus"

 

A sério que pensaram que qualquer outro título seria capaz de retratar melhor a vida de um enfermeiro neste país? Depois de apelidados de criminosos, diabolizados em praça pública e negados ao direito de greve que, na teoria, devia assistir a qualquer trabalhador, parece-me que este título é uma súmula mais do que apropriada para o estado a que a classe chegou. E o mais engraçado no meio disto tudo é que o clássico do cinema italiano, que retrata a vida de uma família pobre e numerosa em que os elementos de quatro gerações se amontoam numa barraca em Roma, assemelha-se de forma mais do que irónica ao facto de que um enfermeiro hoje em dia não ganha o suficiente para poder viver sozinho num T1 na cidade de Lisboa ou do Porto. É bem, Portugal!

 

Assistentes operacionais - "Esquecidos por Deus"

 

Desenganem-se aqueles que acham que os assistentes operacionais têm uma vida fácil. Porque não têm. Fazem tantas noites como os restantes colegas, é certo que talvez não desempenhem o cargo intelectualmente mais exigente de todos mas certamente compensam com o esforço físico a que muitas vezes são sujeitos. Mobilizar e transportar doentes têm o que se lhe diga e casos de lesões crónicas contraídas no desempenho da profissão é o que não falta. Infelizmente, muitas vezes acabam por ser esquecidos pela opinião pública e também pelas chefias, daí a escolha deste título.

 

Administradores hospitalares - "Sacanas sem lei"

 

Ok, eu sei que o filme retrata a história de um grupo de judeus que se tenta vingar de nazis e que, no máximo, o final do filme retrata aquilo que qualquer um de nós às vezes gostava de fazer a quem manda em nós... Mas podemos apenas concordar que o título cabe que nem uma luva aos senhores e senhoras lá de cima? Áqueles indivíduos que dizem que não há dinheiro para nos pagar em condições, mas que depois não se importam de pagar milhões a clínicas privadas para fazerem exames complementares de diagnóstico que podiam ser feitos no público? Ou a empresas prestadoras de serviços?

 

("Os deuses devem estar loucos" seria outra alternativa apropriada.)

 

Ministra da Saúde - "Demónio de saias"

Este filme protagonizado por Meryl Streep retrata bem a impressão que cada profissional de saúde tem da senhora que apenas desde há poucos meses herdou o legado de Adalberto Fernandes. E a verdade é que Marta Temido não deixa créditos por mãos alheias. Em menos de um ano de ministério conseguiu colocar a classe médica toda contra ela quando decidiu inventar um valor de 500 euros por hora de trabalho na véspera de Natal,  ao mesmo tempo que apelidou de criminosos os enfermeiros grevistas. Tanta calinada em tão pouco tempo não é para todos. Por isso mesmo é que cada vez que a vemos na televisão, é como se estivéssemos a olhar para um demónio. Daí o título.

 

Doentes - "O silêncio dos inocentes"


O pior de tudo isto é que no fim do dia quem mais sofre são aqueles que estão no fundo da "cadeia alimentar" e que pouca ou nenhuma culpa têm do estado a que o sistema de saúde do nosso país chegou: os doentes. Pensa na quantidade de vezes que chegaste a casa frustrado/a e exausto/a depois de um dia de trabalho em que sentiste que nada funcionou, em que tiveste de lutar contra tudo e contra todos para conseguir fazer o teu trabalho da melhor maneira possível. Sentes que o sistema está contra ti. E talvez até esteja. Mas no fim do dia, tu voltas para casa e há quem não tenha essa sorte. Todos nós, sejamos médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, técnicos ou outros profissionais, somos prejudicados por este sistema viciado que só funciona para alguns. Mas não te iludas, quem sofre mais com tudo isto são, de longe, os doentes.