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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Se a Medicina fossem músicas dos Beatles

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Depois de, no outro dia, me submeter a uma maratona da discografia de um dos melhores grupos de sempre, deitei-me na cama e pensei para mim "Se a minha especialidade fosse uma música dos Beatles, qual seria?". Aquelas questões fracturantes que nos assolam a todos de vez em quando, certo?

 

E pronto, foi assim que nasceu este artigo. Shall we begin?

 

Medicina Interna - I'm So Tired

 


Começamos pelo mais óbvio. Esta pequena canção do famoso White Album (que na verdade foi apenas apelidado The Beatles) foi escrita por John Lennon após ficar cerca de três semanas sem conseguir dormir, durante um retiro espiritual na Índia, no qual era proibido consumir qualquer tipo de drogas, incluindo álcool. Terão sido os sintomas de privação a inspirar Lennon para compôr esta obra-prima? Ou talvez as saudades de Yoko Ono? Nunca saberemos, mas aquilo que vos posso dizer que me identifico a nível espiritual com esta música.

 

O estupor apático e melancólico, típico de uma saída de urgência, que caracteriza o início da canção, vai, a pouco e pouco, se transformando numa sensação de revolta contra esse mal terrível que é a insónia. No nosso caso, no entanto, a revolta não é necessariamente contra a falta de vontade de dormir, mas sim contra as poucas oportunidades que nos são dadas para o fazer. É caso para dizer: estudasses, Lennon. Estudasses.

 

Cardiologia - Here Comes The Sun

 

Mintam lá e digam-me que não ouvem esta música a tocar em loop contínuo na vossa cabeça cada vez que os deuses da Medicina descem do Olimpo para avaliar os doentes com enfarte com supradesnivelamento do segmento ST. De facto, esta pérola (passo a expressão) composta pelo quiet Beatle, George Harrison que, por motivos óbvios, a partir de agora será referido como o Beatle cujo nome não deve ser pronunciado, encaixa que nem uma luva no dia-a-dia de um cardiologista.


A forma como se faz luz no Serviço de Urgência de cada vez que eles entram pelo balcão de atendimento ou sala de emergência a dentro. Os sorrisos que se pintam nas faces de médicos, enfermeiros, auxiliares, doentes e familiares cada vez que são visitados por estas formosas criações divinas. Caramba, o Inverno acabou! Chegou o Sol! Chegou a Primavera! Amém!

Radiologia - I'm Only Sleeping

 

Os radiologistas são aqueles colegas que têm a oportunidade de trabalhar a partir de casa e relatar os exames a partir do conforto do seu lar. Cada vez mais serviços de urgência funcionam durante o período nocturno sem a presença de um radiologista. Se por um lado isto é chato, porque ficamos sem possibilidade de fazer ecografia, também acaba por ser bom. É bom para eles, que podem dormir no conforto do seu lar, mas também para nós, que não temos de passar meia hora ao telefone a tentar convencê-los da necessidade de fazer TAC abdominal a um doente em choque séptico sem ponto de partida definido. Fazemos o exame e pronto. Claro que por vezes podemos ser brindados com um ou outro comentário menos feliz no relatório do exame que pedimos, mas no fim do dia isso pouco interessa. Conseguimos o exame e já podemos ir levar o doente aos Cuidados Intensivos. Bendito IMI. Durmam à vontade, caros colegas! Bons sonhos!

 

 

Medicina Geral e Familiar - With A Little Help From My Friends

 

Achavam que os médicos preguiçosos que não quiseram estudar para tirar uma especialidade não iam ser visados aqui? Try again!

 

Pois é, estes nossos queridos amigos dos cuidados de saúde primários são muitas vezes desvalorizados, não só pela população mas, pior que isso, pelos próprios colegas. Vistos como os médicos que percebem poucochinho de muita coisa e muito sobre nada, para o povo estes são os médicos que precisam da ajuda dos amigos hospitalares para tomar qualquer tipo de decisão. E isto é injusto.

 

Imaginem-se a ter de fazer um Papanicolau. Ou a ter de dizer a uma mulher com fibromialgia de meia idade residente no Seixal que não lhe vão prolongar a baixa e que para o mês que vem de voltar para o emprego nos Correios que deixou há três anos. Com o marido e mais uns quantos gandulos à porta do gabinete a olhar para vocês com ar ameaçador. Não é agradável, pois não? Quem é que precisa de quem afinal?

Pois é. Tirem um bocado do vosso dia para dar um abracinho sentido aos vossos amigos do Centro de Saúde.

 

Internos do Ano Comum - Help!

 

Já que falamos em pedir e dar ajuda, quem não se lembra de ser um interninho do ano comum e dar por si perdido no meio de um serviço de urgência cheio de macas pelos corredores, vinte doentes à espera e quarenta acompanhantes em fúria por estarem há meia hora à espera que o seu familiar seja atendido? Todos nós já passámos por isso. Todos nós pedimos e gritámos por ajuda. Nem sempre esteve alguém do outro lado para nos ajudar, o que é triste. Vamos evitar que os mais "piquenos" de nós passem por aquilo que nós em tempos passámos, pode ser?

Se vires um IAC perdido, dá-lhe a mão e ajuda-o a atravessar a rua.

 

Psiquiatria - Lucy In The Sky With Diamonds

 

Ok, ok, eu sei que à primeira vista esta música parece não ter qualquer tipo de relação com os nossos amigos da metafísica médica. Mas pensem: conhecem algum psiquiatra que não goste desta música? Pois, eu também não. Será o tom psicadélico que caracteriza esta canção do álbum Sgt. Pepper Lonely Hearts Club Band que nos faz lembrar dos nossos colegas que tratam a mente? Bom, uma coisa é certa, certamente não terá rigorosamente nada a ver com o facto de a mensagem da música se relacionar com o consumo de drogas. E muito menos com o facto de o título ser uma referência a LSD. Wink wink.

 

(E a todos os Beatlemaniacs que vierem encher a caixa de comentários a dizer que a música não tem nada a ver com drogas e foi, isso sim, composta por John Lennon para o seu filho Julian, apenas vos digo: calem a boca, nerds. Daqui a um bocado vão dizer que o Paul McCartney não morreu nos anos 60. Nerds.)

 

Dermatologia - Money (That's What I Want)

 

Fiz uma pequena batota aqui. É que esta música, na verdade, não foi originalmente composta por nenhum dos Fab Four e corresponde, isso sim, a uma cover. Mas a sério, alguém achava que eu ia perder esta oportunidade única de mandar uma facada aos nossos colegas que escolheram a bela especialidade de Dermatovenereologia única e exclusivamente por gosto e vocação? Sim, sim, não teve nada a ver com a qualidade de vida nem com o verdinho. Nós sabemos. Wink wink, outra vez.

 

Eu, por sinal, não tenho problemas nenhuns em admitir: se tivesse tirado 100 na PNS escolhia Dermatologia. Sem pensar duas vezes. Sim, podia ser gozado por um cromo qualquer que tem uma página nas redes sociais. Mas não ia ter tempo sequer para ficar ofendido com isso, entre as consultas no privado e os jantares de gala da indústria farmacêutica. Enfim, vidas.

 

Emergência Médica - Why Don't We Do It In The Road

Eu sei que a especialidade de Emergência Médica formalmente ainda não existe, mas todos sabemos que há colegas que se dedicam exclusivamente a esta área, vá se lá saber porquê. E é a eles que dedico esta peça bluesy algo experimental composta por Paul McCartney para o álbum branco. Na verdade, tendo em conta a complexidade habitual das músicas dos Beatles, esta pode-se considerar bastante simples. Básica, na verdade. A letra consiste praticamente apenas na repetição infindável do título. Mais simples que isto era difícil. E na rua também é assim. Não há tempo para inventar. Não há tempo para raciocínios complexos. É entubar, imobilizar e siga para Bingo. Se tiver que ser no meio da rua, que seja.

- Estou sim, CODU?

- Sim, colega. Diga.

- Tenho aqui um doente politraumatizado. Acidente de viação, múltiplas fracturas. Glasgow de 10.

- OK, consegue chegar ao Hospital em quanto tempo?

- Dez minutos.

- Ok, então pode seguir.

- E a via aérea?

- Como assim?

- Não se protege a via aérea?

- Eles depois no Hospital entubam o doente, se necessário.

- Mas porque é que não o fazemos na rua?

 

Tcharan. Obrigado. Vou estar cá a semana toda. Aproveitem o buffet.

 

Medicina Paliativa - Good Night

 

 

Às vezes esquecemo-nos que parte da nossa função como médicos, mais do que diagnosticar, tratar ou curar, é proporcionar conforto e bem-estar ao nosso doente. Às vezes, dar a mão a um velhinho abandonado no Serviço de Urgência é quase tão importante como tratar a sua infecção urinária. Às vezes, explicar que vai ficar tudo bem, mesmo que corra tudo mal, é meio caminho andado para acalmar os medos e angústias da pessoa que temos à nossa frente. E por muito que nos custe, às vezes é preciso dar-lhe a mão. É preciso mostrar-lhe que não está sozinha na travessia para o outro lado. É preciso continuar a acenar à beira do rio, enquanto a pessoa entra no barquinho e segue a sua viagem. Às vezes é preciso aconchegar bem o nosso doente e dizer-lhe boa noite.