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Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Pérolas da Urgência

37ºC não é febre

Celeste, uma boa mulher

Celeste era uma boa mulher. Católica devota, mãe de cinco filhos, dedicou toda a sua vida aos outros. Desde cedo soube como a vida custava quando foi obrigada a ficar em casa a tomar conta dos irmãos, em vez de ir à escola como sempre sonhou. Quando os irmãos ficaram crescidos, rapidamente foi trabalhar para a terra com os pais, gente humilde e sem grandes posses. Mais tarde, já casada, acabou por aprender a ler e concluiu a quarta classe, completando assim um dos seus sonhos de infância.

 

Celeste casou cedo. O seu marido era Jerónimo, homem de poucas palavras e afectos, trabalhador do campo e no fundo, bem lá no fundo, um bom homem. Certo, uma ou outra vez foi mais violento com ela, sobretudo depois de algumas noites de copos. Mas Celeste, como católica praticante que era, sempre deu a outra face. Mesmo quando Jerónimo achava que uma bofetada não era suficiente. Mas vá, no outro dia de manhã pedia sempre desculpa pelo que tinha feito, jurava que não voltava a repetir e, a pouco e pouco, Celeste acabava por perdoá-lo. Afinal, se Jesus perdoou quem o crucificou, porque não havia ela de perdoar o homem a quem prometeu não abandonar? Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, certo?

 

Mas com o tempo, Jerónimo acabou por amolecer. Sobretudo após o nascimento dos netos, foram raras as vezes que lhe voltou a bater. E nunca com a força com que o havia feito no passado. Certo, Celeste passou um mau bocado quando o Senhor resolveu chamá-lo para junto Dele. Afinal, uma mulher passa a vida a dedicar a sua vida a outro ser, a transformá-lo de um ser abrutalhado num companheiro fiel com quem ainda esperava viver muitas aventuras... E o homem fina-se assim? Bom, pelo menos servia-lhe de consolo saber que Jerónimo estava com o Criador. Ou melhor, assim pensava ela. Sabemos nós que homem que bate em mulheres tem um cantinho bem especial e quentinho reservado para ele lá em baixo.

 

Mas não façamos essa desfeita à Celeste. Deixemo-la viver na ilusão de que um dia irá reencontrar o seu mais-que-tudo, pai dos seus filhos. Filhos esses que, valha-nos o Senhor, não herdaram nenhuma das características menos atractivas do pai. Carinhosos e atenciosos, sempre trataram Celeste como a princesa lá de casa, pensamento que fizeram questão de incutir aos filhos, quando os tiveram. E portanto, com o apoio da família, Celeste foi a pouco e pouco ultrapassando o trauma da viuvez.

 

Claro, se devota era quando casada, mais se tornou depois de viúva. Não havia volta a dar, os Domingos eram o dia de ir visitar o Senhor. Desde cedo tentou incutir os seus rebentos a seguirem as suas pisadas e a prostrarem-se semanalmente defronte de umas estátuas enquanto ouviam o senhor padre recitar os feitiços mágicos que pareciam hipnotizar toda a aldeia, mas infelizmente nenhum deles se tornou católico tão praticante como ela. Sinais dos tempos, dizia para si enquanto tentava convencer-se que o importante era que praticassem o bem, mesmo que se recusassem a conversar com o Criador com a mesma frequência que ela fazia.

 

Verdade seja dita, Celeste criou cinco filhos exemplares. Conseguiu ser mãe, avó, esposa, trabalhadora, conselheira, amiga... Tudo numa só pessoa. Nunca foi de chamar muito a atenção, mas quem a conhecia reconhecia-lhe o valor e o espírito guerreiro, ainda que bondoso. E, na verdade, não era preciso muito para reparar nos calos dos dedos resultantes de anos e anos a segurar enxadas e ancinhos, ou os nós dos dedos deformados de mais uns quantos anos a fazer uns biscates a costurar vestidos para gente de bem, de forma a poder complementar assim o orçamento familiar e garantir que nenhum dos filhos era privado de cumprir o sonho de estudar, se assim o quisesse.

 

E talvez todo esse esforço tenha compensado quando os anos começaram a somar-se sob os ossos cansados desta nossa avozinha querida. À medida que as costas iam encurvando, as rugas da face se tornavam mais expressivas e pronunciadas e os cabelos iam prateando, também o amor e o carinho que recebia dos filhos e netos ia aumentando. E dos bisnetos também, não fossem eles demasiado novos para sequer compreender o conceito de "mãe da avó".

 

E eis que, finalmente, depois de uma vida dedicada aos outros, o seu dia chegou. Na verdade, Celeste não se recorda bem do que se passou nesse dia. Lembra-se de acordar num sítio estranho, diferente, com uma grande quantidade de pessoas vestidas de branco à sua volta, pessoas essas que não conhecia, mas que lhe transmitiam um conforto estranho quando olhavam para ela de forma enternecida e lhe seguravam a mão. Celeste lembra-se de terem falado com ela e também de ter respondido, mas se lhe perguntarem agora do que falaram, certamente não será capaz de se lembrar. Conversas vãs, talvez.

 

A verdade é que, à medida que o tempo passava, o olhar ternurento dessas meninas e alguns meninos vestidos de branco que a rodeavam começou a transformar-se num esgar de preocupação. As bocas e olhos que antes sorriam para ela rapidamente se converteram em gritos, expressões de pânico. Aquela dança que quase os fazia flutuar em torno dela convertia-se rapidamente numa série de movimentos bruscos, toscos, em que muitos deles se atropelavam uns aos outros. A pouco e pouco mais e mais gente foi chegando. Primeiro novos, depois cada vez mais velhos, olhavam para ela com ar preocupado, coçavam a cabeça e afagavam a barba, como se algo lhes estivesse a escapar.

 

A verdade é que, de facto, Celeste não se sentia bem. Algo nela crescia, uma sensação de desconforto que insistia em não passar, mal definida, ora no peito, ora nas costas. A cabeça ficava mais e mais leve e Celeste sentia cada vez mais dificuldade em concentrar-se nas caras que a rodeavam e nos olhares transtornados que lhe lançavam. Os seus contornos esbatiam-se rapidamente e aquilo que antes eram pessoas rapidamente se transformou em vultos. Subitamente, tudo escureceu. Lá ao fundo, bem lá ao fundo, a romper o silêncio, Celeste ouviu a voz de uma mulher dizer, de forma seca:

 

"Sôtor, acho que ela vai parar".

 

Quando voltou a clarear, todos os vultos e sombras haviam desaparecido. O desconforto e mal estar que se vinha a acumular nos últimos minutos transformava-se agora numa sensação de leveza que nunca antes havia sentido, uma felicidade imensa, indescritível por palavras, que a fazia ascender em direcção às estrelas. A pouco e pouco, outros vultos iam surgindo. Vultos esses que rapidamente se convertiam em faces, incrivelmente bem esculpidas, de traços angelicais, que a fulminavam com ternura no olhar e a enchiam de alegria. Era quase como se tivesse nascido novamente. À medida que ascendia, cada vez mais Celeste tinha a certeza que tinha morrido e estava a ir para o Céu. E as faces que a olhavam só podiam ser anjos.

 

Celeste estava feliz. Finalmente, depois de uma vida dedicada aos outros, o momento dela havia chegado. Ela era a protagonista. Que especial se sentia por ser a convidada de honra daquele sítio tão especial que era o Paraíso. Será que ia reencontrar a sua mãe? A sua irmã Jacinta, de quem tanto gostava? O amor da sua vida, Jerónimo? Tantas questões, tanta antecipação! Mal se conseguia controlar. Um coro composto pelas mais belas vozes que alguma vez tinha ouvido entoava cânticos de celebração, como que a anunciar a chegada de mais uma alma à terra prometida. As lágrimas que caíam da face de Celeste eram de alegria, pura alegria, que transbordavam sob a forma se água com cloreto de sódio que os seus sacos lacrimais não mais conseguiam conter.

 

O momento havia chegado. Celeste continuava a ascender e outro vulto, este maior, de corpo inteiro, se ia assomando no seu campo visual. Uma figura masculina, de barbas brancas e longas, vestida de branco, que a fitava com um sorriso discreto, quase como se lhe estivesse a dar as boas-vindas à sua nova casa. Na sua mão direita Celeste pôde ver uma grande chave dourada, que de certeza que servia para a abrir o gigante portão, também dourado, que ia surgindo lá ao fundo, entre as nuvens.

 

"Bem-vinda, minha filha", disse o homem, com um tom de voz grave e profundo, mas terno.

 

Antes que Celeste pudesse sequer responder, sentiu como que uma corda a apertar-se com força à volta do seu pescoço. A luz desvaneceu-se rapidamente e todas os seres que sorriam e cantavam para ela foram obliterados por um relâmpago que iluminou todo o céu e apagou todo aquele cenário idílico que se desenhava à frente dos seus olhos. Depois do relâmpago, Celeste sentiu uma forte pressão a ser aplicada bem no meio do seu peito. Uma não, na verdade várias, que comprimiam a sua caixa torácica com uma força indescritível, que lhe tirava o ar e que a empurrava a pouco e pouco novamente para baixo.

 

Desesperada, Celeste tentou lutar. Sempre foi uma lutadora em vida, ainda que nunca o tenha feito de forma violenta, mas agora sentia que era imperativo debater-se. Aquele era o seu momento, ninguém tinha o direito de lho tirar. Mas nada podia fazer contra a força sobrenatural que lhe perfurava o esterno de forma ritmada e a trazia de volta à realidade. O desconforto e mal estar que antes havia sentido voltava a desenhar-se nas entranhas do seu ser, desta vez mais forte, como se as mãos invisíveis que lhe comprimiam o peito os estivessem na verdade, a fazer entrar pelo seu peito a dentro.

 

De repente, as compressões cessaram. Após poucos segundos, um novo relâmpago iluminou os céus. Este mais forte ainda que o primeiro, quase a cegava tal era a violência do impacto. Novamente, as mesmas pessoas que inicialmente a acompanharam neste sonho bizarro, aqueles miúdos e miúdas rodeadas por alguns seres mais velhos, todos vestidos de branco, iam começando novamente a surgir. Desta vez, sorriam de forma maldosa, como se tivessem satisfeitos por interromper de forma tão brusca aquele seu momento tão bonito. Lá ao longe, Celeste reconheceu algumas caras. Eram dois dos seus filhos, com as respectivas mulheres ao lado, com os olhos esbugalhados repletos de lágrimas, mãos ao peito, em pose de antecipação, como se algo de muito grave tivesse acontecido mesmo à sua frente.

 

Depois do segundo relâmpago, aquela pressão que lhe esmagava o peito voltou, mais forte que nunca. As sombras que a rodeavam iam desaparecendo a pouco e pouco e, mais uma vez, os vultos em seu redor tornaram-se cada vez mais nítidos. Celeste voltou a ouvir vozes, falando entre si de forma assertiva, sem no entanto conseguir compreender o que diziam. À medida que o seu peito ia sendo ciclicamente comprimido, o olhar de apreensão na cara dos seus filhos ia dando lugar a um esgar esperançoso, um segurar de mão apertado, um abraço vigoroso entre irmãos, quase como se festejassem uma grande vitória. As vozes dos que a rodeavam ficavam cada vez mais claras, quase a pontos de achar que lhe gritavam todas aquelas ordens e indicações ao ouvido. A certa altura, as compressões cessaram novamente. Desta vez todas as pessoas que corriam à sua volta pararam, olhando para ela com antecipação. Um dos homens mais velhos que assistia ao episódio chegou-se à frente, junto a Celeste e disse:

 

"Tem pulso. Liguem para os Cuidados Intensivos".

 

Profissionais de saúde. A atrasar encontros com São Pedro desde 1767.

 

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Escherichia coli: a história de uma guerreira

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“Quem me dera ter tido a mesma sorte que os meus irmãos-irmãs”, pensava Escherichia coli, enquanto se preparava para enfrentar a fúria do seu pai-mãe.

 

E. coli, como era carinhosamente chamada pelos irmãos-irmãs, nasceu e cresceu num cantinho de bexiga próximo do meato uretral que, segundo as histórias contadas pelo seu progenitor, já havia sido conquistado e colonizado pelos seus antepassados há várias horas atrás, o que equivale a séculos para uma bactéria. Com emoção, ouvira várias vezes esses contos heroicos de um grupo de enterobacteriáceas, seus tetra-tetra-tetra-avôs-avós, que valorosamente haviam conseguido transitar do tracto gastro-intestinal para o tracto génito-urinário de uma hospedeira saudável, feito do qual poucas estirpes de bactérias se podem gabar. Lembrava-se da luta que foi conseguir sair do recto, atravessar o períneo, penetrar o meato urinário e marchar corajosamente uretra acima, travando batalhas épicas contra vários jactos de urina, cujo objectivo principal era arrastá-las dali para fora, batalhas essas nas quais se perderam milhões, senão biliões, de outras bactérias. Mas não o seu tetra-tetra-tetra-avô-avó. Esse conseguiu ultrapassar todas essas adversidades, tendo vindo a falecer já dentro da bexiga, não sem antes se multiplicar e dar início a uma geração de bactérias guerreiras.

 

“Pelo menos conseguiu chegar à terra prometida”, dizia-lhe o seu pai-mãe, de lágrimas nos olhos. Quer dizer, lágrimas metafóricas, uma vez que as bactérias não têm capacidade de chorar. Nem sequer têm olhos ou glândulas lacrimais. Mas a emoção era palpável nas suas palavras. Palavras, essas, metafóricas também, claro está.

 

Seguiam-se depois as histórias dos descendentes dessa bactéria peregrina, que lutaram durante várias gerações para conseguir manter aquele pequeno oásis na sua posse, travando batalhas épicas contra as malvadas células epiteliais da bexiga, que correspondem à primeira linha de defesa da imunidade inata que, por sua vez e para quem não sabe, é o mais antigo dos mecanismos de defesa dos organismos vertebrados. Durante horas, os seus antepassados combateram a pletora de interleucinas produzidas por estes seres vis mas, no fim, conseguiram prevalecer.

 

“Por isso orgulha-te dos teus flagelos e dos teus pilli, pois é por eles que estamos aqui hoje!”, brandia o seu pai-mãe, enquanto o preparava para a batalha decisiva que se avizinhava.

 

Desde cedo, Escherichia coli fez do seu principal objectivo de vida agradar ao seu pai-mãe. Nunca teve grande espírito guerreiro, é facto, mas como resistir a este chamamento glorioso que o conduzia para a batalha? E que desfeita faria ao seu pai-mãe se se acobardasse. E. coli sabia o desgosto que o seu progenitor sentia por nunca ter sido chamado para a guerra. Uma mutação num gene que codifica os seus flagelos tornou-o incapaz de combater, facto que muito o envergonhava e fazia sofrer. Talvez por isso tenha projectado tantos dos seus desejos de grandeza para o seu filho-filha que, por obra do destino, havia nascido sem essa mesma mutação e, portanto, estava apto a batalhar. E foram talvez esses mesmos desejos de grandeza que, chegada a hora, os levou a cometer o maior erro que podiam ter cometido: tentar provocar uma infecção renal, leia-se pielonefrite, em vez de causar apenas uma infecção da bexiga, também conhecida por cistite.

 

Nessa fatídica hora, Escherichia coli e os seus irmãos-irmãs marcharam rumo ao meato ureteral, o local onde a bexiga se liga aos ureteros, que são os canais de ligação entre o sistema pielo-calicial e a bexiga e, portanto, a forma mais rápida de atingir o rim. Os ânimos estavam em alta. Parecia que todas as bactérias presentes naquela expedição partilhavam dos delírios de grandeza do pai-mãe de E. coli. Entoavam-se cânticos heroicos, metafóricos, claro, ao mesmo tempo que se sonhava com as glórias que os esperavam quando atingissem o rim e causassem uma pielonefrite.

 

“Será que a Xana vai ter febre?”, perguntavam uns. “Será que vai dar entrada no Serviço de Urgência em sépsis?”, questionavam outros.

 

“Amigos-amigas”, disse o líder do grupo, “se todos-todas vocês fizerem bem o vosso trabalho, vamos conseguir mandar a Xana para os Cuidados Intensivos!”. As bactérias aplaudiram e brandiram os seus flagelos, mais determinadas que nunca.

 

Mas afinal, quem era a Xana? A Xana era a hospedeira destas bactérias. Mulher jovem, sexualmente activa, de 28 anos que, volta e meia, lá apanhava uma ou outra infecção urinária. Fã acérrima de produtos e tratamentos naturais, mal começou a sentir um certo desconforto urinário, que é aquilo a que os médicos chamam disúria, recorreu à ervanária e comprou um extracto de arando que, segundo a senhora que lho vendeu, era melhor que um antibiótico para tratar este tipo de infecções.

 

“Esses antibióticos só fazem é mal! Vai ver que vai ficar mais que boa!”, dizia-lhe a senhora da ervanária, esfregando as mãos e arregalando os olhos enquanto a Xana introduzia o código pessoal no terminal de multibanco para pagar o produto. Escusado será dizer que o extracto de arando foi água para o tetra-tetra-tetra-avô-avó de E. coli. Ao perceber que a hospedeira tinha optado por um tratamento natural em detrimento de um antibiótico, soube que a primeira batalha estava ganha. Foi um dos seus últimos consolos antes de morrer, uma espécie de prémio-carreira para um dos guerreiros-guerreiras mais valorosos que aquele microbioma alguma vez tinha visto.

 

Infelizmente, aquilo que parecia ser uma batalha ganha rapidamente se revelou um pesadelo. À chegada ao uretero, as bactérias rapidamente perceberam que o caminho até ao rim era muito mais difícil do que se pensava. Para além de íngreme, com o efeito da gravidade a jogar contra eles e a dificultar a sua já árdua batalha contra o fluxo de urina, o epitélio do uretero, que é a camada de células que reveste este canal, era muito mais difícil de penetrar do que o da bexiga.

 

A pouco e pouco, milhares de bactérias iam perecendo, sendo novamente arrastadas para a bexiga pela urina. As poucas que sobreviviam lá progrediam lentamente, quase como um grupo de exploradores a escalar o monte Evereste. Por momentos, chegaram a ver o sistema pielo-calicial lá bem ao longe. Uma espécie de porta do paraíso para estes guerreiros que, já exaustos, apenas queriam chegar ao rim, causar infecção, descansar, reproduzir-se e colher os louros de tão valorosa batalha.

 

Claro que nessa altura a Xana já estava a começar a ficar com náuseas e dor lombar e, por esse motivo, acabou por ir à urgência. Azar dos azares, como até já estava com uma frequência cardíaca um bocadinho mais acelerada, acabou por ser triada com pulseira amarela e não verde. E esse, meus amigos, esse foi o ponto de viragem da batalha. É que um azar nunca vem só e para além de receber pulseira amarela, a Xana foi à urgência às quatro da manhã, sabendo que ia ser atendida mais rapidamente porque certamente iria haver menos gente à espera. Quase que dá vontade de torcer pelas bactérias, não é?

 

E assim foi. A Xana foi atendida em pouco mais de dez minutos, fez uma análise à urina e rapidamente foi medicada. E desta vez foi medicada com um antibiótico e não com um desses produtos de ervanária que serve para nos deixar mais leves no bolso lateral das calças (ou, em algumas pessoas, no bolso traseiro).

 

Não durou muito até que o antibiótico entrasse em circulação. E daí, em poucos minutos estava no rim. E foi aí que começou a desgraça. Os nossos guerreiros valorosos, já cansados, não foram sequer adversários para o poder do antibiótico. Morreram aos milhares, senão milhões. Uma autêntica chacina. Os poucos que sobreviveram, mais não puderam fazer senão fugir e esconder-se. Foi o caso do nosso protagonista, Escherichia coli. Apavorado por ver os seus camaradas serem brutalmente assassinados por estes bárbaros da família dos beta-lactâmicos, engoliu o orgulho e fugiu. Fugiu sem olhar para trás. De lágrimas nos olhos metafóricos e com os flagelos a dar, a dar, correu como nunca havia corrido. Lá atrás ouvia os gritos dos que iam morrendo às mãos do antibiótico. Por momentos pensou que não ia sobreviver. Mas felizmente conseguiu esconder-se num divertículo da bexiga onde os antibióticos tiveram mais dificuldade em penetrar, rezou aos deuses das bactérias que o poupassem e, milagre ou não, foi poupado.

 

Depois de deixar passar o tempo de semi-vida do antibiótico, decidiu esgueirar-se para fora do divertículo onde se tinha escondido e o panorama que encontrou deixou-o de rastos. Milhares de milhões de bactérias mortas, a ser arrastadas por aquele rio de urina hemática. Restos de paredes celulares, fímbrias e flagelos espalhados por aquele tracto génito-urinário… Enfim, não foi bonito de se ver.

 

Mas apesar do terror que o preenchia, sabia que a pior batalha ainda estava para vir. Mais do que a culpa de sobrevivente. Mais do que ter assistido à morte dos seus irmãos-irmãs e primos-primas. Mais do que o desalento por saber que nunca mais iria conseguir cumprir o seu destino. Pior que isso tudo. A desilusão que ia causar ao seu pai-mãe.

 

Vagarosamente, dirigiu-se para o seu local de nascimento, aquele cantinho de bexiga que em tempos lhe transmitiu sensações tão boas e que era agora o palco do momento mais negro da sua vida.

 

O seu progenitor assomou-se à entrada, aguardando ansiosamente notícias sobre a batalha. O ar de antecipação e alegria rapidamente se transformou em apreensão e choque quando percebeu que a sua prole vinha sozinha, exibindo vários golpes que denunciavam um desfecho desfavorável do confronto.

 

- Então, filho-filha? Como correu? – perguntou, roendo as suas unhas metafóricas.

 

- Fomos dizimados, pai-mãe. – respondeu E. coli, esforçando-se de forma hercúlea para conter as lágrimas às quais não vou chamar metafóricas para não correr o risco de ser repetitivo, mas que não existiam.

 

- Dizimados?! Como assim? O que se passou?

 

- Foi um antibiótico. Um beta-lactâmico. Atacou-nos à traição quase às portas do bacinete. Não tivemos qualquer hipótese.

 

O progenitor lançou um suspiro de incredulidade e choque.

 

- Quantos… Quantos morreram?

 

- Mais de 105 unidades formadoras de colónias.

 

- Meu Deus… Que barbaridade, que massacre! Não posso crer! O que é que lhe deu para ir à urgência?! Eu julgava que ela era daquelas parvas que só se gosta de tratar com produtos naturais!

 

- Também nós, pai-mãe.

 

- E quem foi o bárbaro que lhe prescreveu o antibiótico?

 

- Provavelmente algum interno de formação específica do primeiro ou do segundo ano.

 

- Esses mentecaptos! Têm a mania que são deuses! Assassinos, é o que são!

 

Notava-se pelo tom de voz do progenitor que o sentimento de choque rapidamente se transformava em raiva. Continuou:

 

- Achas que alguns de vocês conseguiram chegar ao rim?

 

- Eu não estava na linha da frente do batalhão, por isso sobrevivi. Mas creio que sim. Não mais de mil, certamente.

 

- Então ainda há esperança!

 

- Pai-mãe, pai-mãe… O médico que a viu nem sequer lhe pediu análises ao sangue. Só à urina.

 

- Como assim? Então mas ela não tinha dor lombar?

 

- Tinha, sim.

 

- E não tinha náuseas e vómitos?

 

- Também.

 

- E não teve febre?

 

- Teve.

 

- Quanto foi a temperatura máxima dela?

 

- 37ºC.

 

- Meu idiota! 37ºC não é febre!

 

- Mas pai-mãe, a Xana sempre teve temperaturas muito baixas! A temperatura basal dela é de 35ºC. Ela com 37ºC já se sente muito prostrada! Não será febre interior?

 

Nessa altura, o progenitor parou. Ficou a olhar incrédulo para o infinito. Não conseguiu deixar de se sentir estúpido e inútil. Disse:

 

- Eu não acredito que estou a ouvir isto da tua boca, filho-filha. Tanto tempo perdido a transmitir-te os conhecimentos mais básicos sobre infecção… Conhecimentos esses que me foram transmitidos pelo meu pai-mãe e que lhe foram transmitidos a ele pelo seu pai-mãe… E assim sucessivamente até ao teu tetra-tetra-tetra-avô-avó, paz à sua alma. Tanto empenho, tantos minutos perdidos… E para quê? Para tu me vires falar de febres interiores? Para vires questionar o mais elementar dos conhecimentos sobre saúde humana? Achas-te melhor que Hipócrates?! Que Galeno?!

 

- Não, pai-mãe.

 

- Qual é o primeiro mandamento do juramento das bactérias?

- 37ºC não é febre.

 

- Qual é o segundo mandamento do juramento das bactérias?

 

- Só se considera febre quando a temperatura corporal é superior a 38.3ºC. Assim como Hipócrates escreveu, assim se cumpra.

 

- E o terceiro mandamento?

 

- Não existe febre interior. Isso é só parvo.

 

- Então porque é que me vens falar em febres interiores?! E se a temperatura máxima dela foi 37ºC, porque raio é que dizes que lhe provocaste febre?!

 

- Oh pai-mãe, ela até disse ao médico que tinha a boca toda rebentada por causa da febre…

 

E foi aí que se fez luz na sua cabeça. O seu filho-filha era um caso perdido. Nada havia a fazer para o ajudar. Sentou-se na poltrona, lançou um longo suspiro e sem o olhar nos olhos, apenas exclamou:

 

- Devias ter morrido lá com os teus irmãos-irmãs.

As 5 coisas que mais detesto na Medicina

Bom dia, amigos e amigas! Decidi começar a semana com mais uma sessão de catarse informática, desta feita sob a forma de um artigo em que partilho convosco as coisas que mais me irritam na profissão de médico. Não que queira começar a semana numa nota negativa, mas se é para mandar vir com a vida nada melhor do que fazê-lo a uma segunda-feira. Parece-me óbvio.

 

Em primeiro lugar, um disclaimer. Eu adoro ser médico. Talvez isso não transpareça no tom com que escrevo muitos dos meus textos mas é a mais pura da verdade. Quando o escolhi ser fi-lo de forma consciente e informada, sabendo perfeitamente que ser um bom médico envolve dar muito de nós aos outros sem esperar a devida recompensação, monetária ou outra. Não me imagino a fazer mais nada da minha vida, apesar das múltiplas vezes em que ao longo dos últimos anos me questionei se não seria mais feliz a trabalhar na caixa do Pingo Doce ou a servir à mesa. Dúvidas todos temos e isso é normal. O que interessa é que, no fim do dia, saibamos que o rumo que estamos a dar à nossa vida é o mais correcto.

 

Atentem, no entanto, que qualquer pessoa que diga que continuaria a exercer Medicina se ganhasse o Euromilhões está a aldrabar-vos. Eu sou o primeiro a admitir: a única dúvida que teria se me calhasse o Euromilhões seria que música escolher para fazer a minha saída triunfal do Hospital, depois de rescindir o contrato, rasgá-lo de forma dramática em frente ao Conselho de Administração e desfilar pela saída do Hospital com o dedo do meio bem erguido no ar para que todos pudessem ver. Ah, claro, e que animal escolheria para montar enquanto o faço. Um lama? Um dragão de komodo? Tudo questões válidas.

 

Mas mesmo sabendo que esta foi a vida que um sôtor escolheu, há certas e determinadas coisas na profissão de Medicina das quais desgosto particularmente. É nessas que me vou centrar, por ordem crescente de asco ou desespero que me provocam.

 

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5 - Discutir doentes com colegas de outras especialidades

 

OK, começo logo por aquela que considero potencialmente mais controversa. Eu detesto ter de discutir doentes com colegas de outras especialidades. E bem sei que na Medicina ninguém trabalha sozinho, todos dependemos uns dos outros e devemos colocar os egos de lado para promover o melhor interesse dos doentes. Ainda assim, não vale a pena tentar negar que, apesar de parecermos muito corporativistas para quem vê de fora, a verdade é que muitos de nós são uns autênticos, perdoem-me o francês, cabrõezinhos para os colegas. Particularmente para os colegas mais novos. Eu, pessoalmente, já perdi a conta ao número de vezes em que me irritei com colegas que, do conforto do seu lar, acham inadmissível que eu não saiba ver que a lesão isquémica que aparece na TC crâneo-encefálica do doente é antiga e não recente. Ou que, como é óbvio, uma dilatação de 12 mm do bacinete não é motivo para se ligar à Urologia às três da manhã. E atenção, isto serve para os dois lados. Também não me parece admissível que refilemos com um psiquiatra ou com um ortopedista por confundir um flutter auricular com uma fibrilhação auricular. Gozar com eles na Internet? Claro. Ser incorrecto com eles em pessoa? Não.

 

Tratem os colegas com respeito, gente! Independentemente da idade ou grau de diferenciação! Aquilo que para vocês parece óbvio porque o veêm todos os dias, para outro colega pode não ser! Mais: se estás em casa de prevenção e recebes uma chamada de um colega de presença física na urgência, tenta ser paciente. Eu sei que é chato ser acordado a meio da noite com uma dúvida que para ti é óbvia. Mas pensa: tu estás no conforto do teu lar e não há nada melhor que isso! Quer dizer, se estivesses num hotel de cinco estrelas na Polinésia Francesa talvez isso fosse melhor, mas tu entendeste o que quis dizer! Fazer urgência em presença fixa, com doentes à espera, acompanhantes mal-criados e sem dormir há vinte horas é e será sempre pior do que estar em casa de prevenção! Não sejas arrogante e tenta ajudar os colegas. Se achas que o doente não tem indicação cirúrgica ou não se justifica a realização de um determinado exame que o colega está a propôr, justifica-o de forma fundamentada e ajuda-o a melhorar. Não sejas um idiota que projecta as suas frustrações pessoais e profissionais em cima dos colegas mais novos. Isso não te vai fazer sentir mais feliz, a sério.

 

4 - Convencer as famílias a levar o doente para casa

 

Mais uma vez, novo disclaimer: bem sei que há gente que vive mal e não tem condições para ter os familiares, geralmente idosos e dependentes, em casa. Bem sei também que muita gente, por muito que goste do familiar, não lhe consegue prestar o apoio que precisa. Ainda assim, lamento informar-vos, mas a maioria dos casos de abandono hospital que presencio são perpetrados por gente que não vive assim tão mal e que, com algum esforço, até conseguia ter o paizinho ou a mãezinha em casa. Abandonar um familiar no hospital devia ser uma solução de último recurso, reservada para aqueles casos dramáticos em que, pura e simplesmente, não é possível prestar em ambulatório os cuidados ao doente que ele precisa. O hospital não deve ser o depósito de idosos. O hospital não deve ser usado como o local onde se vai deixar o doente porque não dá jeito tê-lo em casa. Ou porque nos apetece ir passar o fim-de-semana fora e não podemos levar o velho atrelado.

 

E mesmo nas situações dramáticas em que o internamento social é a única opção, a primeiríssima coisa que os familiares deviam fazer era ir tentar resolver a sua vidinha de forma a conseguir tirar o doente do hospital o mais rápido possível! Infelizmente não é isso que vejo. Não é infrequente ser no dia da alta que a família se lembra que não consegue ter o familiar em casa, apesar de já previamente informada, por várias vezes, que o dia da alta se está a avizinhar. Isto frustra-me de uma forma que eu não consigo exprimir por palavras. 

 

É que explicar a um familiar o porquê de o doente estar melhor em casa parece-me uma discussão fútil e uma perda de tempo. Mesmo que a família não tenha noção das complicações inerentes ao internamento, vulgo infecções nosocomiais, perda de autonomia, delirium, iatrogenias, etc., parece-me intuitivo que, sempre que possível, o doente fica melhor em casa do que no hospital! Isto na minha cabeça é óbvio. E sempre foi, mesmo antes sequer de ter entrado para Medicina.

 

Sim, é verdade que os recursos sociais extra-hospitalares deste país estão longe de ser perfeitos. E o elevado número de casos de abandono hospitalar deste país não têm a ver apenas com egoísmo ou má-fé dos familiares. Em defesa da verdade e por uma questão de justiça, é importante dizer que há muita coisa a melhorar, particularmente no que diz respeito à existência de lares com mensalidades que não sejam absolutamente incomportáveis de pagar ou vagas em cuidados continuados ou paliativos. Ainda assim, o mais importante a mudar é a mentalidade do povo. Enquanto isso não mudar, todos os investimentos irão cair em saco roto.

 

3 - Desempenhar funções que não me competem

 

Vá, vá, não se enervem, eu tenho perfeita noção que não existe trabalho nenhum em que pontualmente não tenhamos de fazer alguma tarefa para a qual não nos pagam ou que deveria ser feita por outra pessoa qualquer. Nâo há trabalhos perfeitos e isso também se aplica à Medicina. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a levantar-se de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para ir à procura do doente na sala de espera porque já o chamámos três vezes pelo intercomunicador e ele não apareceu. Não há sítio nenhum, pelo menos no serviço público, em que não tenha de ser o médico a telefonar às famílias de vez em quando (ou sempre, como no meu hospital) para informar que o doente tem alta. É assim em todo o lado e não é exclusivo da profissão médica, já sei.

 

Dito isto, a quantidade de tempo do nosso dia de trabalho que perdemos a resolver questões informáticas ou burocráticas que não nos dizem respeito é abismal. É absolutamente abismal. Ou é a impressora que não funciona e é preciso mudar o toner que ninguém sabe onde está. Ou é preciso telefonar trinta vezes para o secretariado da Imagiologia a pedir por amor de Deus para não nos marcarem a TAC que estamos a pedir para daqui a três semanas. Ou é preciso preencher um formulário qualquer que alguém se lembrou de criar para prescrever um determinado fármaco mas ninguém sabe muito bem onde está. Ou é preciso enviar dez e-mails para a Informática para nos virem arranjar o PC que não funciona há três dias. Ou é preciso esperar quase cinco minutos para que a PEM nos permita passar receitas na urgência...

 

Enfim, o Serviço Nacional de Saúde é um pesadelo burocrático. Não há outra forma de o dizer. De tal forma que me arrisco a dizer que o problema em Portugal não é a falta de médicos, mas sim a forma como somos criminalmente mal aproveitados. E basta ver que qualquer país da União Europeia mais evoluído que Portugal tem um rácio médico/habitante inferior ao nosso. Amigos, habituem-se à ideia: não é preciso abrir mais vagas nas faculdades de Medicina para resolver os problemas do SNS.

 

2 - Ver o meu recibo de vencimento

 

Esta também não é exclusiva da Medicina, bem sei. Provavelmente toda a gente que se encontra a ler este texto neste preciso momento partilha desta opinião. A não ser que o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou o Joe Berardo se encontrem a ler isto. Nesse caso, a próxima mensagem é para vocês: paguem o que devem, seus caloteiros! Não vou perder mais tempo neste tópico. Oito euros à hora.

 

1 - Transmitir más notícias às famílias

 

Num tom mais sério, termino com aquilo que, de longe, me custa mais em ser médico. E que, curiosamente, é a única coisa que sei que nunca vai mudar e que será sempre da minha responsabilidade, por muito que as coisas melhorem. Eu detesto, odeio mesmo, ter de comunicar más notícias às famílias. É horrível. E não me interpretem mal, eu tenho perfeita noção que, isto sim, tenho de ser eu a fazer. A responsabilidade de comunicar más notícias, trate-se de falecimentos ou agravamento da situação clínica, é e sempre deverá ser do médico. Mais ninguém. Mas custa. Se custa.

 

Até me considero uma pessoa relativamente impermeável, apesar de empática, à quantidade de coisas macabras que vejo no dia-a-dia, mas se houve situações que me ficaram marcadas na memória e que me hão-de perseguir para o resto da vida, certamente serão aqueles momentos em que tenho de comunicar a uma senhora que o seu marido acabou de falecer. Não é fácil explicar a alguém que a vida continua, mesmo depois de ter perdido a sua companhia dos últimos 50 anos. E cada reacção é diferente. Algumas pessoas choram, outras ficam incrédulas, outras revoltadas. A nossa função é saber lidar com todos os sentimentos que aquela notícia provocou na família. É mostrar-lhes que fizemos o nosso melhor para evitar aquele desfecho. Ou então, e talvez até mais importante que isso, é explicar-lhes que tentámos tudo para que a transição do seu ente querido para o outro lado fosse o mais pacífica possível. É transmitir-lhes alguma calma e serenidade num dos piores momentos da sua vida.

 

Esta, amigos e amigas, esta sim, é a tarefa que mais me custa fazer enquanto médico. Curiosamente, ou não, é a única que não dispensaria fazer mesmo que pudesse. Ossos do ofício.

Medicina só há uma

Depois de assistir ao debate Prós e Contras transmitido ontem na RTP 1, subordinado ao tema "Medicina convencional VS Medicinas alternativas", decidi trazer-vos aqui algumas reflexões sobre o tema para tentar, de algum modo, combater o barulho estatístico e ruído de fundo que se gera à volta deste tema e que em nada ajuda aqueles que verdadeiramente querem aprender algo sobre o tema.

 

 

Em primeiro lugar, começo por dizer que achei todo o debate de uma deselegância atroz. No meu entender, os únicos "palestrantes" que se comportaram à altura da ocasião foram o Dr. André Casado e o Dr. Hélio Pereira, cada um pertencendo a lados opostos da discussão. Todos os demais limitaram-se a partir para o insulto pessoal e escárnio. Com destaque para particular para um tal João Beles que, pela forma como se comportou durante todo o debate, creio que podemos concluir que se trata de um autêntico idiota. E esta é a única conclusão que não precisa de estudos prospectivos para ser retirada.

 

Dito isto e com a promessa que vou tentar, com todas as forças, não insultar mais ninguém e manter-me o mais sereno possível, vou partilhar convosco algumas ideias sobre este tema.

 

1 - Somos amigos, não inimigos.

 

Antes de começar a falar sobre o debate em si, quero apenas deixar um ponto assente, mesmo sabendo que para muitos as minhas palavras irão certamente cair em saco roto: nenhum médico está interessado em algo mais do que o melhor para o doente. E isto tem de entrar na cabeça das pessoas, nem que seja à martelada, o que seria irónico porque estaríamos a fazer mal a alguém para lhe provar que queremos o seu bem. Marteladas metafóricas, entenda-se. Qualquer médico que actue com outro interesse em mente que não o bem do seu doente deixou de ser médico há muito tempo. Por favor, gente boa, entendam isto. Há médicos bons e há médicos maus, sem dúvida. E quando digo maus não me refiro a incompetência. Refiro-me a maldade mesmo. Infelizmente há médicos que abusam de doentes, física ou psicologicamente. Ainda ontem li um artigo sobre um dentista (OK, não é bem médico, mas bear with me, please) que fazia procedimentos de extracção dentária a crianças sem anestesia e removia muito mais do que os dentes necessários  para obter benefícios em termos de segurança social. Isto aconteceu nos Estados Unidos e infelizmente este canalha não foi punido de forma alguma. Isto é um escândalo e revolta-me as entranhas tanto ou mais do que a vocês.

 

Infelizmente, a população humana distribui-se de forma gaussiana pelo espectro da bondade e maldade, ou seja, a maior parte de nós é suficientemente bom para conseguir conviver em sociedade, mas alguns de nós estão em um dos dois extremos, seja do lado Charles Manson, seja do lado, vá, Jesus Cristo. E na classe médica é igual. Não há curso nem exame que permita separar os bons dos maus. Agora, uma coisa vos posso garantir: a esmagadora maioria dos médicos com quem se vão cruzar durante a vossa vida faz parte do grupo de pessoas que quer o vosso bem, no matter what. Eu sei que pareço um bocado o João Beles quando atiro assim estatísticas vagas sem provas evidentes para o que estou a dizer, mas se vos posso apelar à emoção e ao sentimento por uma vez que seja, que seja agora. A maior parte de nós quer o vosso bem e não está aqui para vos prejudicar de forma nenhuma. Portanto, acreditem, se algum tipo de terapêutica descrita como não convencional fosse, de forma contundente e sem margem para dúvidas, descrita como eficaz, nós seríamos os primeiros a adoptá-la na nossa prática clínica.

 

2 - O título do debate é estúpido.

 

Ok, comecei logo a ajavardar no segundo tópico, eu sei. Mas é verdade. Segundo a Wikipédia (fonte mais credível que a maior parte dos estudos trazidos à discussão no debate de ontem), a Medicina é a ciência responsável pelo diagnóstico, tratamento, prognóstico e prevenção de doenças. Ora, tendo em conta que nenhuma das pseudo-ciências defendidas pela facção das "Medicinas não convencionais" comprovou, pelo método científico, ter algum tipo de efeito benéfico em nenhum destes âmbitos, chamar-lhes "Medicinas" é errado. Medicina só há uma. É a que diagnostica, previne e trata doenças e estabelece prognósticos. Tudo o resto será outra coisa qualquer, mas pelo amor da santa não lhe chamem Medicina. A partir do momento em que se conclua, de forma categórica e definitiva, que alguma destas "terapias" tem eficácia em algum destes pontos, passará logicamente para o campo da Medicina. 

 

"Ah e tal mas o bem-estar também é muito importante". Pois é. E muitas destas "terapias" assentam justamente nisso, na promoção do conforto e bem-estar. Isso não as torna Medicina. Senão, reparem: quando vou ao ginásio sinto bem-estar porque por momentos acredito que um dia vou deixar de ser um gordo sedentário e aquele é o meu primeiro passo da operação Verão 2019. Isso significa que fui ao médico? Quando eu chego a casa e os meus gatos me vêm receber à porta, transmitem-me bem-estar. Isso significa que estão a exercer Medicina? Quando fui ao Vietname uma senhora quis fazer-me uma massagem com final feliz. Será que isso a qualifica como profissional de saúde? Pois, é importante não misturar as coisas. Medicina só há uma.

 

3 - Só há uma forma de comprovar a eficácia de uma determinada terapêutica.

 

Ao contrário daquilo que esse tal João Beles disse quando apresentou uma pirâmide desenhada por ele no Powerpoint (pouco depois de ter acusado outro elemento do debate de apresentar gráficos sem fontes, o que torna tudo ainda mais irónico), as meta-análises não são o instrumento estatístico de maior força na determinação de eficácia de determinada substância ou acto terapêutico. E até estranhei como nenhum dos três palestrantes do lado da verdade o tenha referido. Os estudos científicos com maior poder estatístico são os estudos prospectivos, ou seja realizados ao longo do tempo e não de forma retrospectiva, ou seja, analisando dados passados, que incluam amostras representativas da população, tanto maiores quanto possível,  nos quais sejam comparados dois grupos de indivíduos, o grupo de pessoas que recebe determinado fármaco ou acto terapêutico VS o grupo de pessoas que não o recebe, de preferência duplamente cegos (ou seja, nem o doente nem o médico sabem que grupo recebe o quê). E apenas é possível confirmar que uma determinada molécula ou procedimento tem eficácia quando se comprova de forma estatisticamente significativa, ou seja, com um grau de probabilidade superior a 95%, que o grupo que a tomou teve melhores resultados, nos endpoints definidos pelos autores do estudo. E mesmo depois disso, para poder concluir isso é preciso ajustar os dois grupos no que diz respeito aos outros factores todos, ou seja, garantir que as comparações são feitas entre pessoas do mesmo sexo, idade e com as mesmas doenças ou características. Mas calma que isto não fica por aqui! Para que essa mesma molécula ou acto terapêutico seja integrado nas recomendações de prática clínica é geralmente necessário que mais estudos de qualidade o comprovem.

 

Quando analisamos todos os estudos apresentados pelos palestrantes defensores das "terapias não convencionais" concluímos que nenhum cumpre estes critérios. Ou seja, é intelectualmente desonesto e cientificamente errado dizer, por exemplo, que o chá verde ajuda a curar o cancro, quando nos baseamos em estudos sem qualidade. Reparem que ninguém nega que naquele estudo as pessoas que beberam chá verde tiveram menos cancro. Aquilo que nós defendemos é que não se pode, com base em estudos de 30 pessoas, dizer que o chá verde previne cancro da próstata. Nem sabemos quem são essas 30 pessoas! Seriam mais velhos ou mais novos? Teriam história familiar de cancro ou não? Tinham os mesmos factores de risco para desenvolver cancro? Não sabemos. Só sabemos que esse grupo teve menos cancro. Mas não podemos tirar conclusão absolutamente nenhuma com esses dados.

 

4 - O número de estudos que existem sobre determinada matéria não significa rigorosamente nada.

 

Perdi a conta ao número de vezes que ouvi ser dito coisas como "já foram feitos não sei quantos estudos" sobre um determinado tema. E então? O que é que isso me diz? Que estudos são esses? Têm qualidade? E quais foram os resultados desses estudos? É que, por exemplo, se eu escrever "tabaco" na Pubmed ou em outro motor de busca qualquer de literatura científica, vão aparecer-me centenas, senão milhares de estudos. Isso significa que o tabaco agora é terapêutico? Pode ser considerado uma terapia não convencional?

 

Este argumento é falacioso. O número de estudos sobre um determinado tema não significa nada, enquanto não soubermos que estudos foram, se foram estudos de qualidade ou se, por outro lado, foram estudos como os que o João Beles apresentou para defender a utilidade do chá verde no tratamento do cancro e, mais importante que tudo, que conclusões foram tiradas desses mesmos estudos. Frases vagas a apelar a um argumento de autoridade que não existe servem apenas para ludibriar as pessoas menos informadas e, quiçá, sacar alguns aplausos da plateia, como se viu ontem.

 

5 - Dizer que as terapias convencionais já estão aprovadas no estrangeiro não significa rigorosamente nada.

 

A determinada altura, ouvi o senhor Pedro Choy dizer que na China há centenas ou milhares de locais onde se pratica "terapia" tradicional chinesa. E então? O que é que isso contribui para o debate? Vamos usar a China como elemento comparativo do que quer que seja? A esperança média de vida em Portugal é superior à da China. E agora? O índice de desenvolvimento humano de Portugal é superior ao da China. E agora? Os cuidados de saúde prestados à população portuguesa são, em média, incomparavelmente superiores aos da população chinesa. E agora?

 

Da mesma forma, foi dito várias vezes que noutros países do mundo, incluindo na União Europeia, estas práticas já tinham sido aprovadas na prática clínica. Voltamos ao mesmo: e então? O que é que isso me diz? Nada. Isto serve apenas para utilizar o complexo de inferioridade subconsciente do tuga: se tudo o que vem lá de fora é melhor e se lá fora se faz, então é porque é bom. Lembrem-se que estes defensores das terapias alternativas são, mais do que outra coisa, excelentes marketeers. E toda esta conversa do estrangeiro serve apenas para usar o complexo de inferioridade do tuga contra ele próprio. É outro argumento de autoridade que não serve para nada. Por exemplo, eu podia dizer que na Arábia Saudita uma mulher que seja acusada de bruxaria é condenada à morte. Isso significa que é bom? É para implementar em Portugal também?

 

6 - O efeito placebo é muito importante.


Durante o debate foi também introduzido o tema do efeito placebo e das doenças que passam sozinhas. Foi dado o exemplo da gripe. Por definição, a gripe é uma doença auto-limitada, ou seja, dura alguns dias e depois passa. Eu até me posso banhar em urina de elefante da Malásia e ao fim de três dias estou curado. E então? Foi o xixi do paquiderme que me curou? Já para não falar em toda a envolvência psicossomática da coisa. A dor é o exemplo clássico do sintoma que é experienciado de forma completamente diferente de indivíduo para indivíduo. Isso explica a diferente tolerância à dor que cada pessoa tem. E mesmo a própria pessoa pode sentir a dor de forma diferente de dia para dia. Isto porque há um componente psicológico muito importante na sensação subjectiva da dor. A ansiedade e a depressão são exemplos clássicos de doenças que alteram e muito a modulação da dor.

 

Ou seja, falar no caso da dona Alzira que sofre de ciática há dois anos, que foi vista por vários médicos que não lhe resolveram o problema e que a seguir foi ao naturopata ou osteopata e ficou curada, lamento informar-vos, mas não significa rigorosamente nada. Primeiro, porque como foi dito, não sabemos até que ponto é que a dona Alzira não podia ter ficado curada de forma espontânea. Lembrem-se que o corpo humano é uma máquina muito complexa e tem uma capacidade regenerativa importante. Depois, esquecemo-nos de dizer que a dona Alzira estava muito deprimida e começou entretanto a tomar anti-depressivo, o que coincidiu com a melhoria da dor. Por fim, também não dissemos que a dona Alzira fica sempre nervosa quando vai ao médico e a dor aumenta de intensidade nessa altura. Já quando vai ao naturopata e é recebida num consultório limpinho, com uma secretária sorridente e atenciosa, com musiquinha ambiente calma, com cheiro de incenso no ar e sentadinha numa cadeira confortável, se calhar fica logo melhor antes sequer de ser vista pelo "terapeuta".

 

E mesmo que nada do que eu disse se aplique e de facto a dona Alzira melhorou mesmo com a naturopatia, fico muito feliz por ela e ainda bem que assim foi, mas um testemunho isolado, por muito importante que seja para aquela pessoa, não significa nada em termos estatísticos. Daí ter sido dito, e bem, que os testemunhos têm pouca importância na análise estatística da eficácia de determinada terapêutica. O facto de ter funcionado bem com a dona Alzira não significa que funcione bem com o senhor Artur ou com a dona Rosa. E muito menos deve ser usado como factor para ser incorporado em guidelines. Isso é só intelectualmente desonesto.

 

7 - O facto de muita gente recorrer a acupunctura não significa rigorosamente nada.

 

Por fim, foi dito também pelo senhor Pedro Choy, mesmo no fim do programa e já numa tentativa de descridibilizar e demonizar os seus adversários apelando ao sentimento do povo, que se mais de dois milhões de pessoas recorreram às "terapias" convencionais, é porque só podem ser benéficas. Isto seria o mesmo que dizer que se toda a gente fala ao telemóvel enquanto conduz, é porque só pode ser bom e tem de ser recomendado. Ou dizer que a convocatória para a Selecção Nacional devia ser feita por referendo e não por indicação do seleccionador. Ou que a nossa estratégia militar na guerra do Ultramar devia ter sido tomada por jardineiros e não por generais. Isto é estúpido. As pessoas, regra geral e particularmente em Portugal, têm uma literacia em relação à saúde muito baixa. E não há mal nenhum em não se dominar determinado tema, ninguém nasce ensinado. Eu, por exemplo, não percebo rigorosamente nada de mecânica e por isso mesmo é que quando o meu carro tem algum problema deixo-o no mecânico em vez de me pôr a inventar.

 

As decisões devem ser tomadas pelos especialistas em determinado tema e não por quem acha que percebe. Utilizar o argumento "se toda a gente faz é porque é bom" dá vontade de utilizar o argumento igualmente estúpido de "se toda a gente se atirasse para um poço, ias atrás?". Mas aí íamos parecer o João Beles e perdíamos a razão toda.

 

Enfim, em jeito de conclusão, quero dizer que fiquei desiludido com o debate. Acho que não serviu para elucidar ninguém de coisa nenhuma e por isso quero apelar a todos os meus colegas que não se deixem levar pelas emoções quando discutem este tipo de questões. Sejam pragmáticos e transmitam confiança aos doentes. Vocês têm a razão do vosso lado. E entendam também que ignorância e tendência para o conspiracionismo vai sempre existir. Faz parte do ser humano. Alguém vai sempre achar que há algo mais e que alguma coisa está a ser escondida por alguém. O ocultismo é muito mais interessante do que a ciência. Por isso é que as pessoas se matam umas às outras pela religião. Por isso mesmo, lembrem-se: o vosso dever com o doente é transmitir-lhe sempre a verdade e zelar pelo seu melhor interesse. Mas no fim do dia, o corpo e o poder de decisão é dele e não há nada que possam fazer em relação a isso. Não se consumam com isto. Se a coisa correr bem, óptimo. Se correr mal... Bom, Darwin chamava-lhe selecção natural.

Os exames orais deviam ser proibidos

Olá a todos e a todas. Depois de um parto difícil o canudo de especialista já cá canta. Que é o mesmo que dizer que as responsabilidades duplicam e o ordenado... Nem por isso! Ah, a vida é bela!

Mas deixemo-nos disso. Depois deste exame que me tirou umas duas décadas de vida, decidi partilhar aqui hoje convosco a minha opinião sobre uma praga com a qual temos vindo a lidar desde o início da nossa formação académica: os exames orais.

 

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Quem os defende diz que o exames orais são de grande importância para nos ensinarem a lidar o stress e a treinar as nossas capacidades de comunicação com outros seres humanos. Pois bem, amigos e amigas, eu estou aqui para vos dizer que isso é tudo peta. Para mal dos meus pecados, faço exames orais com alguma regularidade desde há uns doze anos e hoje posso-vos dizer com toda a propriedade que aquilo que ganhei com este tipo de exames foi mais ou menos o mesmo que ganhei em sair mais tarde 90% dos dias de trabalho.


Ou seja, nada.

 

1 - São provavelmente a forma mais injusta de avaliar um candidato

 

Todos conhecemos aquele tipo que pode não fazer ideia do que está a falar, mas por ter uma grande lábia safa-se sempre à grande nas orais. Também conhecemos aquela pobre coitada que se farta de estudar e até sabe as coisas, mas como é tímida e introvertida chega aos exames orais e dá a sensação que não sabe. Todos ouvimos a história daquele professor rebarbado da faculdade que dá notas inversamente proporcionais ao tamanho da saia e directamente proporcionais ao tamanho do decote. E o contrário também é verdade, ou seja, também há aqueles (felizmente cada vez menos frequentes) que ainda acham que determinadas especialidades não são para mulheres e correm as alunas todas a doze. Enfim, há-de tudo. E é inevitável que assim seja. Afinal, o ser humano é um animal intrinsecamente aldrabão, ou seja, colocar o poder de decisão sobre a vida académica de alguém nas mãos de uma pessoa é, no mínimo, injusto.

 

2 - Dão muito menos trabalho

 

Estão a ver aquelas faculdades de Medicina e aqueles internatos que gastam imenso dinheiro aos contribuintes e com quem toda a gente agora se preocupa? Pois bem, uma vez que mais de metade das pessoas responsáveis pela formação de internos e alunos nas universidades e hospitais fazem-no pro bono ou a um preço simbólico, é fácil perceber que dá muito mais jeito "pagar" a alguém para fazer meia dúzia de perguntas de quando em vez a uns quantos candidatos, do que "pagar" a esse mesmo alguém para elaborar um teste escrito e, cruzes credo, ter de o corrigir depois. Já para não falar na quantidade de papel e toners que se gastam no processo. E a canseira de ter de pensar em perguntas novas todos os anos ou semestres. Não pode ser! Por isso é que pelo menos no meu tempo havia umas quantas cadeiras cujo exame era igual todos os anos. Os alunos agradeciam, isso é certo. Agora, qualidade formativa? Nem vê-la.

 

3 - Não se pode avaliar um aluno de Medicina em exames de escolhas múltiplas.

 

Pronto, aqui eu até percebo. Afinal, quem é que se ia lembrar de fazer um único exame de escolhas múltiplas baseado num único livro para decidir o futuro académico ou profissional de centenas de médicos e médicas, não é? Não faz sentido nenhum. OK, ironias à parte, eu sei que não se deve falar dos defuntos, mas o Harrison, com todos os defeitos que tinha (e se é que os tinha), pelo menos tinha uma coisa que os exames orais não têm: era igual para todos. Era injusto? Claro que sim. É ridículo obrigar os alunos a penar seis anos de faculdade para depois a média de faculdade não contar para absolutamente nada? Sem dúvida. Mas uma coisa é certa: podias ir com a saia mais curta do teu guarda-roupa, ou podias ser filho do Dr. Sampaio Miranda, pouco interessava. No fim, eras avaliado como todos os outros. Há cerca de oitocentas e quarenta e três outras formas mais justas que o Harrison para se avaliar a qualidade de um recém-formado em Medicina, sem dúvida. Mas uma coisa é certa, e digo isto as vezes que forem precisas, um exame de escolha múltipla é, sempre foi e sempre será mais justo do que qualquer exame oral. E se há cadeiras ou temas que não é possível avaliar por escolha múltipla, também foi para isso que Deus criou as perguntas de desenvolvimento.

 

4 - "Ah mas um médico precisa de saber gerir o stress e comunicar bem com outras pessoas!"

Amigos e amigas, volto a dizer: eu fiz dezenas de exames orais durante a faculdade e posso dizer que quando me defrontei com o meu primeiro edema agudo do pulmão à séria, no meu ano longínquo de IAC, borrei-me todo na mesma. Nada teria sido diferente, tivesse eu feito zero, um ou mil exames orais durante o meu percurso formativo. O stress faz parte da nossa profissão, porra! Lidamos com pessoas doentes! Umas mais, outras menos, mas todas doentes, nem que seja só da cabeça. Uma decisão mal tomada pode ser sinónimo de consequências sérias para doentes, família e para nós próprios! A única forma de aliviar o stress é lidar com ele de frente! É ver doentes, ver muitos doentes. É assistir a situações horríveis, é errar às vezes, é ter sucesso noutras! É ficarmo-nos a sentir uma valente trampa quando fazemos asneira, ou ficarmos no topo do mundo quando fazemos a diferença na vida de alguém. E com o tempo, aquela angústia de não saber o que fazer com o doente à nossa frente vai-se transformando em confiança, sempre com respeito pela insignificância do nosso conhecimento em relação à vastidão da Medicina.

 

E o mesmo se aplica em relação a saber comunicar com os doentes. Qualquer especialista em comunicação na área da saúde vos dirá aquilo que eu vos vou dizer: ninguém nasce a saber comunicar. Uns têm mais jeito que outros, é verdade, mas a comunicação com doentes, familiares e colegas é uma arte que se aprimora com a prática. É uma técnica que se desenvolve ao longo do tempo. Certamente não é a falar do esternocleidomastoideu que se aprende a comunicar. E de certeza que não se aprende a lidar com o stress quando estamos prestes a ter uma lipotímia naquele momento em que, por azar, nos perguntam justamente aquele tema que não estudámos tão bem e acabámos de nos aperceber que, não só chumbámos ou tirámos uma nota baixa, como vamos ser humilhados e sair do exame com a nossa auto-estima feita em trapos. Lembrem-se, aquele onze que vocês tiraram naquela longínqua cadeira da faculdade que detestaram já lá vai. Está enterrado no meio das milhentas cadeiras das quais gostaram e se saíram bem. Mas se esse onze foi o resultado de uma oral em que o professor vos fez duas ou três perguntas que vocês não sabiam tão bem, depois com os nervos a coisa bloqueou e no fim levaram o onze só porque responderam qualquer coisa ou desataram a chorar no meio do exame, essa humilhação fica. E deixa marcas. Ou se esse mesmo onze foi o resultado do facto de terem tido um filho da mãe de um examinador que não foi com a vossa cara e vos fez a vida num inferno, essa raiva fica também. E deixa marcas.

 

Amigos e amigas, os tempos do Vasquinho da Anatomia e do esternocleidomastoideu já passaram. Nessa altura morria-se de apendicite, agora, regra geral, já não. Se a Medicina evoluiu, porque é que a forma de avaliar o conhecimento em Medicina não evolui também?